A ideia de memória se tornou central nos debates sobre a cultura afro-diaspórica, especialmente no Brasil, onde, após a abolição da escravidão, os documentos referentes ao tráfico de africanos escravizados foram queimados, numa empreitada que visava a construção de uma República sem qualquer vestígio desse infame comércio – como a designavam alguns abolicionistas e liberais do século 19. O interessante é que a exclusão da memória de um processo que durou 388 anos tenha ajudado a criar uma nova memória. Não que a escravidão tenha sido apagada; mas ela pode, segundo a interpretação de alguns autores, se transformar em algo tão distante que parecia não mais influênciar os rumos da jovem nação, e do povo negro, livre e liberto.
A memória também é um componente essencial nas ideologias de extrema-direita, ainda que, muitas vezes, fabricada. Eric Hobsbawm, em seu artigo Dentro e fora da história, argumentou que a história e os mitos são a matéria-prima fundamental do nacionalismo, e longe de se basear em mentiras, os mitos nacionais se constituíam em bases concretas, mas interpretadas de maneiras a-históricas. A memória não escapa a essa análise, e é dever do historiador, do pesquisador, daquele que se propõe a entender cultura e memória, usar a história de modo crítico. Um povo sem memória, no sentido mesmo do registro, pode tanto se desorientar como recriar uma história mitológica, e foi isso que parte dos movimentos negros pelo mundo e seus líderes tentaram fazer.
Jacques Le Goff, em sua obra História e memória, afirmou que, em algumas sociedades africanas, sem escrita, “havia especialistas da memória, homens-memória: ‘genealogistas’”. De certa maneira, tanto pelo nível de forças produtivas, e, consequentemente, de cultura dos povos que foram traficados para o Brasil, além da implacável repressão das forças coloniais, a história dos ancestrais africanos da imensa maioria da população brasileira foi apagada, talvez nem mesmo escrita, a não ser nos cadernos de registros de mercadoria, porque assim o eram os africanos escravizados: mercadoria.
Nessa tentativa de resgatar a memória dos africanos e afro-brasileiros, muitos foram os autores que abriram as matas da memória, a golpes de facão, para trazer à luz a luta, a cultura, os modos de vida e resistência de dezenas de etnias e povos que, transplantados para cá, deram origem à nação mais negra fora da África. Podemos falar de Abdias Nascimento, Edison Carneiro, Lélia Gonzalez, Clóvis Moura, e outros tantos pensadores e militantes negros que encaravam essa aventura.
Dos mais novos, Ana Luisa, 30. Conhecida como Nalu, é responsável pela criação do Negras Primaveras, projeto cujo objetivo fundamental é o resgate e a afirmação da memória e da cultura, especialmente musical, do povo negro brasileiro. Criado em 2017, o Negras Primaveras tem sido um dos principais pontos de convergência entre esse resgate e essa afirmação, seja a partir da publicação de discos, entrevistas, fotografias, e quaisquer outros documentos históricos que servem como um lembrete de que, apesar do genocídio imputado em diversas frentes, o povo negro brasileiro vive, samba, come, bebe, dança e luta.
Trocamos uma ideia com a Nalu sobre o Negras Primavera, e, a partir do projeto, discutimos o papel da memória na preservação e visibilidade da cultura afro-brasileira, os conflitos originados no interior da MPB, o apagamento de artistas negros a partir do movimento Bossa Nova, territorialidade, candomblé, Cassiano, e tantos outros elementos que compõem o debate crítico sobre a música brasileira, seus expoentes, e como podemos, a partir do escudo e da lança da cultura, recriar um Brasil verdadeiramente democrático, e finalmente livre. A entrevista segue:
Como surgiu o Negras Primaveras (NP)?
O Negras Primaveras surgiu num contexto pré-pandêmico, entre 2017 e 2018. Por sugestão de uma amiga, eu criei essa página para falar sobre discos que eu gostava de ouvir, tendo uma organização das publicações. Essa página acabou se tornando um espaço para que eu pudesse compartilhar as coisas que eu tinha guardado, e que eu gostaria de dividir com as pessoas, tanto os registros documentais em vídeo, quanto histórias de determinados discos e o quanto eles impactaram na minha formação.
Esse lance de pensar o resgate da memória vem muito depois da criação da página, bem no período da pandemia, e veio muito da percepção das pessoas sobre a página, sobre o trabalho, que foi ganhando um viés mais crítico. Então tem essa coisa do resgate no trabalho em si, mas esse reforço veio mesmo durante os anos, a partir do público da página, com cada vez mais gente chegando, comentando, interagindo com as postagens – muitas dessas pessoas com 50 ou 60 anos de idade, que vivenciaram grande parte das obras musicais que eu publicava na página, e falavam sobre como era o mundo na época desses lançamentos. Ai, com o passar do tempo, eu fui entendendo a importância da página e da forma que eu queria ela; não foi algo criado pra ser isso, mas se desenvolveu assim.
