A Guerra de Doze Dias revelou algumas das violentas contradições que caracterizam o momento histórico estranho e perigoso em que nos encontramos. Há duas semanas, quando Israel lançou sua ofensiva preventiva contra o Irã, a República Islâmica foi pega de surpresa, uma vez que sua postura pública estava voltada para uma solução diplomática. O fato de ter sido pega de surpresa sinaliza uma falha de inteligência por parte dos iranianos e provável infiltração da Mossad/CIA, mas também confirma que qualquer tentativa de manter a via da diplomacia com Israel/EUA é imprudente.
O sucesso inicial da ofensiva, por meio de uma série de assassinatos seletivos, bombardeios, sabotagens e muitos “danos colaterais”, serviu para reenfatizar a acentuada assimetria entre os dois países. As forças armadas de Israel possuem enormes quantidades de armas de alta tecnologia, recebem apoio incondicional dos EUA e de seus vassalos subimperiais, como a Austrália (falaremos mais sobre isso abaixo), que permitiram até mesmo que Israel conduzisse um genocídio transmitido ao vivo com impunidade. A assimetria mais gritante é o fato de Israel possuir bombas nucleares e o Irã não. Israel tem até 200 ogivas, além de meios complexos para lançá-las de acordo com protocolos desconhecidos (sem mencionar suas armas biológicas e químicas).
A presença e a ausência dessas terríveis armas são cruciais para compreender a dinâmica completa — de fato, a própria natureza da bomba atômica é central. Em resumo, qualquer sociedade que cria e possui tal arma é ela própria envenenada por ela. Para que uma arma tão imensamente perigosa exista, é necessária uma hierarquia centralizada e rígida para controlá-la. Como Langdon Winner escreveu na década de 1980: “o sistema social interno da bomba deve ser autoritário; não há outra maneira”. Criar uma arma nuclear exige uma “racionalidade” suprema. A física e a engenharia de uma bomba exigem equipes de tecnólogos intelectualmente treinados e um complexo militar-industrial capaz de produzir uma abstração material tão intensa. Isso faz parte da lógica irresistível do exterminismo. As bombas atômicas realmente proporcionam um impedimento a outras potências nucleares por meio da “MAD” (Mutually Assured Destruction, ou Destruição Mútua Assegurada), a doutrina que levou os EUA e a União Soviética a criar as condições em que um holocausto global – ou seja, “tudo queimado”, seguido por um inverno nuclear – era, e ainda é, uma possibilidade sempre presente. Quando as forças de controle se intensificam a ponto de atingir a própria essência dos átomos, esse processo simultaneamente fica completamente fora de controle, espalhando a ameaça da morte em escala titânica por todo o planeta. Essa lógica política é inerente à própria tecnologia da bomba.
No conflito atual, o poder assimétrico e as vantagens significativas de Israel não se traduziram em nada que pudesse ser chamado de “vitória”. Isso se deve, em parte, à postura maximalista do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Este líder, que tem um mandado de prisão emitido contra ele por supostos crimes de guerra e crimes contra a humanidade, tem pressionado por nada menos que a capitulação total do Irã – o que ele gosta de chamar de “opção Líbia”. Seus objetivos em relação ao Irã eram e continuam sendo:
– A destruição total do programa nuclear do Irã, civil, e de qualquer braço militar futuro;
– O abandono de seu arsenal de mísseis e alianças regionais; e
– Mudança de regime.
A Guerra dos Doze Dias não alcançou nenhum desses objetivos; na verdade, alguns tiros podem ter saído pela culatra.
O urânio enriquecido foi retirado das instalações nucleares antes de serem bombardeadas, poupando assim o ingrediente mais crucial de quaisquer danos ainda a serem avaliados. Um debate acalorado está ocorrendo no Irã sobre se eles devem realmente iniciar um programa de armas nucleares. Atualmente, argumenta-se que a cooperação do Irã através da assinatura do Tratado de Não Proliferação e a transparência perante a Agência Internacional de Energia Atômica (que foi suspensa) não trouxe à nação qualquer segurança, nem um alívio das sanções. Isto leva alguns a concluírem que só a bomba pode proporcionar uma dissuasão adequada contra a hostilidade extrema. De uma perspectiva realista, isso é defensável. Eles veem sua necessidade de dissuasão nuclear como diretamente ligada ao status nuclear de Israel. Esta questão está longe de estar resolvida.
Independentemente de o Irã reverter ou não sua posição pública de longa data de que as armas atômicas são contra o Islã, eles certamente darão prioridade máxima ao fortalecimento maciço de seus sistemas de defesa aérea, e a Rússia e a China ficarão felizes em ajudar com o fornecimento do hardware necessário. De fato, milhares de toneladas de componentes de mísseis balísticos estavam a caminho da China para o Irã antes mesmo do início do conflito que durou doze dias. O Irã provavelmente tentará colocar toda a sua economia em ritmo de guerra, assim como a Rússia fez desde sua invasão da Ucrânia, trabalhando para fortalecer seu próprio complexo industrial-militar nacional, nascido das sanções.
