Se o petróleo já vinha enfrentando alguns dias de volatilidade nos mercados com a escalada do conflito entre Israel e o Irã, o bombardeio pelos Estados Unidos a três infraestruturas nucleares na madrugada de sábado (21) colocou em jogo a ação mais poderosa que Teerã tem em mãos e que poderia acabar afetando diretamente os bolsos dos consumidores em todo o planeta: o Parlamento iraniano aprovou o fechamento do estreito de Ormuz.
Este canal, situado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, é a via por onde passam diariamente 20% do petróleo comercializado mundialmente e cerca de 30% do gás liquefeito (GNL). Não se trata apenas da produção e exportação do próprio Irã, quarto maior produtor mundial de petróleo e segundo na OPEP, atrás apenas da Arábia Saudita, mas também do fato de que por esse corredor passam as exportações de potências produtoras de hidrocarbonetos da região como Iraque, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar.
Os mercados acordaram com uma alta do barril de petróleo Brent acima dos 80 dólares, o pico mais alto desde janeiro deste ano. No entanto, após a agitação da abertura dos mercados, voltou a se posicionar em torno dos 75 dólares. Isso significa que os investidores não acreditam que o Irã vá fechar o estreito de Ormuz, mas a expectativa continua e a volatilidade dos preços persiste. Além disso, embora o preço ainda não tenha disparado, sua cotação atual está muito longe dos US$60-US$65 por barril registrados há apenas duas semanas, pouco antes do agravamento do conflito entre Israel e o Irã com a troca de ataques.
Postos de gasolina e conta de luz
Embora os mercados ainda não tenham certeza de que o Irã se atreverá a fechar sua principal via de exportação de hidrocarbonetos, o que também colocaria em risco suas exportações e as de seus países vizinhos e aliados, muitos analistas apontam que, em caso de fechamento, os preços do barril poderiam subir para mais de US$100. Alguns deles apontam até que o preço do petróleo poderia disparar para níveis próximos dos 150 dólares.
O fechamento do estreito e a escalada dos preços para níveis superiores a US$100 disparariam os preços dos combustíveis em todo o planeta. Ou seja, os preços da gasolina e do diesel poderiam disparar nas próximas semanas, coincidindo com as viagens do período de férias de verão na Europa.
O outro efeito sobre o bolso dos consumidores europeus poderia ser na conta de luz. Ainda sofremos com a escalada dos preços causada pelo estrangulamento da oferta de gás e a escalada dos preços após a invasão da Ucrânia pela Rússia e as sanções impostas ao governo de Putin. O fechamento de Ormuz faria subir os preços do gás em todo o mundo, o que se traduziria em um novo aumento dos preços da eletricidade na Europa. A conta de luz voltaria a disparar, provocando um aumento dos preços não só da eletricidade, mas de todos os bens de consumo, sobretudo os que são eletrointensivos, como as indústrias de papel, vidro, eletrônica, metais e tantas outras.
Inflação, Euribor e hipotecas
Este aumento dos preços surge em um momento em que a inflação média da União Europeia ainda está em período de relaxamento e em torno da meta do Banco Central Europeu (BCE) de 2%. De fato, a instituição dirigida por Christine Lagarde vem reduzindo as taxas de juros há mais de um ano, em quase todas as reuniões mensais, até os atuais 2,15%, o que representou um alívio para os mutuários, já que o Euribor vem diminuindo paralelamente.
O mesmo não aconteceu nos Estados Unidos. O confronto entre Trump e o FED está mais vivo do que nunca. O órgão se recusou a reduzir as taxas de juros do dólar, guiado por uma inflação norte-americana que não diminuiu da mesma forma que a europeia. Na última reunião, seu diretor, Jerome Powell, manteve as taxas de juros na faixa de 4,25% a 4,5%, argumentando que a política tarifária do presidente poderia aumentar o preço de itens e bens de consumo e reacender a inflação. Trump, em sua linha retórica usual, acabou chamando Powell de “um cara idiota” nas redes sociais.
O novo cenário de tensões nos preços dos hidrocarbonetos poderia reverter as quedas de juros. Nessa reação dos bancos centrais está outro dos efeitos secundários que poderiam ser provocadas pelo fechamento do estreito. Se a reação do Irã aumentar a inflação em todo o mundo, os bancos centrais poderiam decidir voltar a subir as taxas de juros, em vez de seguir o caminho da redução que alguns, como o BCE, estão seguindo. Esse aumento nas taxas de juros para conter a inflação poderia aumentar novamente o Euribor e, portanto, a parcela de milhões de hipotecados.
Até o momento, o estreito de Ormuz continua aberto, apesar da decisão do Parlamento iraniano. Também não será fácil para sua economia e a de seus parceiros fechar essa via de exportação e entrada de dólares, mas quanto mais encurralado estiver o governo do Irã, maiores serão as possibilidades. Os Estados Unidos também tentaram pressionar o governo da China para que Pequim convença o Irã a não fechar o corredor marítimo, mas a última palavra para que os bolsos de todo o planeta não sejam afetados continua sendo de Teerã.
(*) Tradução de Raul Chiliani





