Teve uma madrugada que eu estava vendo umas fotos da Donna Summer, e era literalmente uma mulher negra no meio de um jardim. Ai eu pensei: “nossa, negras primaveras”. Então, o nome da página surgiu assim, numa madrugada, chapada (risos), enquanto eu escrevia. Procurei na internet se já havia algo parecido, e encontrei um poema chamado Primaveras Negras, que eu achei foda, e então ficou esse nome. E eu também não queria vincular a página ao meu nome, queria que fosse algo quase anônimo. E outra coisa, é que tem muita música negra que fala sobre primavera, né? Juntou tudo isso.
Desde que comecei a acompanhar o Negras Primaveras, eu percebi o projeto como um grande acervo multidisciplinar da cultura negra brasileira. Longe de resumir o projeto a isso, é interessante notar a quantidade de capas de discos, entrevistas em jornal, fotografias e outros registros históricos tão importantes, mas que tem pouquíssima atenção, em geral pelas condições raciais e de classe do Brasil, mas também pela falta de meios pelos quais a população possa os acessar. Além das imagens, as legendas sempre destacam a importância não só dos documentos, mas das obras culturais abordadas. Eu lembro que, quando conheci o Black Archive, eu pensei: “Queria fazer algo assim”, porque essa coisa da memória, do registro e do documento sempre me fascinaram, e infelizmente, por questões históricas, o pouco da memória que nos sobrou foi a história oral, que tem as suas contradições como forma de registro. Qual a importância desse registro, resgate e afirmação da cultura negra, que, junto da indígena, moldou o Brasil?
Pegando um gancho no que eu falei anteriormente, sobre não ter a dimensão do que era o Negras no início: ele foi sendo moldado enquanto também me moldava, porque, apesar de não parecer, eu era uma pessoa extremamente conectada com a cultura negra norte-americana. Então, lá nas primeiras postagens, nos primeiros registros da página, eu falava muito sobre rap, sobre a cultura afro-americana, porque, quando eu era mais nova, eu tinha essa sensação de que os negros norte-americanos tinham mais consciência racial do que nós. Foi importante pra mim esse processo porque, depois, quando fui me conectando cada vez mais – e muito por conta da MPB –, com essa consciência racial brasileira, eu fui percebendo que no Brasil também existe isso. Porra, o Cartola falava coisas que o Kendrick Lamar fala hoje sobre raça, sabe?
Nunca não se falou sobre raça no Brasil, mas não se falava dentro dos termos que eu idealizava quando mais nova, no começo das minhas leituras e tudo mais. E quando eu criei o Negras, estava rolando um processo de efervescência de leituras decoloniais e anti-coloniais, eu estava muito focada nesses temas. Esse processo foi importante porque, como eu falei, sobre o Negras também ter me moldado, quanto mais você pesquisa, mais você pesquisa. Você começa vendo um disco, vê o compositor, vai procurar saber sobre ele, acaba parando na história de outra pessoa envolvida, e com isso, você começa a entrar na história daquele disco.
Mas isso também tem um limite, porque nós temos uma memória muito frágil sobre compositores negros. Porque, em sua maioria, eram pessoas pobres, com pouca projeção e já em idade avançada, ou seja, muitos desses artistas faleceram sem registros artísticos. Eu falei do Cartola, e a gente sabe que ele era um cara extremamente crítico e profundo sobre as questões raciais e sociais, mas a gente sabe pouco sobre muitos dos pares dele. Então eu acho que a importância do Negras, pra mim, é ter a possibilidade de cavucar esses registros – porque eles existem – e também de, conforme eu vou publicando esses registros e trazendo coisas que eu descubro, seja uma foto, uma entrevista, o que quer que seja, eu recebo muitos relatos de pessoas próximas a esses artistas que eu publico, falando sobre a pessoa, a foto dela, a história.
É um processo que se retroalimenta porque, ao passo que eu vou descobrindo coisas, as pessoas também vêm me trazendo mais coisas. E é um trabalho feito por muitas mãos, porque, para existir o Negras, precisam existir pesquisadores que já estão nesse trabalho há muito tempo, e a ideia é replicar esses conhecimentos, ainda mais quando muitos desses trabalhos acabam não tendo nenhuma projeção. Eu sinto muito uma coisa de comunidade, de estar trocando com as pessoas, de falar algo que eu penso, e um mais velho ou uma mais velha traz muito mais coisas do que eu achei que poderia ter ali. Então, hoje eu vejo esse trabalho de registro e de resgate como uma comunidade virtual de pessoas que se interessam por isso, e que vão trazendo coisas.
