Pesquisar
, ,

Quem será prejudicado se a direita vencer na Bolívia?

A impopularidade do MAS em meio a uma crise multidimensional criou a possibilidade da direita vencer uma eleição na Bolívia pela primeira vez em mais de 20 anos

Joseph Bouchard
Centro de votação em Bolognia, La Paz, Bolívia, nas eleições de 2014. (Foto: Pablo Andrés Rivero / Flickr)
Fonte: Google

Antes das eleições presidenciais deste domingo na Bolívia, a última pesquisa da Ipsos Ciesmori, divulgada no último fim de semana, traçava o quadro de uma disputa acirrada na corrida presidencial boliviana entre o magnata e candidato centrista Samuel Doria Medina (21,2%), o ex-presidente conservador e pró-ditadura Tuto Quiroga (20%) e Manfred Reyes Villa, prefeito de Cochabamba, capitão reformado do Exército e direitista pró-ditadura, com 7,7%.

Os dois candidatos de esquerda filiados ao MAS, o líder do Senado Andrónico Rodríguez e o ministro do governo Eduardo del Castillo, estão ambos com menos de 10% nas pesquisas, apesar de o MAS, no início do ciclo eleitoral, liderar as intenções de voto. O atual presidente Luis Arce não se candidatou por seu governo estar marcado por crises contínuas, escândalos e impopularidade.

A impopularidade do MAS e da esquerda, especialmente em meio a várias crises – inflacionária, política, judicial, energética e financeira – criou a possibilidade da direita vencer uma eleição na Bolívia pela primeira vez em mais de 20 anos. O campo dos “sem voto, em branco ou indecisos” está em 33%, sendo a maioria formada por eleitores de esquerda descontentes; os mais proeminentes são os apoiadores de Evo Morales, que foi impedido de concorrer e é procurado por acusações de pedofilia.

A corrida provavelmente irá para um segundo turno no final de outubro, caso nenhum candidato garanta 40% dos votos e uma vantagem de 10% sobre o segundo colocado. Da forma como as coisas estão, dois candidatos de centro-direita, Doria Medina e Quiroga, provavelmente avançarão; um golpe para a agenda progressista da esquerda. Seria o primeiro segundo turno na história da Bolívia.

A ruína do movimento socialista na Bolívia tem sido a alegria da direita, que não conseguiu contê-la, talvez até exagerando na véspera das eleições de domingo.

Marcelo Claure, o homem mais rico da Bolívia e grande financiador do multimilionário Samuel Doria Medina, declarou que a Bolívia em breve estará “livre do socialismo e do comunismo” e disse que espera voltar ao país sob um “novo governo”. Claure, que vive entre Nova York e Miami, apoia um plano econômico neoliberal, focado no setor privado, que suspeitosamente reflete o de Doria Medina, pedindo a privatização de indústrias-chave, convidando instituições financeiras internacionais como o Fundo Monetário Internacional e contando com “parcerias público-privadas”. Grande parte do financiamento de Doria Medina também vem de sua fortuna pessoal, ironicamente obtida por meio de contratos com o Estado.

Jaime Dunn, o magnata libertário de direita de Wall Street que desistiu da corrida após se autoproclamar o “político mais comentado da Bolívia”, também tem feito um lobby ativo por um governo de direita. Dunn afirmou que “a Bolívia é um país de proprietários, não de proletários”, alegando que tanto Doria Medina quanto Quiroga “copiaram [seus] planos econômicos”. Ele comemorou o que chama de “o fim do socialismo e do autoritarismo”, ao mesmo tempo em que propôs desmantelar todas as indústrias estatais, pôr fim à autoridade tributária, reduzir os impostos para os ricos e acabar com os subsídios aos combustíveis e outras políticas de subsídios, um programa que provocaria um tsunami de caos e sofrimento em todo o país.

Dunn elogia abertamente os cortes “radicais” do presidente argentino Javier Milei, que já empurraram mais da metade dos argentinos para a pobreza, deixaram milhares vivendo nas ruas e venderam o país para golpistas de criptomoedas, grandes exportadores e investidores estrangeiros.

A classe financeira deixou suas preferências bem claras. Em uma matéria da Reuters, investidores estrangeiros expressaram euforia com a perspectiva de um novo governo de direita, dizendo que a eleição está “marcada pelas esperanças dos investidores de que uma reviravolta política poderia ajudar a fortalecer a frágil economia do país e pavimentar o caminho para um programa do FMI”.

Carlos de Sousa, estrategista de dívida da Vontobel, disse que uma mudança no governo seria “bastante positiva para a economia”. Ajata Mediratta, sócio da Greylock Capital, descreveu um governo não esquerdista como aquele que traria “reformas liberalizantes” que “eventualmente permitirão a economia florescer” e “desamarrar a economia”.

Essa é uma maneira terrível de dizer que as pessoas vão sofrer imensamente com a austeridade e as políticas destinadas a enriquecer os ricos e o capital estrangeiro.

