Assata Shakur, uma revolucionária negra que inspirou gerações de ativistas a lutar por um mundo melhor, faleceu na última quinta-feira (25) em Havana, Cuba, onde vivia exilada há mais de quatro décadas.
O Ministério das Relações Exteriores de Cuba anunciou sua morte na sexta-feira (26), informando que ela foi causada por uma combinação de “problemas de saúde e idade avançada”. Ela tinha 78 anos.
“Por volta das 13h15 do dia 25 de setembro, minha mãe, Assata Shakur, deu seu último suspiro”, escreveu sua filha Kakuya Shakur no Facebook na sexta-feira. “Não há palavras para descrever a profundidade da perda que estou sentindo neste momento. Quero agradecer por suas orações amorosas, que continuam a me dar a força de que preciso neste momento. Meu espírito está transbordando em uníssono com todos vocês que estão de luto comigo neste momento.”
Shakur, que nasceu Joanne Deborah Byron e também era conhecida como Joanne Deborah Chesimard, passou os primeiros três anos de sua vida no bairro do Queens, Nova York, antes de se mudar para Wilmington, Carolina do Norte. Ela então retornou ao Queens para cursar a terceira série.
“Passei minha infância no sul racista e segregado”, lembrou-se ela em uma carta de 1998 ao Papa João Paulo II. “Mais tarde, mudei-me para o norte do país, onde percebi que os negros eram igualmente vítimas de racismo e opressão.”
Shakur tornou-se ativista nos movimentos contra a Guerra do Vietnã, estudantil e de libertação negra enquanto frequentava a Faculdade Comunitária Borough of Manhattan e o City College of New York. Após a formatura, ela se juntou primeiro ao Partido dos Panteras Negras (BPP) e depois ao Exército de Libertação Negra (BLA).
“Fui ativista política durante a maior parte da minha vida e, embora o governo dos Estados Unidos tenha feito tudo ao seu alcance para me criminalizar, não sou criminosa, nem nunca fui”, escreveu ela em 2013.
Em 1973, ela e outros dois ativistas do BLA foram parados na rodovia New Jersey Turnpike por dois policiais estaduais. Ao final do encontro, tanto o amigo de Shakur, Zayd Malik Shakur, quanto o policial Werner Foerster haviam sido mortos a tiros. Em 1977, Shakur foi condenada pelo assassinato de Foerster em um julgamento que ela descreveu como um “linchamento legal”. Ao longo de sua vida, ela defendeu sua inocência.
“Fui baleada uma vez com os braços levantados e depois outra vez pelas costas”, escreveu ela sobre o tiroteio.
Ela foi condenada à prisão perpétua mais 33 anos, mas não permaneceu muito tempo atrás das grades.
“Em 1979, temendo ser assassinada na prisão e sabendo que nunca receberia justiça, fui libertada da prisão, auxiliada por companheiros comprometidos que compreendiam a profundidade das injustiças no meu caso e que também temiam muito pela minha vida”, escreveu ela.
Em 1984, ela solicitou asilo em Cuba. Ao longo de sua vida, ela também permaneceu firmemente comprometida com a causa da libertação de todos os povos oprimidos.
“Defendi e continuo defendendo mudanças revolucionárias na estrutura e nos princípios que governam os Estados Unidos”, escreveu ela a João Paulo II. “Defendo a autodeterminação do meu povo e de todos os oprimidos dentro dos Estados Unidos. Defendo o fim da exploração capitalista, a abolição das políticas racistas, a erradicação do sexismo e a eliminação da repressão política. Se isso é um crime, então sou totalmente culpada.”
Durante seu exílio, seus escritos, incluindo sua autobiografia de 1987, alcançaram um vasto público e levaram sua história e sua voz a ativistas mais jovens.
“É nosso dever lutar pela nossa liberdade”, escreveu ela em uma das passagens mais famosas do livro. “É nosso dever vencer. Devemos amar uns aos outros e apoiar uns aos outros. Não temos nada a perder, a não ser nossas correntes.”
Ela também foi influente no mundo da música e do hip-hop, tendo sido madrinha do rapper Tupac Shakur e inspirando canções do Public Enemy e do Common, entre outros.
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O governo dos Estados Unidos não desistiu de persegui-la. Em 2013, durante o governo do presidente Barack Obama, o FBI nomeou ela a primeira mulher em sua lista de “terroristas mais procurados”. O FBI e o estado de Nova Jersey também dobraram a recompensa por informações que levassem à sua captura. Essa recompensa agora nunca será sacada.
“Ela morreu livre!”, escreveu uma de suas admiradoras, que usa o pseudônimo The Cake Lady, nas redes sociais na sexta-feira. “O governo dos Estados Unidos, após décadas de perseguição, nunca teve a satisfação de colocá-la atrás das grades. Eles queriam vê-la presa, quebrada e exposto como exemplo, mas, em vez disso, ela escapou de suas garras e viveu sua vida no exílio, cercada por pessoas que honravam sua luta e sua sobrevivência.”
A notícia de seu falecimento inspirou homenagens de líderes e organizações de justiça social e anti-imperialistas, incluindo a ex-senadora estadual de Ohio Nina Turner e a deputada Ayanna Pressley (D-Mass.).
“Honramos a vida da camarada Assata Shakur, uma revolucionária que inspira e impulsiona todos nós na luta por um mundo melhor”, escreveu o grupo anti-guerra CodePink nas redes sociais.
A organizadora comunitária Tanisha Long postou: “Assata Shakur se junta aos ancestrais como uma mulher livre. Ela não morreu presa pelo sistema carcerário e não faleceu vivendo em uma terra que nunca a respeitou ou aceitou. Assata nos ensinou que a libertação não pode ser negociada, ela deve ser conquistada.”
A Revolutionary Blackout Network escreveu: “Obrigado por lutar para libertar a todos nós, camarada.”
O People’s Forum, com sede em Nova York, disse: “Honramos a vida e o legado de Assata como uma defensora incansável do povo e como um símbolo de esperança e resistência para milhões de pessoas em todo o mundo na luta urgente contra o racismo, a brutalidade policial, o imperialismo dos EUA e a supremacia branca. O compromisso inabalável de Assata com a libertação de seu povo continua a inspirar gerações”.
Os Socialistas Democráticos da América (SDA) prometeram “honrar seu legado, reconhecendo nosso dever de lutar por nossa liberdade, vencer, amar e proteger uns aos outros, porque não temos nada a perder além de nossas correntes”.
A organizadora do Black Lives Matter, Malkia Amala Cyril, lamentou à agência The Associated Press que Shakur tenha falecido durante um aumento global do autoritarismo.
“O mundo nesta era precisa do tipo de coragem e amor radical que ela praticava, se quisermos sobreviver a ele” disse Cyril.
Várias homenagens apresentaram as próprias palavras de Shakur.
“Eu acredito na vida”, escreveu ela em um poema no início de sua autobiografia.
“Eu acredito no nascimento. Eu acredito no suor do amor e no fogo da verdade. E acredito que um navio perdido, conduzido por marinheiros cansados e enjoados, ainda pode ser guiado de volta ao porto”.







