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O trabalho da pesquisa… É um ofício que as pessoas não entendem a dimensão dele. Você precisa ler, precisa estudar, assistir coisas, e entender quem era aquele artista naquele período, o que ele estava querendo dizer, e ainda que a gente não consiga capturar a totalidade do que esse artista era, a gente consegue trazer essa história. É muito importante para nós, enquanto pessoas negras – talvez a nossa geração esteja um pouco mais tranquila com relação a isso, por conta do acesso a internet, de termos mais referências de negritude –, mas, ainda assim, a gente cresce num não-lugar, tipo “porra, quem foram meus antepassados?”, “porque determinado sambista é importante?”. Então a gente tem que se apropriar dessa história e desses saberes. E o Negras vem pra somar com essa ideia concreta de que nós temos memória, sim, que é muito oral, mas não é só isso, porque não ter memória esvazia a gente, ficamos sem referência, sem autoestima, sem ferramentas para entender o mundo, pra se entender individualmente e coletivamente.
É bom saber que existe um passado antes da gente, e ninguém era subalterno, ninguém era dominado sem resistir. E a música me trouxe muito dessa noção, e tem trazido cada vez mais.
Numa das Teses sobre a História, Walter Benjamin diz: “O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.” Em 1890, o então ministro Ruy Barbosa mandou queimar todos os arquivos referente à escravidão no Brasil. Esse evento foi crucial tanto para o novo regime, que desejava apagar essa “sujeira da história do novo Brasil”, como para a ausência de referência histórica para os afro-descendentes. Nomes, lugares, culturas, idiomas, muito se perdeu com essa queima, o que dificultou a tarefa de contar a história dos negros no Brasil, desde a chegada forçada do primeiro africano em nosso país. Nesse sentido, eu percebo que o Negras Primaveras, além de outras iniciativas, tem como eixo central a memória coletiva da cultura negra. Como a memória do passado e a criação de uma memória do presente pode ajudar gerações futuras a entender o seu lugar, história, e sua raiz cultural?
Antes da entrevista estávamos falando sobre o candomblé, e eu acho que o candomblé acalmou algumas angústias que eu não conseguia responder, como, por exemplo, quem foram meus tataravós, meus antepassados, minha linhagem. Então, a espiritualidade acalmou essa busca por entender meu passado. Esse vazio acaba sendo muito grande pra gente, quando começamos a tentar entender todas essas questões.
Então, nesse sentido, a memória acaba sendo tanto uma disputa sobre o que a gente aprendeu – o que você aprendeu na escola, provavelmente, não é mais o que você pensa –, muito por conta dessa história única e linear. Uma angústia que eu tinha na adolescência era, por exemplo, saber o que estava acontecendo na Europa – mas e o restante do mundo? Eu não fazia ideia, ninguém sabia, o professor não sabia. E como nós temos essas ferramentas hoje, eu sinto que estamos passando por um processo novo – não tão novo, se pensar que, há muito tempo, existem marxistas negros produzindo conhecimento –, de pessoas que estão olhando pra história e falando: “olha, essa perspectiva é interessante, mas tem essa outra aqui também”. Com isso, a gente consegue revisitar memórias, e se ver nessas memórias do passado. E quando começamos a nos enxergar como indivíduos, e como agentes de transformação, e não mais como simples objetos de estudo, eu acho que temos mais força para entender que o que a gente quiser é possível.
Eu penso que, para nos entendermos enquanto produtores de memórias, precisamos entender antes o que é a memória e porque ela é importante, porque é a partir disso que vamos conseguir explicar para os mais novos porque determinadas coisas são importantes. Talvez para nossa geração isso seja mais tranquilo, porque muitos de nós temos memórias dos nossos avós, mas eu não sei dizer se a minha avó tinha memória sobre os avós dela, sabe? Eu tenho quase certeza que não. Então, pra mim, Ana, a minha história começa na minha avó, e isso é muito bizarro.
Então é muito importante olhar pra memória como essa ferramenta de construção do futuro, mas precisamos ter esse referencial todo de memórias anteriores. Quando temos a capacidade de compreender que nossos antepassados não foram apenas pessoas escravizadas – como se é contado geralmente –, mas também pessoas que trouxeram tecnologias, cosmovisões, musicalidades, formas de organização e meios de resistência e rebelião, então conseguimos nos sentir um pouco menos esvaziados. O habitual é se dizer que não existe lugar pra nós aqui, enquanto afro-descendentes, africanos em diáspora, ou seja lá qual for o termo, e pode até ser que não, mas as pessoas estão se organizando, se movimentando, criando e pensando politicamente nesse território. Então é essencial poder olhar pra história e entender que ela não é só essa história oficializada que a gente aprendeu, mas que existiram muitas outras coisas que foram ofuscadas, e que nos situam enquanto pessoas negras.