Como muitos observaram, o bombardeio do Irã provocou um significativo efeito de união em torno da bandeira nacional dentro de um país dividido. Apesar de toda a profunda e real desilusão dentro da República Islâmica, o nacionalismo iraniano é algo maior do que o atual governo – corrupto, violento e incompetente, como são, sem dúvidas, alguns de seus aspectos. Parece que o povo iraniano não quer ver seu amado país reduzido a um conjunto de pequenos Estados étnicos em guerra e falidos, conforme o plano explícito de Israel e dos EUA.
Aqui chegamos a outra assimetria fundamental, embora dentro da mesma lógica singular. O Irã luta para preservar sua própria soberania e suas relações com seus aliados regionais, enquanto Israel e os Estados Unidos lutam para manter seu domínio. Como parte dessa situação cada vez mais intensa, o Irã pode muito bem avançar na criação das mesmas armas terríveis que já envenenaram Israel e os EUA. Em ambos os casos, a lógica do exterminismo engendra uma insegurança cada vez mais profunda.
O governo israelense não se satisfaz em possuir um poder regional esmagador. Ele insiste no direito de atacar preventivamente outros Estados, ou atores não-estatais dentro deles, à vontade. O exército de recrutas de Israel foi transformado em um exército de guardas prisionais do apartheid e liberado de restrições no que diz respeito ao tratamento daqueles considerados “animais humanos”. Este foi o termo usado pelo ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, em 9 de outubro de 2023, traduzindo efetivamente Untermensch – palavra alemã que significa “sub-humano” – para o hebraico e aplicando-a aos palestinos colonizados.
Além da monstruosidade com aqueles considerados Untermensch no campo de concentração de Gaza e na Cisjordânia, o principal meio de projeção de poder das forças armadas israelenses é fazer chover morte a partir de uma distância segura (ataques aéreos, mísseis, armadilhas e drones) e conduzir massacres altamente tecnológicos por meio de algoritmos, robôs e detonação remota – tudo isso sem precisar sair do conforto do ar condicionado. Como observado em nosso último editorial, escrito no dia do bombardeio, esse poder é extremamente abstrato e altamente racional, mas o potencial para violência ilimitada significa que ele também é dominado por uma espécie de loucura autoafirmativa.
Embora a Guerra dos Doze Dias certamente tenha causado muito mais mortes e danos ao lado iraniano, suas retaliações, na forma de ataques com mísseis e drones contra Israel, foram mais eficazes do que o previsto em penetrar o sofisticado sistema de defesa antimísseis de Israel, com algumas de suas últimas salvas passando 50% dos mísseis. Os ataques iranianos dentro de Israel conseguiram paralisar a maior parte da economia, forçando as pessoas a entrar e sair de bunkers, causando cortes de energia, destruindo a única refinaria de petróleo do país, atingindo fábricas de armas, cancelando a grande maioria dos voos e impedindo que navios de carga chegassem aos portos. Nem mesmo a acentuada assimetria militar proporciona segurança.
E então, é claro, o presidente dos EUA, Donald Trump, entrou em cena com as bombas antibunker, impulsionado, como sempre, por sua sede desesperada pela atenção total do espetáculo midiático. Foi uma encenação teatral. Israel não teria conduzido seu ataque relâmpago sem o consentimento explícito dos Estados Unidos. No entanto, os espasmos teatrais de Trump culminaram não apenas no bombardeio de três instalações nucleares do Irã, mas em “danos colaterais” significativos: mais golpes contra a “ordem internacional baseada em regras”, a Carta das Nações Unidas e o Tratado de Não Proliferação, bem como o próprio sistema dos EUA de controle do Congresso sobre a capacidade de declarar guerra – sem falar na traição aos setores anti-guerra de sua base MAGA.
Os interesses dos EUA em atacar o Irã vão além de simplesmente apoiar a capacidade de Israel de projetar a morte com impunidade, ou mesmo qualquer reedição da imagem de “cão raivoso” de Nixon por parte de Trump. Os falcões da guerra dos EUA há muito sonham em reduzir o Irã a uma zona de guerra fragmentada – muito semelhante ao destino que reservaram ao Iraque e à Líbia. Isso teria o efeito de cortar a China de uma parte significativa de suas importantíssimas importações de energia e causar um revés monstruoso à sua integração da Ásia na Nova Rota da Seda. Também abriria uma vasta zona de guerra em ebulição na esfera da Rússia na Ásia Central. Assim, ao destruir o Estado mais independente do Oriente Médio, eles também poderiam infligir grandes reveses à Rússia e à China.
Por seu papel sombrio neste desastre, a Austrália age como um fiel agente subimperial dentro de uma ordem global dos EUA em rápido desmoronamento. A ministra das Relações Exteriores, Penny Wong, e o primeiro-ministro Anthony Albanese, ambos obedientemente seguiram o roteiro emitido por Trump/Netanyahu e repetiram mecanicamente: “Não podemos permitir que o Irã obtenha uma arma nuclear” e que a Austrália “apoia ações para impedir isso”.
