Pesquisar

Frei Betto: direita, volver!

A democracia liberal tem um limite: sempre que a acumulação do capital é ameaçada, os democratas aposentam urnas, rasgam Constituições e colocam tropas na rua

Frei Betto
Manifestantes são reprimidos pela polícia em frente ao Congresso Nacional da Argentina, em Buenos Aires. 01/02/24. (Foto: Santiago Sito / Flickr)

Seria a história pendular? Uma no cravo e outra na ferradura? O fato é que nessa primeira metade do século XXI o mundo retrocede à direita.

O que entendo por direita? São de direita todos os negacionistas, aqueles que preferem mentiras às certezas das ciências. São de direita os racistas, os homofóbicos, os misóginos, os que se julgam superiores a todos que não têm a mesma cor de sua pele.

São de direita os que negam à mulher o direito de decidir sobre o próprio corpo, não admitem o aborto em determinadas circunstâncias, mas apoiam a pena de morte e aplaudem policiais que matam bandidos e suspeitos de crimes, e se omitem enquanto o governo de Netanyahu massacra a população civil de Gaza. 

A política de direita quer o Banco Central autônomo do governo de seu país, porém dependente do sistema financeiro internacional. Abomina refugiados, grita contra a Rússia por ocupar a Crimeia e se cala frente à ocupação de Guantánamo e de Porto Rico pelos EUA. 

O que se enxerga no fim desse túnel? Pelo que ensina a história, guerras. A ampliação global dos conflitos regionais, como ocorreu na primeira metade do século passado. 

A democracia liberal tem um limite: a supremacia da acumulação do capital em mãos privadas. Todas as vezes que esse privilégio é ameaçado, os democratas aposentam as urnas, rasgam as Constituições e colocam as tropas na rua. Por meio de golpes de Estado ou eleições, instalam governos ditatoriais em nome da ordem, dos bons costumes e da defesa de Deus, família e propriedade.

Na primeira metade do século XX, foram os casos de Hitler na Alemanha; Mussolini na Itália; Franco na Espanha; Salazar em Portugal; Duvalier no Haiti; Somoza na Nicarágua; Trujillo na República Dominicana; Stroessner no Paraguai; e Vargas no Brasil. O período conheceu duas grandes guerras que tiveram a Europa como palco principal: a primeira, entre 1914 e 1918, e a segunda entre 1939 e 1945. As duas deixaram um saldo de pelo menos 70 milhões de mortos!

Antonio Candido dizia que a maior conquista do socialismo não ocorreu nos países que adotaram esse sistema, e sim na Europa Ocidental. Com medo do comunismo, a burguesia europeia preferiu entregar os anéis a perder os dedos. Implantou a social-democracia e ampliou os direitos da classe trabalhadora. 

Derrubado o Muro de Berlim, a burguesia arrancou a máscara e exibe, agora, sua verdadeira face, a que defende a militarização das relações diplomáticas e a supremacia da acumulação do capital privado sobre o exercício dos direitos humanos. Assim, implanta governos autoritários declaradamente de direita, tolerantes com a ascensão neonazista e intolerantes com as políticas sociais dos governos progressistas. Exige ajuste fiscal e sonega impostos. As recentes eleições para o Parlamento Europeu reforçaram os partidos de centro-direita. A União Europeia se submete, hoje, aos ditames da Casa Branca.

A esquizofrenia política se acentua. Apesar de tantos eventos internacionais em prol da preservação ambiental, do combate à fome e da paz, os acordos assinados não são levados à prática. Não há força política que detenha o uso de energia fóssil, o aumento dos gastos em armamentos (em 2023, no mundo, somaram 2,4 trilhões de dólares), e os conflitos em vários pontos do planeta.

Hoje, quase 1 bilhão de pessoas passam fome no mundo. Apenas dez empresas controlam o mercado de alimentos: Nestlé, PepsiCo, Unilever, Mondelez, Coca-Cola, Mars, Danone, Associated British Foods (ABF), General Mills e Kellogg’s. Todas europeias ou estadunidenses, e centradas na produção e venda de ultraprocessados, que causam danos à saúde humana. 