Desde o século XX a sociologia brasileira, em suas diferentes vertentes, vem tentando compreender a questão do negro, e, consequentemente, a sua cultura. Por muito tempo, esse trabalho ficou restrito à academia, composta, em sua maioria, por pessoas brancas e de classe média – ainda que tenhamos grandes pensadores negros e negras que tenham conseguido furar esse bloqueio. Nos últimos 20 anos, uma grande quantidade de pessoas negras e pobres têm acessado as universidades, e, aos poucos, introduzindo na academia um olhar orgânico sobre essas questões. Fora da academia, e com a relativa democratização da internet, surgiram centenas de sites, revistas e blogs – coletivos ou individuais –, cujo papel é contar a história negra no Brasil. Como você entende esse processo, tanto na produção desses registros de memória, mas também no que se refere às suas dificuldades?
Tem algumas coisas que eu fico pensando com relação a esse tema. Sermos agentes de produção de conhecimento é extremamente fortalecedor, mas, ainda assim, a internet não é um ambiente democrático, por mais que a gente ache que seja. É só pensar que o Elon Musk decidiu que a gente ficaria sem Twitter (X), e nós ficamos, durante três meses, e quem usava a ferramenta pra trabalhar, se fodeu. Então, a internet traz essa falsa sensação de democracia, mas, ainda assim, a gente consegue se conectar, e é isso que eu acho importante, porque, mesmo com as limitações, conseguimos acessar muita coisa. Tem coisas que eu não acessaria num livro, por exemplo, por conta do formato, ou o que quer que seja.
Então, são dois processos simultâneos, de uma democratização de informação que não é totalmente democrática. E eu acho relevante pensar como nos apropriamos dessas ferramentas, porque se o dono da rede social decidir desligar a tomadinha do site, a gente perde tudo. Mas, voltando: uma das coisas mais interessantes desse intercâmbio na internet é justamente poder acessar as ideias das pessoas que também estão produzindo conhecimento de forma crítica, de uma forma que seja a mais acessível e gratuita – possibilidade que, antigamente, era muito pequena. E, com isso, podendo acessar essas informações, discutir, conhecer essas pessoas; isso tudo é muito interessante.
Por outro lado, o acesso à universidade permite revisitar um pouco dessa historiografia que foi ensinada pra gente, possibilitando que possamos criticar os cânones, que, em geral, não temos coragem de combater dessa maneira crítica. Então, tanto esse acesso físico quanto virtual da informação vai trazer o jovem, uma pessoa preta de pensamento crítico, para a produção do hoje, mas também à do passado, porque, inevitavelmente, vamos começar a acessar essas coisas. E eu acho muito difícil que a gente acesse a universidade, sendo uma pessoa negra e pobre, e veja ela como outras pessoas. Por exemplo, eu tive uma colega de sala que era sobrinha-neta do Eduardo Suplicy, descendente da família Matarazzo, e eu nunca pensei que fosse conviver com essas pessoas. Eu estudei em escola pública a vida inteira, então não tem como entrar nesse ambiente sem pensar criticamente sobre quem você é. E pensar criticamente sobre quem você é passa pelo questionamento sobre o que está sendo ensinado pra você ali, enquanto pessoa negra e pobre. Todas essas questões vão fazendo a gente revisitar esse conhecimento que a gente tinha como único e verdadeiro, mas também faz a gente revisitar autores fora do cânone, que estavam pensando outras coisas, como Abdias Nascimento, Lélia González, Guerreiro Ramos, o Florestan Fernandes – que foi muito importante pra mim, rebatendo as teses do Gilberto Freyre –, enfim, muita gente.
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Então, embora a gente tenha essa facilidade de acessar as informações, por exemplo, pelo celular, não é só uma questão de acesso pelo celular, porque, se você não for instigado a fazer dessa ferramenta um meio de pesquisa, se você não for instigado pra isso, você vai passar suas horas em rede social, vendo influenciador ruim. Portanto, não é sobre a ferramenta, ainda que ela seja de extrema importância; você também precisa se alimentar dessa vontade de buscar, de pesquisar de forma crítica. E os maiores desafios que eu vejo pra isso é que a gente tem, mas não tem acesso. Porque temos todas essas ferramentas, mas falta o conhecimento de como acessar esse conhecimento e de como entender o que faz sentido. Porque a internet tem de tudo, mas precisamos de um direcionamento político e crítico para saber onde buscar essas coisas, e o que realmente é relevante, ler as coisas sem aceitar tudo, saber o que realmente pode ser útil ou não.
E um outro desafio que nós temos é o recurso financeiro. Você pode ter uma ótima ideia para um documentário, mas só o querer produzir não supera as limitações econômicas para que essa produção possa acontecer. Até a própria questão da preservação da memória passa por isso, porque, a depender do material que você tem, se ele não tiver uma conservação adequada, ele se deteriora. Por isso tem muita coisa em acervo cultural de banco por aí, por exemplo.
