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O futuro do jornalismo não está sendo escrito por uma máquina

Pablo Mancini, estrategista do Washington Post, trata da questão mais crucial do jornalismo hoje: a deserção de milhares de pessoas que não querem mais se informar

Pablo Elorduy
O abandono autoprescrito do que acontece no mundo coexiste com um sentimento de que tudo está viciado, de que o jornalismo opera apenas de acordo com os interesses de alguém por trás dos bastidores. A outra face do alarmismo sobre a pós-verdade e as fake news é uma desafeição geral em relação à mídia. Não buscamos conteúdos mais precisos: deixamos de consumi-los. (Foto: congerdesign / Pixabay
O abandono autoprescrito do que acontece no mundo coexiste com um sentimento de que tudo está viciado, de que o jornalismo opera apenas de acordo com os interesses de alguém por trás dos bastidores. A outra face do alarmismo sobre a pós-verdade e as fake news é uma desafeição geral em relação à mídia. Não buscamos conteúdos mais precisos: deixamos de consumi-los. (Foto: congerdesign / Pixabay

Você está cansado de se informar? Sente que não aguenta mais carregar esse fardo? Prefere não pensar, prefere não sofrer?

Você não está sozinho(a): quatro em cada dez pessoas evitam as notícias com frequência ou o tempo todo. Os motivos variam: 39% dizem que o fazem porque as informações têm um efeito negativo em seu estado de espírito. Uma em cada cinco afirma que sente que, apesar das informações, não pode fazer nada para mudar as coisas (e por isso acredita que é coerente não ouvir, não ver, não sentir). 31% das pessoas que não leem notícias dizem que se sentem exaustas quando o fazem.

O relatório publicado anualmente pela agência Reuters, o Digital News Report 2025, registra uma tendência crescente para o abandono em massa das fontes de informação por parte da população mundial. Na Espanha, uma tendência: o interesse pelas notícias aqui está no seu nível mais baixo desde 2015 e a confiança nos meios de comunicação também diminuiu. Apenas 31% da população confia na maioria das notícias na maior parte do tempo, o que contrasta com a proporção de portugueses, por exemplo, que confiam no jornalismo quase sempre: mais de 54%.

Os números revelam apenas parcialmente uma tendência que aglutina experiências pessoais. O abandono autoprescrito do que acontece no mundo coexiste com um sentimento de que tudo está viciado, de que o jornalismo opera apenas de acordo com os interesses de alguém por trás dos bastidores. A outra face do alarmismo sobre a pós-verdade e as fake news é uma desafeição geral em relação à mídia. Não buscamos conteúdos mais precisos: deixamos de consumi-los.

Não é tão raro, também, que os próprios jornalistas se surpreendam ao navegar as páginas iniciais dos jornais sem decidir ler nenhum artigo, por falta de vontade, pelo tédio de ver notícias repetidas ou porque mantêm uma dieta baixa em baboseiras. Essas centenas de milhares de internautas sem tempo para ler são o que o jornalista Pablo Mancini (Argentina, 1982) chama de “pós-leitores”.

Mancini esteve recentemente em Madri para apresentar Off the record. Verdad, sangre, algoritmos y negocios (“Off the record. Verdade, sangue, algoritmos e negócios”, em tradução livre), um livro que do gênero “especialista conta o que você precisa saber sobre uma profissão em constante mudança”, mas que foge das generalizações, com um relato útil para jornalistas e agradável para quem não tem muito interesse nas tendências do setor.

O autor de Off the record foi diretor de estratégia do Infobae e vice-presidente de serviços ao cliente do The Washington Post, uma experiência que o coloca em uma posição interessante para analisar uma crise sem fim à vista. “É uma tempestade particularmente difícil”, reconhece Mancini, “com esses níveis de aversão às notícias, de não se expor às notícias, evidentemente há algo a mudar e algo a melhorar”.

Uma possibilidade é culpar os leitores, mas ele prefere não fazê-lo: “Às vezes, escreve-se para si mesmo e desconecta-se dos interesses reais do público. Às vezes, o jornalismo limita-se a repetir o que acontece e não a encontrar o que é importante para as pessoas a quem se dirige”.

Fácil de dizer, difícil de fazer. O próprio Mancini reconhece em seu livro que ele, como 99% dos jornalistas do mundo, também já fez “matéria da matéria”. A reescrita, como é conhecida na gíria, é uma das práticas habituais do setor. Um exercício de parafraseamento para contar o mesmo que outra notícia conta: de agências, da concorrência, de outro meio, enfim. Com sorte, o retrabalho se inspira em mais de um artigo e se torna mais complexo; sem sorte, se transforma em uma nota pouco memorável cuja função é apenas encher a página inicial dos portais.

