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A silenciosa violência dos acordos de paz

O chamado “acordo de paz” de Trump na RD Congo, com tomada dos minerais do país, não passa de uma continuação da violência por outros meios

Marjorie Namara Rugunda
Crianças trabalham com mineração no leste da República Democrática do Congo, em 2010. (Foto: Sasha Lezhnev / Enough Project / Flickr)
Crianças trabalham com mineração no leste da República Democrática do Congo, em 2010. (Foto: Sasha Lezhnev / Enough Project / Flickr)

Acordos de paz são frequentemente anunciados entre apertos de mão, sessões de fotos, sorrisos e manchetes comemorativas. São momentos espetaculares que acabam sendo apresentados como verdadeiras vitórias da diplomacia e da estabilidade. Embora alguns acordos de paz devam de fato ser comemorados, por trás das coletivas de imprensa e dos aplausos, devemos também perguntar: o que está realmente sendo negociado em nome da paz? Quais são as vidas que continuam sendo sacrificadas em nome dos acordos de paz?

Durante uma coletiva de imprensa no dia 27 de junho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que um acordo de paz entre a República Democrática do Congo (RDC) e Ruanda havia sido assinado. Em seu anúncio à imprensa, Trump afirmou que, embora não saiba muito sobre o conflito no leste do Congo, essa foi uma das piores guerras que já viu e que, por acaso, tinha alguém capaz de resolvê-la: seu assessor sênior para a África, Massad Boulos. Ele então afirmou que, como parte do acordo, os Estados Unidos também receberão os direitos minerais do Congo. Embora haja muito a ser analisado nos detalhes do acordo, a observação casual de Trump sobre ter garantido os direitos minerais não pode ser ignorada, especialmente porque este acordo, como muitos outros que fracassaram antes dele, está sendo celebrado como uma vitória não apenas para o povo do leste do Congo, mas para o mundo.

Mas se a guerra realmente acabou, por que a paz sempre deve vir em troca de minerais?

Este acordo, que foi finalizado em Washington, levanta questões críticas sobre o significado da paz. Trump afirma que o conflito acabou, mas a extração mineral na RDC há muito tempo funciona como uma forma de guerra, travada não apenas com armas, mas também através da expropriação. Por décadas, o povo congolês convive com as consequências da extração violenta: deslocamentos forçados, degradação ambiental, trabalho escravo e deterioração do estilo de vida comunal. Os minerais que estão sendo negociados neste acordo já estiveram no centro de uma guerra que privou as pessoas de suas terras, saúde e futuro. O que é apresentado como paz é, na verdade, a perpetuação da violência imperial, onde as ferramentas de guerra, desta vez, serão contratos e empresas ocidentais.

Em seu livro Remaindered Life, Neferti X. M. Tadiar escreve que “vivemos em uma época em que todos os dias nos oferecem amplas evidências da descartabilidade da vida humana. É um uso casual da palavra – humana – para a própria descartabilidade desta vida”. A expropriação, neste contexto, não é apenas histórica, é contínua. “Uma guerra de expropriação”, lembra Tadiar, “é o modo de acumulação predominantemente entendido como a base ‘original’ ou ‘primitiva’ da ascensão do capital, mesmo que aqueles que lutam para sobreviver neste momento saibam muito bem que uma guerra racista e sexista de expropriação é o coração pulsante do capitalismo global contemporâneo”.

A RDC, que possui as maiores reservas mundiais de cobalto, diamantes, zinco e urânio, continua sendo um palco da fome imperial, na qual as vidas do povo congolês são consideradas descartáveis a serviço das cadeias de abastecimento globais e do lucro destinado ao Ocidente. Mais de 40 mil crianças, ao lado de trabalhadores adultos, continuam trabalhando em minas em condições tóxicas e desumanas. Essas crianças e as comunidades das quais fazem parte vivem o que Tadiar chama de “vidas residuais”: vidas marcadas como descartáveis, inúteis ou necessárias apenas na medida em que servem ao capital. Os acordos de paz neste sistema global muitas vezes não passam de uma pausa na confrontação direta para que a violência da extração possa continuar ininterrupta.

Tadiar escreve que “o desperdício é o objeto do novo imperialismo” e, no Congo, tanto a terra quanto seu povo são há muito tratados como lixo, explorados, pagos abaixo do salário mínimo e abandonados. As minas que produzem cobalto para telefones celulares e carros elétricos estão cercadas por ecossistemas devastados, trabalhadores doentes e comunidades empobrecidas.

O chamado acordo de paz de Trump consolida uma relação imperial de longa data: a extração de valor do solo africano sem levar em conta as pessoas que vivem nele. A afirmação de que este acordo de paz finalmente pôs fim ao conflito na RDC nos distrai dos termos reais do acordo: um reforço do controle ocidental sobre a terra e a mão de obra congolesas.

Tadiar nos lembra que o capitalismo “mantém sua dominância, muitas vezes, à custa da intensificação da desigualdade e da degradação ambiental”. Na RDC, o custo é arcado por crianças e comunidades que respiram poeira e cavam em busca de minerais para abastecer dispositivos e enriquecerem as economias ocidentais. Declarar vitória ao anunciar direitos sobre minerais é declarar posse sobre as vidas humanas no Congo. A extração mineral não pode ser separada do povo congolês, que trabalha em condições extremas para produzir essa riqueza. Tadiar observa que “as pessoas se viram para sobreviver; são elas que precisam aprimorar a arte de revalorizar os resíduos da modernidade e transformá-los em artes de fazer a vida”. Na RDC, a mineração se tornou sobrevivência. Comunidades inteiras dependem da mineração artesanal não por escolha, mas por necessidade, forçadas a converter resíduos – ambientais, econômicos e sociais – em sobrevivência.

Tadiar nos leva a ver que “o capital lucra há séculos com a descartabilidade das vidas humanas e não-humanas”. O anúncio de Trump não é uma ruptura com essa história; é uma continuação dela. A RDC não precisa de acordos de paz que convertam seus minerais em moeda de troca. Ela precisa de soberania, justiça ambiental e um mundo que pare de tratar a vida africana como dano colateral na busca pela conveniência global.

Chamar isso de acordo de paz bem-sucedido e fim definitivo da guerra é dar um nome errado à violência que continua na RDC. A guerra pelos minerais no Congo nunca cessou; apenas assumiu formas diferentes. Hoje, ela é travada não apenas por meio de conflitos armados, mas também pela violência silenciosa da degradação ambiental, da exploração econômica e de acordos de paz que continuam a priorizar os ganhos imperiais em detrimento das vidas humanas.

(*) Tradução de Raul Chiliani

Africa is a Country O Africa is a Country é um site de opinião e análise sobre e a partir da esquerda africana fundado por Sean Jacobs em 2009.

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