Então, eu volto à questão anterior: por mais que a gente tenha acesso, a gente ainda não tem acesso completo.
Você comentou sobre o Negras ser, especialmente, um acervo digital. Hoje em dia, grande parte das memórias são construídas de forma digital. Se por um lado isso facilitou o acesso e acúmulo de informações, por outro lado somos reféns das empresas de tecnologia, que detêm nosso material, e, com ele, podem fazer o que quiser – inclusive apagar tudo, por qualquer motivo que seja. Como você entende esse processo de registro e memória na era digital, e quais são as alternativas para que possamos driblar essas restrições, e nos apoderarmos de nossa própria memória, material e imaterial?
Eu estava lendo sobre essa questão dia desses, e uma certa angústia persiste, porque eu acho que existem respostas e soluções paliativas que eu também estou tentando procurar, mas ainda não encontrei. Ao mesmo tempo em que a internet tá aqui pra gente, como os arquivos e os acervos, amanhã eles podem não estar mais disponíveis. De novo, relembrando a questão do Elon Musk e a proibição do Twitter no Brasi: se eu publicasse meu acervo nessa rede social, o Negras Primaveras iria acabar, ou ficar indisponível durante o tempo em que o Twitter ficou indisponível. Com isso, se torna difícil pensar numa alternativa de preservação de um acervo digital quando esses acervos estão nas mãos de bilionários, dos donos das empresas de tecnologia, em aliança com uma política fascista, que decide quem e o que se pode falar.
O universo digital, assim como o universo físico, é um campo de disputa gigante, e eu acho que, por um momento, todos nós tivemos a ilusão de que seria acessível e democratico, só que hoje a gente percebe que a realidade não é essa. Eu tenho a sensação de que a internet é um universo muito destrutível, e muito por conta dessas movimentações políticas que vêm acontecendo nos últimos tempos.
Então, no fim das contas, é uma resposta que eu ainda busco, é uma angústia, mas eu quero pensar em outras formas de ter esse acervo, de democratizar o acesso, de fazer com que outras pessoas também possam agregar a ele, que seja algo mais coletivo e não de uma pessoa só. Por exemplo, tem o Arquivo Nacional, que qualquer um pode entrar lá e consultar ou baixar os documentos disponíveis, mas o processo é muito burocrático, muitos dos documentos disponíveis são pagos, ou seja, essa documentação existe, mas o caminho para se chegar nela é muito dificultado. Então é isso, eu penso que o Negras precisa ter um outro caráter, no sentido de ser um acervo.
Num dos textos publicados no site do Negras Primaveras, sobre o Cassiano, que nos deixou em 2021, você escreveu: “Por que os nossos mais velhos da música têm morrido sozinhos, sem um puto no bolso e sem serem devidamente celebrados e homenageados, quando as suas trajetórias dentro da arte brasileira são de imensa contribuição, quando suas composições, arranjos e canções marcam toda uma geração?” Existe um grande vácuo na historiografia de artistas negros, principalmente no samba, onde muitos dos baluartes morreram nas mesmas condições do Cassiano, sendo celebrados apenas dentro do universo do gênero. Essa realidade, que supostamente seria superada pela era da internet e da inserção da música negra na indústria cultural, ainda se faz presente. O que a morte do Cassiano e seu esquecimento podem nos ensinar sobre os desafios de se pensar uma memória e uma cultura negra contemporânea?
Quando eu escrevi esse texto, fiquei pensando várias coisas. Foi no contexto da pandemia, então era, basicamente, só a gente com a nossa cabeça. E a morte do Cassiano me afetou muito, porque, antes, eu tinha falado com um amigo, que é documentarista também: “amigo, vamos gravar um documentário sobre o Cassiano, pelo amor de Deus”. Aí se passaram dois meses e o Cassiano faleceu. Então foi bizarro, porque eu sempre fui muito fã do Cassiano, mas, durante a pandemia, eu passei a me conectar ainda mais com a música dele. E eu acho que a forma como ele morreu foi muito triste, mas também o fato de muita gente só lembrar que ele estava vivo depois que ele morreu. Ele foi tão descartado depois de ficar doente, não podendo mais cantar, que ele acabou sendo esquecido. Ele ainda compôs algumas coisas durante esse período, mas, no geral mesmo, era pouco lembrado. Não existia essa coisa de homenagem em vida, de tributo, e isso veio dos seus próprios pares na música.