Segundo a Oxfam, elas faturam, por dia, 1,1 bilhão de dólares. O consumidor que vai ao supermercado e encontra variedade de produtos ignora que muitos pertencem à mesma empresa. 

Como se altera essa conjuntura? No caso do Brasil, reforçar o governo Lula, porque a alternativa é a volta da caserna golpista; atuar intensamente nas eleições municipais de outubro em prol de candidatos progressistas; e retomar o trabalho de base. Redes digitais não são ruas. As redes fazem ruído, mas as ruas falam mais alto. Movimentos sociais, sindicais e pastorais precisam voltar aos protestos e reivindicações públicas. 

No âmbito mundial, apoiar a constituição de uma nova governança global que tenha caráter mais democrático, atuação mais efetiva e supere a inoperância da ONU. Estabelecer a regulação das redes digitais, de modo a submetê-las às leis constitucionais dos países e à Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Mas será que haverá tempo para implementar medidas antes que irrompa um novo conflito mundial? O tempo dirá.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Aldeia do silêncio” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Revista Opera A Revista Opera é um veículo popular, contra-hegemônico e independente fundado em abril de 2012.

Continue lendo

Mural anti-imperialista pintado na Embaixada dos EUA em Teerã após a crise dos reféns. (Foto: Phillip Maiwald (Nikopol) / Wikimedia Commons)
Sanções como guerra civilizacional: o custo humanitário da pressão econômica dos EUA
Em diferentes contextos, líderes de extrema direita promovem um modelo de governança que algema o Estado de suas funções redistributivas, enquanto abre caminho para que o cripto-corporativismo baseado em IA opere livremente – às vezes até promovendo seu uso como política oficial do Estado. (Foto: Santiago Sito ON/OFF / Flickr)
Por que a extrema direita precisa da violência
Entre 1954 e 1975, as forças armadas dos Estados Unidos lançaram 7,5 milhões de toneladas de bombas sobre o Vietnã, o Laos e o Camboja, mais do que as 2 milhões de toneladas de bombas lançadas durante a Segunda Guerra Mundial em todos os campos de batalha. No Vietnã, os EUA lançaram 4,6 milhões de toneladas de bombas, inclusive durante campanhas de bombardeios indiscriminados e violentos, como a Operação Rolling Thunder (1965-1968) e a Operação Linebacker (1972). (Foto: Thuan Pham / Pexels)
O Vietnã comemora 50 anos do fim do período colonial

Leia também

São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Brasília (DF), 12/02/2025 - O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, durante cerimônia que celebra um ano do programa Nova Indústria Brasil e do lançamento da Missão 6: Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais, no Palácio do Planalto. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O bestiário de José Múcio
O CEO da SpaceX, Elon Musk, durante reunião sobre exploração especial com oficiais da Força Aérea do Canadá, em 2019. (Foto: Defense Visual Information Distribution Service)
Fascista, futurista ou vigarista? As origens de Elon Musk
Três crianças empregadas como coolies em regime de escravidão moderna em Hong Kong, no final dos anos 1880. (Foto: Lai Afong / Wikimedia Commons)
Ratzel e o embrião da geopolítica: a “verdadeira China” e o futuro do mundo
Robert F. Williams recebe uma cópia do Livro Vermelho autografada por Mao Zedong, em 1 de outubro de 1966. (Foto: Meng Zhaorui / People's Literature Publishing House)
Ao centenário de Robert F. Williams, o negro armado
trump
O Brasil no labirinto de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, com o ex-Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado Henry Kissinger, em maio de 2017. (Foto: White House / Shealah Craighead)
Donald Trump e a inversão da estratégia de Kissinger
pera-5
O fantástico mundo de Jessé Souza: notas sobre uma caricatura do marxismo
Uma mulher rema no lago Erhai, na cidade de Dali, província de Yunnan, China, em novembro de 2004. (Foto: Greg / Flickr)
O lago Erhai: uma história da transformação ecológica da China
palestina_al_aqsa
Guerra e religião: a influência das profecias judaicas e islâmicas no conflito Israel-Palestina