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Eleições em SP: a morte do candidato-espetáculo e o caminho de Boulos

Derrotado no primeiro turno, Marçal teve parcela relevante dos votos entre os mais pobres, que Boulos deverá buscar por meio da combatividade

Pedro Marin
O candidato Guilherme Boulos com seu punho direito erguido, em cima de um caminhão de som, no centro de São Paulo. Ao seu redor, dezenas de apoiadores, sua vice, Marta Suplicy, e o presidente Lula.
O candidato à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, durante caminhada ao lado do presidente Lula em São Paulo. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Em meu último artigo sobre as eleições paulistanas, fiz uma aposta analítica: Pablo Marçal (PRTB) seria premiado, nos dias anteriores ao pleito, com uma proporção maior dos votos dos que decidem tardiamente, uma parcela relevantíssima do eleitorado em toda eleição e, em particular, nas eleições municipais. Antevi, além disso, que o candidato efetivamente realizaria sua ação espetacular prometida desde o início da campanha para a véspera do pleito. A soma dos dois fatores, avaliava, tenderia a levar o candidato ao segundo turno.

De fato, a penúltima pesquisa Datafolha, publicada horas após o artigo, no dia 3 de outubro, identificou o movimento: Marçal crescia, se igualando a Nunes na marca de 24% dos votos, com Boulos na dianteira. O Datafolha também identificou que 19% dos entrevistados havia decidido seu voto nos últimos dias, e 11% na semana anterior. Isto é: o crescimento de Marçal na reta final efetivamente coincidiu com a decisão dos retardatários, que se expressou em 30% dos entrevistados. A Quaest do dia seguinte reforçou o diagnóstico, apontando Marçal na dianteira, com 27%, seguido por Boulos, com 26%, e Nunes, com 24%.

Também a ação espetacular, a falsificação grotesca, como previsto, veio. Mas não no último debate antes das eleições, na noite do dia 3 – provavelmente pelo acerto estratégico da campanha de Boulos, que puxou no debate um exame toxicológico negativo – e sim no dia seguinte. O laudo falso de Marçal impressiona pela desfaçatez: tudo nele foi evidentemente falso. O médico que o assinava já era falecido; a clínica da qual provinha era de um amigo pessoal de Marçal; havia erros de português (o laudo diz que “o Sr. Guilherme Castro Boulos, por minha atendido […]”); e até os números dos documentos de Boulos estavam errados. Provavelmente informado pelos dados do Datafolha, a aposta de Marçal com a falsificação, evidentemente, não era retirar votos de Boulos, a quem o ataque poderia até gerar uma onda de solidariedade, mas de Nunes, capturando a parcela de extrema direita que veria nele, então, o verdadeiro cavalo contra Boulos.

Aparentemente, o tiro saiu pela culatra. Felizmente, Marçal, pela margem mais estreita da história (0,93%, ou 56.835 votos), foi superado por Boulos, que ficou em segundo lugar. Marçal tomou para si a decisão do futuro, sem deixar margens para a fortuna, mas esta insistiu em comparecer, no dia das eleições, de três formas:

Primeiro, ao contrário do que apontava o Datafolha do dia 3 e a Quaest do dia 4 (a Paraná Pesquisas do dia 5 chegou mais perto dos resultados), Marçal não disputou a vaga do segundo turno com Nunes, que teve 29,48% dos votos, mas sim com Boulos, que teve 29,07%. Isto é: na reta final, Marçal errou o alvo, impulsionando seu concorrente principal, já que sua ação espetacular, embora tendo Boulos como alvo, buscava roubar votos de Nunes.

Em segundo lugar, a abstenção foi muito maior do que a prevista. Se Marçal poderia ser premiado justamente pelo eleitor que, carregando o sentimento de indiferença e desconfiança com a política, decidiria tardiamente, acabou obliterado por um desânimo ainda maior, daquele que sequer quis exercer sua decisão. A abstenção chegou a 2,5 milhões de eleitores, ou 27,34% (mais do que a votação somada de Nunes e Boulos). Só foi menor que a abstenção de 2020, quando as eleições se deram no pico da pandemia de coronavírus e sem o transporte público gratuito. Em comparação, nas eleições de 2016, a taxa de abstenção foi de 21,84%, com 1,9 milhão de eleitores deixando de votar. A diferença destes números teria sido fundamental para que Marçal obtivesse os 56 mil votos que lhe faltaram.