Tem uma reportagem que fala sobre o Tim Maia, abordando os “maus comportamentos” dele, o fato dele, supostamente, ser agressivo, e num dado trecho, se fala de como o Tim roubou muito o Cassiano e sua banda (Os Diagonais). O Tim acabou se tornando um inimigo do Cassiano durante um tempo, porque ele estava enriquecendo, enquanto o Cassiano e Os Diagonais estavam na merda. Então é muito louco isso, porque o Tim gravou É Primavera, um dos maiores sucessos escritos pelo Cassiano. Dá pra gente falar da indústria, porque ela impõe essas divisões, quando define que seu parceiro tem que lucrar com a música, e você, compositor, não, e o cantor vai aceitar isso numa boa. Mas tem uma outra questão, o etarismo, que é você se tornar descartável quando envelhece. Então, quando se percebe que um artista está envelhecendo, adoecendo, ele deixa de atender certas expectativas do mercado, é deixado de lado.
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Mas é muito doido, porque, semanas atrás, um diretor, que estava produzindo um documentário sobre o Cassiano, fez uma série de entrevistas, e o Ed Motta, por exemplo, era muito próximo do Cassiano quando adolescente. Ele estudou e aprendeu muito com o Cassiano, se tornou um grande fã dele. Além de outras pessoas como a Sandra de Sá, o Carlos Dafé, muita gente boa da Soul Music brasileira que era apaixonada pelo Cassiano. Aí, essa semana, o diretor anunciou que o projeto foi descontinuado – não se sabe o porquê –, depois de quatro anos de trabalho, e tudo muito ficou revoltado, claro, mas ele disse que quer disponibilizar as entrevistas, os materiais que foram produzidos, para que o público tenha acesso. E isso retomou essa questão do Cassiano em mim, da memória, porque ele não teve direito nem a uma homenagem póstuma, para que as pessoas pudessem saber quem ele realmente foi, de onde ele veio, enfim, a história dele. Acho que tem muitos pontos nessa questão, então esse desafio da memória é também sabermos quem são nossos ídolos, saber que muitos deles estão vivos, e fazer o reconhecimento de quem eles são, do porquê são importantes.
A gente começa a perceber que a nossa vida cotidiana já é uma produção de memória em si, porque, o que a gente faz hoje é fruto do que os nossos pais, os nossos avós fazem e fizeram. A gente fala muito sobre a memória de quem já morreu, mas a memória é viva, ela tá aqui, todos os dias ela tá acontecendo e a gente tá se conectando com as pessoas, tendo novas referências, a produção de memória tá acontecendo agora. Então eu acho que essa percepção sobre o que a gente tem agora é muito importante, e registrar o nosso hoje também é muito importante. Então não vejo outro caminho a não ser coletar, registrar e publicar essas histórias, pra gente não cair nessa vala que tem se aprofundado nos últimos anos, em que perdemos muitos artistas, músicos em geral, e eles partiram deixando muito pouco de suas histórias registradas. Falta gente que vá até as famílias dessas pessoas, e proponha o resgate e a publicação dessas memórias, contar as histórias dessas pessoas.
A MPB, apesar de ser uma sigla para Música Popular Brasileira, é, em certa medida, mais um gênero musical do que uma constelação de gêneros populares brasileiros. Nesse sentido, muitas vezes a música negra – e, em maior medida, a música indigena – ficam de fora desse conglomerado. Quando pensamos em MPB, a primeira imagem que vem à nossa mente é de Gil, Caetano, Chico e Gal. Nesse sentido, o Tinhorão era ainda mais radical, pois pensava a verdadeira MPB como a música feita pela classe trabalhadora, camponesa, a música das classes populares, no sentido econômico e social do termo – muitas vezes, sendo extremamente nacionalista no que se refere à influência estrangeira na nossa música, ignorando as dinâmicas de raça e classe na inter-diaspórica. Como você entende esse apagamento de músicos e gêneros negros da chamada Música Popular Brasileira, e o que pode ser feito para que esse termo seja repensado, em virtude de uma maior inclusão?
Olha, você trouxe coisas bem difíceis de pensar. Primeiro é essa coisa da Música Preta Brasileira – que falamos antes da entrevista –, eu gosto dela, porque eu acho que a MPB foi, de certa maneira, negada pra gente. Mas acho que, hoje em dia, a galera tem entendido melhor o significado da MPB, no sentido de ser todo tipo de música popular que é feita no Brasil. Claro, não sei se a gente pode incluir artistas de alguns gêneros, como o pop, mas eu acho que o funk, enfim… Tem uma galera que vem tentando cunhar esses movimentos musicais dentro do guarda-chuva da MPB.
