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Vijay Prashad: o ataque infernal de Israel contra os palestinos em 18 de março

Os escombros aumentarão. O desespero crescerá. O genocídio continua.

Vijay Prashad
Por que os israelenses quebraram o cessar-fogo? Não há uma boa razão. Nada foi feito no terreno pelos palestinos para provocar esse retorno à violência mortal. A troca de prisioneiros transcorreu da forma mais tranquila possível e o processo de verificação do cessar-fogo estava intacto. (Foto: Pamela Drew / Flickr)
Por que os israelenses quebraram o cessar-fogo? Não há uma boa razão. Nada foi feito no terreno pelos palestinos para provocar esse retorno à violência mortal. A troca de prisioneiros transcorreu da forma mais tranquila possível e o processo de verificação do cessar-fogo estava intacto. (Foto: Pamela Drew / Flickr)

No dia 18 de março de 2025, Israel quebrou unilateralmente o acordo de cessar-fogo e bombardeou vários locais em Gaza. Estima-se que pelo menos 400 palestinos, na maioria civis, tenham morrido em decorrência das bombas israelenses. Jornalistas em Gaza reportaram que, entre os mortos, 174 são crianças. Mais uma vez, famílias inteiras foram dizimadas. O chefe da Organização das Nações Unidas para a Palestina (UNRWA), Philippe Lazzarini, afirmou que os israelenses provocaram um “inferno na Terra”. A Secretária-Geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, descreveu a situação como “o pesadelo infernal de um intenso bombardeio”. A palavra “inferno” está na boca de todos. Ela define a situação atual em Gaza.

O ataque de Israel

Por que os israelenses quebraram o cessar-fogo? Não há uma boa razão. Nada foi feito no terreno pelos palestinos para provocar esse retorno à violência mortal. A troca de prisioneiros transcorreu da forma mais tranquila possível e o processo de verificação do cessar-fogo estava intacto. Existem, no entanto, três pontos de interesse que podem ter levado os israelenses de volta à violência.

Primeiro, os palestinos envergonharam o governo israelense em pelo menos duas questões: ao marcharem rumo ao norte, em centenas de milhares, para retomar o norte de Gaza em 27 de janeiro; e ao permitirem que os prisioneiros israelenses demonstrassem empatia com seus captores quando foram libertados (ao ponto de soldados israelenses beijarem militantes do Hamas que os haviam mantido reféns).

Em segundo lugar, o governo israelense quebrou o cessar-fogo e, em seguida, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu readmitiu em seu gabinete três membros do partido de extrema-direita Otzma Yehudit (Itamar Ben-Gvir, Amichai Eliyahu e Yitzhak Vassirulov), que haviam renunciado por conta do cessar-fogo. Esse retorno reforça o governo de Netanyahu. É característico de Netanyahu eliminar palestinos para manter seu próprio poder político.

Por fim, a autorização do presidente dos EUA, Donald Trump, para atacar o governo do Iêmen em retaliação por sua defesa dos palestinos acendeu um sinal verde para Israel retomar as hostilidades. O Ansar Allah, do Iêmen, foi o único grupo restante que continuou atacando Israel por causa de seu genocídio (o Hezbollah do Líbano e as facções sírias foram, em geral, silenciados).

Palestinas grávidas

De acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), há 50 mil mulheres palestinas grávidas em Gaza, com 4 mil prestes a dar à luz no próximo mês (uma média de mais de 130 por dia). Atualmente, essas mulheres não contam com um atendimento médico adequado. O governo israelense bloqueou, durante duas semanas, a entrega de 54 máquinas de ultrassom e nove incubadoras portáteis (essenciais para bebês prematuros). Os cortes no fornecimento de eletricidade e água, somados aos centros médicos e hospitais destruídos, impuseram um fardo desproporcional sobre os profissionais da saúde e, consequentemente, sobre as gestantes.

O Dr. Yacoub (nome alterado), médico do Kuwait Hospital em Gaza, relatou duas histórias significativas enquanto as bombas caíam novamente. Uma mulher de trinta anos, grávida de 22 semanas, chegou ao hospital vindo de al-Mawasi, em Khan Younis, com uma lesão na cabeça causada por um ataque aéreo israelense. Ela morreu no hospital. Ao examiná-la, o médico constatou que seu bebê também havia falecido. Uma segunda mulher, com 12 semanas de gestação, sofreu um aborto espontâneo. Ela chegou em terrível dor. Sua mãe contou ao médico: “Mal conseguimos chegar a este hospital. Mal encontramos transporte. A situação está instável, com bombardeios e medo. Viemos aqui com medo”. Uma das duas mulheres morreu. Ambos os bebês estão mortos. “Em tempos de guerra”, disse o Dr. Yacoub, “a devastação se estende além do campo de batalha, afetando vidas inocentes, inclusive as de gestantes e seus bebês por nascer”.

Reabrindo gaza

Contra todas as expectativas, a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino conseguiu reabrir o Hospital al-Quds, no bairro Tal al-Hawa, na Cidade de Gaza. O hospital havia sido bombardeado pelos israelenses e estava fechado desde novembro de 2023. O Comitê de Emergência do Norte de Gaza, criado por civis há três anos, reuniu-se para decidir sobre a absoluta necessidade de tentar fornecer algum atendimento médico, apesar do contexto sombrio. Conseguiram restabelecer duas salas de cirurgia, um departamento de emergência e clínicas ambulatoriais.

É importante lembrar os leitores de que, durante este genocídio, Israel mirou os palestinos que foram líderes dos Comitês de Emergência e que estiveram envolvidos na entrada de ajuda humanitária em Gaza. Por exemplo, em março de 2024, aeronaves israelenses alvejaram e mataram Amjad Hathat, um líder popular de um Comitê de Emergência no oeste de Gaza, e o brigadeiro Fayeq al-Mabhouh, um policial que coordenava a entrada de ajuda humanitária através da agência palestina da ONU (UNRWA). O assassinato de pessoas como Hathat e al-Mabhouh deixou os palestinos no norte de Gaza sem aqueles que possuíam a expertise necessária para trazer ajuda a Gaza e distribuí-la entre os palestinos. Apesar dessa perda, outros assumiram a responsabilidade, inclusive os exaustos funcionários da UNRWA.

Durante o cessar-fogo, a UNRWA abriu 130 espaços de aprendizagem temporários em toda Gaza, matriculando impressionantes 270 mil meninos e meninas. Como escreveu o chefe da UNRWA, Lazzarini, “a educação para as crianças restaura um pouco de esperança. Ajuda-as a se ajudarem e a se reconectarem lentamente com sua infância”. Mas ele escreveu isso em 15 de março. Israel iniciou seu bombardeio novamente três dias depois.

Os escombros aumentarão. O desespero crescerá. O genocídio continua.

(*) Tradução de Raul Chiliani

Globetrotter O Globetrotter é um serviço independente de notícias e análises internacionais voltado aos povos do Sul Global.

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