É óbvio que isso é uma dissimulação. A Agência Internacional de Energia Atômica conduziu inspeções regulares em todas as instalações iranianas – espionando efetivamente o Irã, com o devido consentimento, por uma década – e a agência afirmou categoricamente que o Irã não estava buscando desenvolver a bomba. As próprias agências de espionagem dos EUA concordam com essa avaliação, inclusive, a diretora geral de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, nomeada por Trump, declarou ao Congresso em 25 de março que o Irã não estava construindo uma arma nuclear. Confrontado com esse fato, Trump responde alegremente: “Não me importa o que ela disse”.
Longe dali e lutando para tentar alcançar alguma relevância para com os EUA cada vez mais instáveis e pouco confiáveis, o governo australiano emitiu um som fraco e ofegante, reafirmando “o direito de Israel de se defender”. Para concretizar isso, o ministro da Defesa da Austrália, Richard Marles, correu para a cúpula da OTAN, tentando falar diretamente com Trump, ou mesmo com seu secretário de Defesa, Pete Hegseth (ele foi ignorado). Nessa reunião, os Estados-membros concordaram covardemente com a exigência do papai – o secretário-geral da OTAN literalmente chamou Trump de “papai” – de que aumentariam drasticamente os gastos com defesa para enormes 5% do PIB (3,5% em gastos militares diretos e 1,5% em gastos relacionados à Defesa, como segurança cibernética e construção de pontes capazes de permitir a passagem de máquinas de guerra pesadas). Na Europa, nos EUA e em outros lugares, a única maneira de aumentar tanto os gastos com defesa – sem tributar pesadamente os ricos e buscar a neutralidade armada – é por meio de uma austeridade cada vez mais intensa. Trump descreve isso como uma “grande vitória” para a “civilização ocidental”. Tudo isso se encaixa no objetivo de longo prazo dos EUA de subordinar a Europa para se preparar para uma possível guerra com a China.
Quando o Partido Trabalhista assumiu o poder em 2022, os gastos com defesa da Austrália eram de 1,9% do PIB, e desde então eles se comprometeram a aumentá-los em 20 bilhões de dólares por ano, para uma projeção de 2,25% até o final do mandato atual. Atualmente, 6,6% dos gastos do governo são destinados à Defesa. Grande parte desse aumento nos gastos está garantido devido à aceitação pelo Partido Trabalhista do trágico e ruim acordo AUKUS, que, vale acrescentar, não tem nada a ver com “Defesa”: submarinos nucleares servem para ajudar os EUA a atacar a China. Trump certamente tentará pressionar o governo australiano a aumentar ainda mais seus gastos militares. Mantenhamos um olho nisso. Animado pelas ruínas da Coalizão, o Partido Trabalhista não tem absolutamente nenhum interesse em uma política externa independente, preferindo marchar em direção à Terceira Guerra Mundial. Isso se encaixa perfeitamente com seu novo status de partido único de um status quo profundamente quebrado. O Partido Trabalhista está provando que fará tudo o que for necessário para manter o decadente sistema unido pelo maior tempo possível.
A Guerra dos Doze Dias entre Israel-EUA e Irã pode ter sido interrompida, mas este conflito está longe do fim. Ele regressará com força, potencialmente muito em breve. A guinada dos EUA e de Israel em direção ao fascismo só pode resultar em guerra. O Irã está abalado, mas longe de ser derrotado, e ainda detém seu trunfo mais poderoso: a capacidade de fechar o Estreito de Ormuz, colapsando assim com 20% do fluxo global de petróleo, algo que muito provavelmente causaria o colapso da imensa massa de derivativos de petróleo que mantém a economia global hiperfinanceirizada, em uma repetição da crise financeira global.
O dia 27 de junho marca 629 dias desde o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. Logo após esse ataque, Israel declarou efetivamente “Totaler Krieg—Kürzester Krieg” (“Guerra Total—Guerra Mais Curta”). Esse foi um slogan criado pelo ministro da Propaganda alemão Joseph Goebbels quando a maré estava virando contra eles na Frente Oriental. O apetite de Israel por uma guerra curta e decisiva colidiu duramente com a realidade histórica. Apesar do sofrimento inconcebível infligido ao povo de Gaza e muito além, Israel ainda não derrotou o Hamas. Em muitos aspectos, a questão Palestina está mais latente do que nunca, talvez mais do que em décadas. É digno de nota que as forças armadas americanas gastaram vinte anos e 2,3 trilhões de dólares tentando derrotar o Talibã e fracassaram completamente. Gaza não desaparecerá.
O Irã não desaparecerá simplesmente.
Esta guerra não foi, nem será, curta ou conclusiva. Pelo contrário, é mais uma etapa de um processo muito mais vasto de decadência imperial, à medida que a ordem mundial violentamente sem fundamento se desmorona, dilacerada pela tensão entre tecnologias racionais altamente abstratas e a profunda perturbação que isso acarreta.
Privados da capacidade de refletir sobre nossas ações, aprender com o passado ou ter uma solidariedade significativa — sem falar no senso de nosso próprio envolvimento com uma humanidade comum dentro de um mundo natural finito e em colapso crítico —, estamos presenciando o prelúdio de uma catástrofe.
(*) Tradução de Raul Chiliani



