Eu vi uma entrevista do Martinho da Vila, e ele falava que, quando esse termo foi cunhado, o contexto era de muito racismo e descriminação contra o samba. Nas rádios não se tocava samba, então, o que se tocava de MPB era o cânone. Até tinha samba, mas aí era o samba do Chico Buarque, uma coisa que se chamava de “polida”. E eu gosto muito do Chico, do Gil, eu gosto dessa galera, mas eu entendo que a MPB, de certa forma, se moldou a partir do que era aceitável como erudito pela burguesia brasileira, como cosmopolita, como o “Brasil moderno” a partir a visão dela. E não se via isso nos sambistas clássicos. Então, concordo com o Martinho, principalmente por ele ter vivido esse processo, e eu acho que foi, realmente, algo para separar o que era, pelo viés da burguesia, ou da classe média, o que era a música popular brasileira do resto. É algo bastante complexo, porque hoje – eu e você falando aqui, mesmo sendo mais novos –, a gente sabe quem realmente criou a Bossa Nova, quem são seus precursores, que essas pessoas eram boas demais, super eruditas. O Tom Jobim pagava um pau pro Johnny Alf, pra Alaíde Costa, mas eles apagaram essas duas personalidades negras, como outras (da história da Bossa Nova), que eu não diria de forma proposital, mas também não fizeram nada pra subverter essa lógica de criação do gênero, ou seja; só eles foram os criadores da Bossa Nova. Então se torna impossível pensar nisso sem fazer um paralelo sobre o lugar marginal em que o samba foi colocado, por exemplo. Porque a sabedoria do samba foi deixada de lado no contexto de surgimento dessa MPB.
Agora, falando de inclusão, eu acho que ela já aconteceu, de certa maneira, principalmente no samba, mas é difícil pensar nisso, difícil achar alternativas dentro da sociedade posta como tal. Mas eu acho que existe uma importância no resgate e na disputa da gênese da Bossa Nova, especialmente no que se refere aos negros que estavam lá, no início. Porque, assim, pra quem curte música, vai chegar um momento em que a Bossa Nova, com essa representação branca e de classe média, vai deixar de fazer sentido, porque, falando da estrutura rítmica, ela tem todos os elementos do samba, que é um gênero afro-brasileiro. Então é importante não apenas contar a verdadeira história do surgimento da Bossa Nova, mas também contar porque ela foi embranquecida. Além disso, o que ela significava, politica e culturalmente, no Rio de Janeiro, no momento em que ela surgiu? Por que essa assimilação?
Assim a gente deixa de individualizar uma experiência estrutural. Porque Bossa Nova, como tal, é uma falsa celebração do samba, um falso respeito. Quando você escolhe quais os elementos do samba que vão compor o movimento [referência a uma fala racista de Tom Jobim], quais são passíveis de se integrar com esse movimento tido como da zona sul do Rio de Janeiro, isso é uma questão para se pensar. Eu acho que, por conta disso tudo que falamos, esse resgate da importância e do fator precursor do negro na Bossa Nova, ou, pelo menos, a evidenciar e colocar em pauta essa discussão, é importante a gente lembrar dessas pessoas. Ultimamente tem saído muita coisa sobre a Alaíde Costa, ela tá com força total nos palcos, cantando, e ela sempre traz esse ponto em suas falas, sobre a questão da negritude nesse movimento.
No fim de tudo, eu acredito que essa separação – quando o “samba é limpo”, como afirmou Jobim –, serviu pra que a Bossa Nova não tivesse um rosto negro, porque isso não era um desejo. O negro, historicamente, nunca foi visto como produtor de algo erudito, clássico, etc. Então, pra além de tudo que falamos, esse resgate é importante não apenas pelo fato da Alaíde estar viva, mas também porque o Johnny Alf morreu com muito menos atenção do que ele merecia.
Você descreve o projeto “Ẹ mo ri O”, desenvolvido em paralelo mas, também, junto ao Negras Primaveras, como “a arte como o nosso escudo e nossa lança”. Vendo o projeto, existe uma série de produções negras, como o rap, funk, reggae, afrobeat e uma série de músicas afro-diaspóricas, nascidas das contradições do tráfico de africanos escravizados para as Américas. O “Ẹ mo ri O” fala muito sobre territorialidade, algo que sempre foi uma questão para o povo negro, tanto pelo território material – terra, moradia, existência –, e tambem pelo que eu chamo de território imaterial – o pensamento, a narrativa, a ocupação e o lugar na história. O que seria, pra você, as armas e os escudos, e como cada uma dessas ferramentas podem proteger, defender e expandir a cultura negra e sua memória?
