Amodernização da China tem sido um dos processos mais notáveis do século XXI, suscitando um debate acadêmico interminável. Meng Jie (孟捷), ilustre professor da Escola de Marxismo da Universidade Fudan, em Xangai, dedicou a maior parte de sua carreira a analisar esse processo, buscando compreender melhor o que realmente ocorreu no país.
Como um economista marxista chinês, Meng Jie construiu suas teorização com base em sua própria pesquisa primária nas fábricas modernas da China, traçando como as cadeias de abastecimento nacionais foram construídas, como os mercados são estruturados e como o Partido Comunista e o Estado estabelecem metas e estruturas para alcançar resultados econômicos específicos.
Na entrevista a seguir, Meng Jie compartilha suas perspectivas sobre alguns elementos básicos do processo de modernização socialista da China.
Shiran Illanperuma (SI): Os modelos de desenvolvimento liderados pelo Estado são comumente associados a uma burocratização excessiva. Como a China evita esse problema?
Meng Jie (MJ): Acho que isso se deve, em primeiro lugar, ao fato das atividades econômicas da China se basearem na premissa de que o mercado desempenha um papel decisivo na alocação de recursos. Isso significa que, para o governo desempenhar melhor seu papel, ele deve primeiro reconhecer a prioridade da economia de mercado.
A política industrial da China é sistemática e estruturalmente bastante complexa. Isso porque a China tem uma liderança centralizada e um sistema inclusivo de descentralização a nível de governos locais. Portanto, tanto os ministérios centrais quanto os governos locais da China têm suas próprias políticas industriais. Essas políticas podem, de fato, diferir entre si.
Os governos locais estão mais familiarizados com os contextos locais e possuem o que é conhecido como “conhecimento local”. Esses governos locais podem, portanto, adaptar as políticas do governo central às condições locais. Por sua vez, essas adaptações podem ser posteriormente reconhecidas pelo governo central, que é obrigado a alterar suas políticas com base nas realidades locais.
Outro aspecto é que, mesmo para as políticas industriais implementadas pelo governo central, existe um certo tipo de competição entre diferentes departamentos – chamamos isso de competição interdepartamental. Por exemplo, durante o desenvolvimento da ferrovia de alta velocidade da China, tanto o Ministério das Ferrovias quanto o Ministério da Ciência e Tecnologia estiveram envolvidos. A competição entre os dois teve um efeito positivo na implementação da política industrial.
SI: Você argumenta que a China tem um “mercado construtivo”. Como isso difere dos mercados livres neoliberais?
MJ: Embora o mercado desempenhe um papel decisivo na alocação de recursos na China, o governo também desempenha um papel, como facilitador. Em um mercado construtivo, o governo basicamente desempenha as seguintes funções:
Primeiro, ele deve coordenar a divisão do trabalho. Podemos ver exemplos disso em muitos setores. Em uma economia puramente de mercado, o mecanismo de preços de mercado é o único meio de coordenar a divisão do trabalho. No entanto, na economia de mercado socialista da China, o governo também assume a responsabilidade de coordenar diretamente a divisão do trabalho.
Segundo, o governo geralmente precisa estabelecer um mecanismo de incentivo no mercado. Isso porque ele precisa alinhar a estratégia de desenvolvimento nacional com os objetivos perseguidos pelas empresas em nível microeconômico. Portanto, fornecer os incentivos apropriados é realmente crucial para promover o desenvolvimento e o crescimento do mercado.
SI: O que há de tão “socialista” na modernização da China?
MJ: A modernização da China é liderada pelo Partido Comunista Chinês e tem como premissa o sistema econômico socialista básico. A modernização ao estilo chinês tem estas características fundamentais:
Primeiro, trata-se da modernização de uma enorme população. Segundo, a modernização com vistas à prosperidade comum para todos. Terceiro, a modernização do avanço material e cultural-ético. Quarto, a modernização da harmonia entre a humanidade e a natureza. Quinto, a modernização do desenvolvimento pacífico.
A combinação dessas características significa que a modernização ao estilo chinês deve ser inerentemente socialista por natureza.
Primeiro, considere o desafio de modernizar a enorme população da China. O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, disse uma vez que o planeta não seria capaz de sustentar a modernização da China porque sua população é muito grande. Na sua opinião, a modernização da China desencadearia e intensificaria vários conflitos. A implicação é que não há recursos suficientes para sustentar a modernização da China. Isso significa dizer que a modernização da China esgotaria os recursos de outros países e prejudicaria as perspectivas de desenvolvimento pacífico.
Em segundo lugar, considere o desafio de modernizar e, ao mesmo tempo, manter a coexistência harmoniosa entre a humanidade e a natureza. Isso significa que a China deve alcançar o desenvolvimento verde, desenvolver novas forças produtivas e desenvolver forças produtivas verdes para realizar sua modernização. Somente esse modelo de desenvolvimento pode resolver os desafios de modernizar de forma pacífica e sustentável uma enorme população.
Acredito que somente dentro de uma estrutura socialista e sob a liderança do Partido Comunista da China a modernização da China poderá ser alcançada. Na última década, o governo chinês obteve grandes conquistas na promoção do desenvolvimento verde. Em comparação, o governo dos EUA é limitado pelos interesses do capital no setor energético. Como resultado, quando se trata de lidar com questões como mudanças climáticas e aquecimento global, o governo dos EUA tem mostrado um retrocesso significativo. Isso não é acidental. Na verdade, é causado pelo sistema capitalista.
As vantagens sistêmicas da China permitem que ela siga um caminho de desenvolvimento verde. Isso impulsiona a modernização ao estilo chinês por meio do desenvolvimento de novas forças produtivas de qualidade e da conquista de um crescimento de alta qualidade.
O ensaio de Meng Jie, “Política industrial com características chinesas: a economia política das instituições intermediárias da China” (escrito em coautoria com Zhang Zibin), foi publicado na última edição da Wenhua Zongheng: A Journal of Contemporary Chinese Thought.




































