Recentemente, o jornal New York Times publicou uma reportagem sobre os ataques executados pelas forças militares americanas contra pequenas embarcações na costa venezuelana. Essas operações, apresentadas pelo governo Trump como parte de uma ofensiva contra o narcotráfico e justificadas sob a premissa de um conflito armado contra supostos cartéis de drogas, resultaram na morte de pelo menos 27 pessoas em cinco incidentes diferentes, segundo números oficiais. O presidente americano afirmou na rede Truth Social, em 14 de outubro, que um quinto ataque mortal no Caribe havia tirado a vida de seis pessoas a bordo de uma pequena embarcação acusada de transportar drogas.
No entanto, o próprio trabalho jornalístico introduz uma nuance que rompe com o tom habitual dessa narrativa. Com base em dados de agências americanas e organismos internacionais, o texto do New York Times reconhece que a maior parte do tráfico de cocaína para os Estados Unidos se desloca pelo Pacífico e não pelo Caribe, e que a Venezuela não figura entre os países com incidência direta na produção ou trânsito de drogas.
Os fatos não são novos, mas adquirem outro significado quando provêm do próprio sistema midiático que, durante anos, apoiou a retórica de Washington sobre um suposto “narcoestado” venezuelano.
O mapa que desmente a narrativa
O New York Times reconhece em sua própria análise o que os números oficiais das Nações Unidas e da agência antidrogas dos EUA, a DEA, vêm registrando há anos: o tráfico de cocaína que abastece o mercado americano não tem a Venezuela como eixo, nem na produção nem no trânsito. A cartografia publicada pelo jornal americano mostra claramente que as principais rotas do narcotráfico atravessam o Pacífico, não o Caribe, e que sua origem se concentra na Colômbia, Peru e Bolívia, os três grandes produtores de folha de coca do continente.
A chamada guerra antidrogas que hoje justifica operações militares na costa venezuelana se baseia, portanto, em um mapa distorcido. Enquanto Washington fala de “cartéis do regime” e apresenta seus ataques como parte de um conflito armado, as evidências empíricas situam o principal fluxo de cocaína muito longe das águas caribenhas. De acordo com os relatórios da ONUDD, 87% do tráfico global sai pelo Pacífico, especialmente dos portos colombianos e equatorianos, e apenas 5% tenta cruzar o território venezuelano.
Desses 5%, a maior parte é interceptada antes de sair do país. A Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) e os órgãos de segurança venezuelanos destruíram centenas de pistas clandestinas, derrubaram mais de 400 aeronaves e apreenderam mais de 56 toneladas de drogas somente em 2025, de acordo com relatórios do Ministério do Interior e da Justiça. Desde a expulsão da DEA do país em 2005, o desempenho da Venezuela em matéria de controle antidrogas não só se manteve, como melhorou de forma sustentada. Essa realidade contrasta com a narrativa internacional que, sem provas verificáveis, insiste em transformar o país em um epicentro do narcotráfico.
A vice-presidente Delcy Rodríguez, em sua conferência no último dia 9 de setembro, expôs esse ponto com uma abordagem sistemática: “Durante 27 anos consecutivos, a Venezuela não aparece nos relatórios da ONU como um país relevante em matéria de drogas ilícitas”. Ela mostrou que os registros oficiais colocam o Equador como o principal exportador de cocaína do mundo, uma afirmação apoiada pela própria Organização Mundial das Alfândegas, enquanto os Estados Unidos concentram 85% dos lucros globais do negócio ilícito em seu sistema financeiro.
O contraste entre os dados e o discurso político revela um padrão de longa data. Quando a realidade não coincide com a narrativa, o mapa é reescrito para sustentar a ficção. O New York Times, ao reproduzir sem adornos os números oficiais da DEA e da ONUDC, acabou mostrando que a ofensiva militar no Caribe não se sustenta em fundamentos técnicos, mas em uma construção narrativa que busca criminalizar o Estado venezuelano.