A grande mídia, particularmente nos EUA, tem dedicado ampla cobertura aos candidatos de direita, apresentando suas ideias e personalidades, reforçando um vácuo de “neutralidade”, sem reconhecer sua história. Isso inclui seus papéis na ditadura de Banzer, seu papel na venda dos setores energético e comercial da Bolívia a interesses estrangeiros na década de 1990 e no início dos anos 2000 (o que levou à Guerra da Água de Cochabamba e à ascensão do MAS) e seu histórico com programas de austeridade apoiados pelo FMI que trouxeram resultados muito discutíveis, apesar dos seus custos.

Um governo de direita hoje significaria mais pobreza, mais austeridade, mais militarismo (e um provável retorno da forte influência dos EUA) e menos representatividade para os povos indígenas e as mulheres na Bolívia.

Dentro da Bolívia, o ecossistema da mídia corporativa passou anos promovendo candidatos conservadores. A maioria dos veículos de comunicação no país é privada, dá cobertura e compra pesquisas tendenciosas para seus candidatos de direita preferidos. Entre eles estão Red Uno, Bolivia TV, Unitel, ERBOL, El Deber, as duas redes católicas Fides e La Brújula Digital. Página Siete, o único veículo de comunicação independente da Bolívia, foi fechado por pressão do governo, deixando um grande vazio na liberdade de imprensa do país.

Contas no TikTok, X e Facebook também têm se empenhado em espalhar desinformação a seu favor, publicando enquetes manipuladas ou totalmente falsas compradas por candidatos e dando cobertura desproporcionalmente favorável aos conservadores. A cobertura negativa do MAS e da esquerda, com cobertura predominantemente positiva ou neutra da direita, domina suas reportagens.

Até mesmo Evo Morales tem divulgado enquetes falsas para alegar que a eleição está fraudada contra ele.

Existe agora uma rede coordenada e bem financiada, apoiada pelo grande capital, por grandes empresas e instituições financeiras internacionais, trabalhando para trazer um novo governo conservador à Bolívia. Isso significaria desmantelar grande parte do progresso alcançado pelo MAS e pela esquerda nos últimos 20 anos.

O MAS, embora certamente imperfeito (podemos falar sobre a má gestão de crises, corrupção, abraço a ditadores e centralização do poder), fez progressos significativos em várias frentes importantes. Isso inclui a redução drástica da pobreza e da extrema pobreza em mais da metade; a redução da fome infantil; a ampliação do acesso à educação pública; a criação de novas universidades públicas; a defesa dos direitos à água; mais do que quadruplicar o produto interno bruto per capita após décadas de estagnação; levar a Bolívia a uma taxa de desemprego baixa e estável; nacionalizar com sucesso indústrias-chave; expandir a saúde pública através do SUS; e dar aos povos indígenas, às mulheres e a outros grupos marginalizados uma representação política significativa sob um governo plurinacional.

Se as pesquisas estiverem corretas, esse legado poderá desaparecer em breve, dando lugar à austeridade e ao sofrimento generalizado em meio a crises históricas.

Common Dreams O Common Dreams é um veículo de notícias independente, sustentado pelos leitores, criado em 1997 como um novo modelo de mídia.

Continue lendo

O Estreito de Ormuz visto do espaço. (Foto: NASA Johnson / Flickr)
Como o bloqueio do Estreito de Ormuz está remodelando o fluxo energético global
O oficial nazista Klaus Barbie, o "carniceiro de Lyon", reabilitado pela CIA para reprimir movimentos de esquerda na América Latina. (Foto: Domínio Público / Wikimedia Commons)
As origens nazistas do tráfico de drogas na América Latina: Klaus Barbie, a cocaína e a CIA
O presidente dos EUA, Donald Trump. (Foto: White House / Flickr)
Irã: a guerra fracassou, as negociações fracassaram – o bloqueio de Washington também fracassará

Leia também

São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Brasília (DF), 12/02/2025 - O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, durante cerimônia que celebra um ano do programa Nova Indústria Brasil e do lançamento da Missão 6: Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais, no Palácio do Planalto. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O bestiário de José Múcio
O CEO da SpaceX, Elon Musk, durante reunião sobre exploração especial com oficiais da Força Aérea do Canadá, em 2019. (Foto: Defense Visual Information Distribution Service)
Fascista, futurista ou vigarista? As origens de Elon Musk
Três crianças empregadas como coolies em regime de escravidão moderna em Hong Kong, no final dos anos 1880. (Foto: Lai Afong / Wikimedia Commons)
Ratzel e o embrião da geopolítica: a “verdadeira China” e o futuro do mundo
Robert F. Williams recebe uma cópia do Livro Vermelho autografada por Mao Zedong, em 1 de outubro de 1966. (Foto: Meng Zhaorui / People's Literature Publishing House)
Ao centenário de Robert F. Williams, o negro armado
trump
O Brasil no labirinto de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, com o ex-Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado Henry Kissinger, em maio de 2017. (Foto: White House / Shealah Craighead)
Donald Trump e a inversão da estratégia de Kissinger
pera-5
O fantástico mundo de Jessé Souza: notas sobre uma caricatura do marxismo
Uma mulher rema no lago Erhai, na cidade de Dali, província de Yunnan, China, em novembro de 2004. (Foto: Greg / Flickr)
O lago Erhai: uma história da transformação ecológica da China
palestina_al_aqsa
Guerra e religião: a influência das profecias judaicas e islâmicas no conflito Israel-Palestina