Como geógrafa de formação, essa questão do território é muito forte pra mim. E quando eu comecei a escrever sobre o projeto “Ẹ mo ri O”, eu tinha terminado a graduação recentemente, e meu TGI (Trabalho de Graduação Individual) tava muito fresco na minha cabeça, tanto ele quanto essa questão territorial que estamos falando. Eu pensava muito sobre a história do negro no território brasileiro, e a história desses negros tentando criar novos territórios, seus, dentro de um país que não nos aceita. Então, esse tema, na época, era de suma importância, porque eu estava começando a frequentar o candomblé, e lá essa questão era muito latente, ou seja, de não pertencer a esse lugar. Eu também fazia parte de um coletivo que debatia questões referentes à saúde mental da população negra, de forma institucional, e era muito difícil pensar essa questão do deslocamento e do não pertencimento nesse viés psicológico. Nós íamos pro centro da cidade discutir essas questões, mas o centro também sempre foi esse lugar que se vai pra dançar, pra conhecer gente, mas, depois, voltamos para nossas casas, e também não nos sentíamos em casa, porque quando a gente começa a estudar sobre raça, classe, etc., eu, por exemplo, passei a me sentir sem um lugar pra mim. Foi muito por conta dessa experiência que as leituras sobre o pan-africanismo me tocaram muito no começo, porque traziam essa sensação de que existiam mais pessoas que também se sentiam nesse não-lugar. E eu não falo isso num sentido de “ah, eu sou uma africana em diáspora”; não, eu sou brasileira, e por conta disso eu não me via nessa identidade nacional. Então, esses foram os gatilhos para começar o projeto.
Eu já estava com a intenção, na época, de entrevistar o Emcee Lê, e ele conta que, onde ele morava, era um campinho ali, um centro cultural em Osasco, e tinha um cara que cuidava desse espaço, e eles tiveram que implorar muito pra esse dono do espaço liberar que a festa deles fossem feita ali, no centro cultural, porque o cara não queria de jeito nenhum, por conta de um certo racismo da parte dele, um preconceito com o pessoal do reggae, aquele estigma sobre a maconha, etc. Mas o cara viu que não tinha como barrar, e acabou cedendo o espaço pro Lê fazer essa festa. Isso me faz pensar no quanto a gente precisa criar nossos espaços. Nós temos uma raiz cultural (africana) que não sabemos muito bem a origem, a descendência dela, práticas culturais coletivas, religiosas, espirituais, alimentares, enfim, uma série de expressões culturais que a gente não tem uma noção concreta de onde veio, de que lugar da África elas vieram. Sendo nós, de certa forma, um povo sem território, em múltiplos sentidos, como que a gente se reinventa?
Eu acho que é sobre isso tudo que falei, mas também sobre inventar uma outra territorialidade, pegar um determinado espaço e dentro daquele espaço trazer essas riquezas materiais da nossa cultura, porque, quando nós não temos um lugar, nós temos de criar esse lugar, esse espaço, pra conseguir criar, fazer cultura. Criar essa territorialidade é poder assentar as coisas que nós fomos acumulando, pegando um pouco de cada canto.
Então, voltando a sua pergunta, e respondendo ela de forma mais direta, os escudos e as armas são a cultura, o território.
Pra gente finalizar, quais são suas aspirações futuras para o Negras Primaveras, e o que podemos esperar do projeto, em questão de novas produções, e pra onde ele pode se expandir?
Esse ano minha meta é conseguir fazer com que o filme sobre a Veraneio (produção de Nalu Silva, sobre o primeiro DJ do Brasil, Seu Osvaldo Pereira , e sua família) rode pelos festivais, e chegue a cada vez mais pessoas, porque eu acho que, dentro disso que discutimos, sobre a disputa de narrativas, o filme ganha uma importância enorme. As pessoas no Brasil precisam saber que o primeiro DJ do Brasil é uma pessoa negra, que está viva, com 91 anos, que começou a tocar na década de 1950, que ele criou o próprio aparelho de discotecagem – ele era técnico em eletrônica. É uma história muito foda de ser contada, sabe? Então, nesse ano, eu quero focar nisso, expandir, fazer com que as pessoas conheçam a história do Seu Osvaldo, da família dele, porque aí tem muito forte essa coisa da memória. Ainda vivo, ele deixou um legado, uma geração de DJ’s na família, e isso é incrível.

(Foto: Reprodução / Veraneio)
Mas, para além disso, eu tenho vontade de sentar, escrever um novo projeto, desenvolver um novo documentário, falando sobre as mulheres no rap. Isso é algo que eu quero muito. Ao mesmo tempo, eu quero que 2025, de alguma forma, seja um ano sabático, no sentido de que eu quero usá-lo pra pensar, pra que, no ano que vem, eu possa fazer isso tudo. Eu acho importante isso. Mas esse movimento das minas no rap é o foco. No próprio “Ẹ mo ri Om” eu entrevistei a Ajuliacosta, que é uma das minhas rappers favoritas da atualidade, então eu quero fazer algo novo, nesse mesmo caminho. A história dela é foda. É uma mina que veio de Mogi para São Paulo, foi morar na zona sul, trabalha com música, com moda, ela costura, tem a marca dela, é uma multiartista. E eu gosto muito desse movimento das minas no rap que tá rolando na atualidade, porque elas estão se unindo, e eu quero registrar isso pra posteridade.





