O mito do fentanil
O segundo grande ponto confirmado pelo New York Times é também o mais revelador na narrativa recente de Washington: a Venezuela não tem nenhuma ligação com o fentanil. Os dados oficiais do próprio governo dos Estados Unidos, reunidos no Relatório Internacional de Estratégia de Controle de Narcóticos (INCSR 2025) do Departamento de Estado e nos relatórios da DEA, estabelecem que toda a produção ilícita dessa substância provém de laboratórios instalados no México, onde é sintetizada com precursores químicos importados da China e de outras nações asiáticas.
O documento indica que a Venezuela não figura como país produtor, nem como zona de trânsito, nem como mercado relevante na cadeia do fentanil. A droga que alimenta a crise de overdose nos Estados Unidos tem um circuito fechado que envolve a fabricação no México, o transporte terrestre até a fronteira norte e a distribuição interna por redes do crime organizado americano.
Essa estrutura explica por que os ataques militares contra pequenas embarcações no Caribe carecem de lógica operacional. O fentanil é transportado em quantidades reduzidas e de alto valor, muitas vezes em comprimidos ou pó, o que facilita seu transporte terrestre ou por correio. Não requer barcos, rotas marítimas longas ou infraestruturas logísticas caras. Seu tráfico, na verdade, é projetado para evitar a detecção em massa, não para encher barcos com cargas visíveis por drones ou radares.
Nesse contexto, a afirmação de Donald Trump de que as embarcações destruídas na costa venezuelana transportavam “drogas suficientes para matar dezenas de milhares de americanos” se desmonta por si só. Nem o New York Times nem os relatórios técnicos da DEA oferecem evidências que liguem essas operações ao fentanil. Washington usa o tema do fentanil, uma crise doméstica que em 2024 causou mais de 80 mil mortes por overdose nos EUA, como um pretexto para pressão internacional, desviando a atenção de sua responsabilidade interna para um inimigo externo conveniente.
Da narrativa ao pretexto
A metáfora escolhida pela vice-presidente Delcy Rodríguez há um mês (“os Estados Unidos precisam ajustar o GPS”) adquire um significado literal incômodo à luz da reportagem do New York Times. Se os próprios mapas do sistema americano indicam que o tráfico de drogas se desloca pelo Pacífico e que a Venezuela não figura nem como produtora nem como corredor relevante, a pergunta se impõe por si só: por que os mísseis apontam para o Caribe?
A resposta está na política externa e na projeção de força. Desde a assinatura do decreto de Barack Obama em 2015, que classificou a Venezuela como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos Estados Unidos, o argumento das drogas tem sido um recurso recorrente para justificar pressões, sanções e exercícios militares. O que hoje se apresenta como uma guerra contra os cartéis venezuelanos continua a mesma lógica de intervenção sob outro nome.
Como destacou Rodríguez, o narcotráfico é o pretexto funcional de um roteiro geopolítico que busca deslegitimar o Estado venezuelano e corroer sua soberania sobre os recursos estratégicos. Nesse roteiro, os barcos destruídos e as imagens de operações no Caribe cumprem um papel simbólico: projetar uma ameaça inexistente para sustentar a ideia de um inimigo às portas do hemisfério.
Os relatórios técnicos do próprio sistema norte-americano e da ONU revelam outro panorama. A crise de overdose que assola os Estados Unidos é uma epidemia interna, alimentada por redes financeiras, farmacêuticas e logísticas que operam dentro de seu próprio território.
A vice-presidente foi categórica a esse respeito: “85% dos lucros do narcotráfico ficam no sistema financeiro norte-americano”. Esse número, apoiado por organismos internacionais, coloca o centro do problema não nos mares do Caribe, mas em Wall Street.
Assim, a reportagem do New York Times, ao expor a dissonância entre os dados oficiais e a retórica bélica, acaba validando, ainda que indiretamente, a tese venezuelana. Os ataques contra pequenas embarcações não buscam frear o tráfico de drogas, mas exercer pressão política sobre um país que resistiu a mais de duas décadas de cerco econômico, diplomático e midiático.





































