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Frei Betto: soberba versus soberania

O que incomoda Trump não é o processo contra seu aliado Bolsonaro. É o crescente protagonismo do Brasil no cenário internacional

Frei Betto
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante evento oficial na Casa Branca. (Foto: Joyce N. Boghosian / White House)
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante evento oficial na Casa Branca. (Foto: Joyce N. Boghosian / White House)

Seremos tão ingênuos a ponto de acreditar que Eduardo Bolsonaro teve poder suficiente para convencer Trump a abrir uma guerra econômica contra o Brasil, e ainda exigir como botim a anulação de todos os processos que têm por alvo seu pai, o cabeça da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023? 

Ora, não nos esqueçamos que Trump era, antes de se envolver em política, um animador de auditório. Assim como Silvio Santos e Milei. Um histriônico que domina a arte de chamar a atenção sobre ele. Seu programa de TV, “The Apprentice” (O Aprendiz), estreou em 2004. 

O formato era um reality show de competição empresarial. O estilo do programa refletia bastante a imagem que Trump cultivava na época: empresário direto, competitivo, com postura autoritária. A imagem de “chefe que decide quem fica e quem sai” reforçou a ideia de que Trump era decisivo, durão e competente em negócios – qualidades que ele depois usaria para aparecer como “líder forte” na campanha presidencial. Ao anunciar sua candidatura em 2015, ele já conquistara um público que o via como um “solucionador de problemas” e “chefe nato”, graças à persona criada no programa. 

Por isso, Trump faz da política seu show e da Casa Branca seu palco, provocando efeitos surpreendentes sobre a plateia global. Gostem ou não do espetáculo, o nome dele figura inevitavelmente, todos os dias, em todos os noticiários.

O que incomodava o capitalismo ocidental após a Primeira Grande Guerra era a emergência da União Soviética. Daí o “sanduíche” sobre o território comunista: Alemanha de um lado, Japão do outro. No entanto, as duas nações decidiram repudiar o capitalismo e o comunismo e impor seus impérios nazifascistas ao mundo. Foi preciso então à Europa recorrer aos EUA para derrotar o monstro no qual se transformara a bela Medusa.

“Espelho meu, espelho meu, há alguém mais poderoso do que eu?”, se pergunta Trump todas as manhãs ao mirar o reflexo de seu rosto “averanjado”, mistura de vermelho e laranja. 

O que incomoda Trump não é o processo contra seu aliado Bolsonaro. É o crescente protagonismo do Brasil no cenário internacional. Sobretudo o êxito do BRICS, o Sul Global, o bom entendimento de nosso país com grandes potências, como China, Rússia e Índia. Incomoda a Trump a decisão de regular o funcionamento das Big Techs em território brasileiro. As Big Techs são, hoje, os olhos e ouvidos dos EUA. Querem fazer a cabeça dos usuários, espioná-los, captar seus perfis como consumidores, esquadriar suas preferências políticas. 

Incomoda a Trump o Brasil não aceitar o papel de “república de bananas”, manter-se como mero consumidor de produtos manufaturados e exportador de produtos primários, hoje chamados elegantemente de “commodities”. Incomoda a nossa soberania, a nossa independência, o fato de Lula não se sujeitar a pegar o telefone e ligar para ele suplicando por negociar tarifas. 

Lula faz muito bem em não ligar. Trump que tome a iniciativa. Se Lula ligar, a relação entre os dois países ficará ameaçada, pois Trump pode se destemperar como fez com Zelenski e querer passar um sermão em Lula. Nesta hipótese, só restaria a Lula bater o telefone, o que ecoaria como símbolo de ruptura. Ou Lula revidar, o que representaria cair no jogo espúrio do arrogante ocupante da Casa Branca. 

Os EUA sabem que estão perdendo a hegemonia mundial. Outros atores lhe roubam a postura de ator principal. Por isso, defendem o globalismo e combatem o multilateralismo. 

Hoje, o imperialismo já não usa as mesmas armas do passado: marines, intervenção armada, mísseis, golpes de Estado. Usa armas mais sofisticadas, como as redes digitais. Usa robôs e algoritmos para alterar resultados eleitorais, divulgar fake news, exaltar os aliados (vide o relatório de direitos humanos divulgado por Trump na segunda semana de agosto, em que isenta Israel, El Salvador e Arábia Saudita de qualquer violação…) e intervir na economia interna. Incomoda a Trump o Pix não ser controlado pelas corporações estadunidenses de cartões de crédito e o governo estadunidense não poder rastrear as transações financeiras feitas pelos brasileiros. 

A guerra econômica é, hoje, a grande arma de Washington, como os bloqueios a Cuba e Venezuela, Irã, Coreia do Norte e Rússia. Sobretudo, o tarifaço! Ao fazê-lo pesar sobre quase todos os países, Trump deu um tiro no pé. Convenceu inúmeros governos de que ser aliado aos EUA custa caro e prejudica a economia nacional. Sem dúvida isso virá reforçar o multilateralismo. E o tema da governança mundial voltará à pauta das nações. Porque é hora de escolher entre soberania ou sujeição à soberba trumpista. 

(*) Frei Betto é escritor, autor do romance sobre o período colonial, “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Revista Opera A Revista Opera é um veículo popular, contra-hegemônico e independente fundado em abril de 2012.

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