Por fim, a ação assertiva da Justiça, que retirou as redes sociais de Marçal por sua falsificação, também colaborou com a derrota do candidato-coach. Este fator, embora provavelmente menor, privou Marçal, nos momentos anteriores do encontro dos eleitores com as urnas, de seu principal instrumento de comunicação, inclusive com a perda de todo o acervo de suas patetices produzidas.

Assim, dissentindo das expectativas deste analista, o candidato-espetáculo acabou liquidado, provavelmente pela opulência de seu próprio espetáculo. O simulacro de Bórgia efetivamente deverá acabar como Ramiro de Lorca: não porque perdeu no primeiro turno de raspão, mas porque, na ânsia de definir seu destino por meio das eleições municipais, concorreu para selar, por meio de seus delitos, sua futura degola política. Tendo confrontado todos, da extrema direita à esquerda, somente uma arbitrariedade flagrante da Justiça poderia deixar o caminho livre para Marçal voltar a concorrer a eleições – arbitrariedade que só poderia ser motivada por poderosos interesses ligados à centro-direita, ironicamente.  

O caminho de Boulos no segundo turno

Atrás de Nunes no primeiro turno por 25 mil votos (ou 0,41%), será fundamental a Boulos compreender bem os números de Marçal.

Mesmo que o psolista contasse com uma transferência completa dos votos de Tábata Amaral (9,91%), Datena (1,84%), Ricardo Senese (0,09%), Altino Prazeres (0,05%) e João Pimenta (0,02%) – o que é muito improvável – ainda lhe faltariam cerca de 10 pontos percentuais: o candidato somaria, neste caso, 40.98%, ou 2.503.593 votos, ao passo que Nunes e Marçal somaram no primeiro turno, juntos, 3.520.413. Isto é, Guilherme Boulos haverá de buscar ao menos 1 milhão de votos até o segundo turno; o que paradoxalmente deverá ser encontrado entre os eleitores daquele que, na reta final, voltou todos os canhões contra o psolista.

Guilherme Boulos venceu no primeiro turno nas regiões mais ricas (onde Marçal foi o perdedor absoluto) e nos extremos da cidade, particularmente na zona sul. Apesar disso, Marçal abocanhou uma parcela significativa dos votos das regiões mais pobres (entre 25-28%), e venceu na Zona Leste “média”, onde uma ascendente classe média divide espaço com expressivos bolsões de pobreza, do Tatuapé a Itaquera. Venceu, ainda, em regiões notáveis do extremo leste: Teotônio Vilela, Parque do Carmo, São Miguel Paulista, Ermelino Matarazzo e Cidade Líder. 

Essa distribuição geográfica dos votos demonstra que há um eleitorado inestimável das classes mais baixas que optou por Marçal no primeiro turno, provavelmente motivado por dois afetos que o candidato-coach tão bem representou: a indignação e a busca por prosperidade, por “vencer na vida”. Dois afetos que se traduzem, em tempos e lugares onde não há perspectiva de futuro, numa espécie de niilismo profundamente individualista. A relevância destes sentimentos e do ajuste ou desajuste da mensagem dos candidatos fica evidente num levantamento da Globonews, de setembro, segundo o qual Boulos dedicou 72% de sua agenda às periferias, e Marçal 7%, embora tenham tido resultados tão semelhantes nos lugares onde o metrô não alcança.

Ao fim, Boulos se confrontará com Nunes no segundo turno, mas sob a sombra de Marçal. Caberá ao psolista encarnar o espírito de mudança e a combatividade do candidato-coach contra Nunes, mesmo que para isso incorra no risco de perder apoio nos bairros ricos, onde foi tão bem votado e Marçal tão execrado.

​​(*) Pedro Marin é fundador e editor-chefe da Revista Opera. É editor de Opinião de Opera Mundi, autor de “Aproximações sucessivas – O Partido Fardado nos governos Bolsonaro e Lula III”, “Golpe é Guerra – Teses para enterrar 2016”, e co-autor de “Carta no Coturno – a volta do Partido Fardado no Brasil”.

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