Uma história de playback

“Acho que há muitos jornalistas que não querem trabalhar nisso, que esperavam outra coisa, fama, glória… e encontraram muito trabalho, pouco salário e bastante lama”, aponta o autor de Off the record, “mas, bom, também há o outro lado. Há pessoas que fazem um ótimo trabalho e é por isso que os meios de comunicação não apenas sobrevivem, mas se sustentam”.

Porque o fato, como ele ressalta, é que nascem mais meios de comunicação do que morrem, mesmo em uma época como a atual, em que a informação compete no mesmo campo que o entretenimento. “Estou nisso há 20 anos e nunca, nunca houve um ano fácil, nada, nem grandes salários, nem orçamentos abundantes para fazer tudo o que queríamos fazer. Isso nunca aconteceu”, enfatiza.

O que existe, existiu e existirá é o “jornalismo karaokê” ou, como cantava Radio Futura, alguém ditando nas sombras e profissionais movendo os lábios.

O poder – e aqui Mancini fala do poder político, mas também do narcotráfico em países como o México – ataca o jornalismo ou os jornalistas quando não pode comprá-los, “porque este trabalho de contar a verdade é muito importante, algo que muitas vezes é subestimado”.

Visitas relâmpago e inteligência artificial

A resposta à pergunta fundamental de como contornar essa crise permanente é o conteúdo, concretamente, o bom conteúdo. O tráfego? Não é tão relevante, diz Mancini. Sem dados sobre quem está realmente do outro lado do telefone, sem interação, sem pagamentos – por meio de assinaturas ou outros modelos –, o tráfego “relâmpago” tem pouco impacto no esquema de sustentabilidade da mídia.

“Cada vez menos relevante na indústria”, diz, referindo-se a uma das últimas novidades do setor: a colocação de notícias no Google Discover por meio do SEO. “É uma audiência volátil que não sabe qual site está vendo. Chegou por acaso e vai embora. Então, há uma porcentagem enorme de audiência que em dois anos não existirá mais. Tende a zero. Não vai ser zero, mas a curva está descendo e isso muda completamente o modelo de negócios da mídia, porque sua receita publicitária vai cair”, vaticina.

No mais puro estilo guru (desculpem o palavrão), Mancini aposta nos meios de comunicação que vivem de assinaturas e são capazes de evitar conteúdos de baixa qualidade – notícias fáceis de clicar, redundantes ou sem alma – que se orientem para os interesses da sua comunidade: “Já não se procura tráfego, procura-se membros, procura-se comunidade, procura-se assinantes. Então, o ‘clickbait’ ou o conteúdo lixo e essa estratégia de publicar milhares de URLs começam a se tornar insolvente para a mídia. Quando você tem a mesma notícia que todos os outros, sua relevância começa a diminuir, diminuir e diminuir. Isso não mudou em 50 anos”, enfatiza.

O golpe final é a chegada da inteligência artificial, até agora nada mais do que a forma comercial de chamar os grandes modelos de linguagem (LLM): algoritmos capazes de resumir como se frita um ovo, de elaborar um texto medíocre com base em recortes do Google (ou seja, uma “matéria da matéria”), ou de selecionar alvos civis em um ataque a um hospital. Aplicado ao jornalismo, Mancini acredita que é preciso diferenciar os casos em que seu uso auxiliar pode ser útil e aqueles em que não passa de palha.

“Acho que o mau jornalismo é mais prejudicial ao jornalismo do que a tecnologia sofisticada”, adverte o autor de Off the record, que se confessa cansado das discussões vazias sobre se a IA é uma ameaça ou uma oportunidade: “se não tratamos de um caso específico, isso nos distrai do que temos que fazer”. E lembra como, há quinze anos, ficou na moda dizer que ao lado de cada jornalista deveria haveria um programador, ou que os redatores seriam também especialistas em fotografia, gravação e edição de vídeo. “Viemos de muitas mentiras na indústria, vendemos muitas coisas”, resume, “quando a verdade (e a busca pela verdade) é o único metro quadrado saudável e seguro para se estar e a partir daí trabalhar”, conclui.

(*) Tradução de Raul Chiliani

El Salto El Salto é um meio de comunicação social autogerido, horizontal e associativo espanhol.

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