Catherine “Ryn” Hodes nunca mais viu o mundo da mesma forma depois de ter sido feita refém pela Frente Popular para a Libertação da Palestina (PFLP) quando voltava de Israel para os EUA, aos 13 anos de idade. A experiência despertou nela uma jornada para toda a vida, a tornando uma defensora apaixonada da libertação palestina.
Era 6 de setembro de 1970. Hodes viajava como menor desacompanhada, com sua irmã de 12 anos, Martha, em um voo para Nova York, quando um comando armado assumiu o controle do avião. Os passageiros – agora reféns – gritavam, rezavam e choravam. Martha e Ryn ficaram paralisadas.
“Havia comoção e confusão”, lembra Hodes. “Lembro que a tripulação começou a sair da cabine com as mãos para cima e meu vizinho de assento disse: ‘são os árabes, são os árabes, meu Deus, meu Deus!’”

“Houve um anúncio no alto-falante – uma voz feminina falando em inglês – dizendo: ‘somos os novos capitães do seu voo da TWA. Assumimos o comando deste voo. Vamos levá-los a um país amigo com pessoas amigáveis. Pedimos que coloquem as mãos na cabeça para não colocarem em risco a si mesmos ou a outros passageiros. Esperamos que compreendam’”.
Mais de 300 reféns de três voos sequestrados passaram seis dias angustiantes no deserto da Jordânia dentro de seus aviões antes de serem libertados. Eles tinham comida e água limitadas, mas suficientes, sem ar condicionado e acesso apenas aos banheiros do avião, sem água corrente.
Hodes estava com medo, mas se viu sentindo curiosidade e empatia pela vida dos sequestradores. Em uma entrevista ao Boston Phoenix um mês após o sequestro, ela disse que não tinha certeza se o que ouviu era propaganda, mas acreditava que muito do que eles disseram era verdade.
“Eles distribuíram envelopes marrons e dentro deles havia papéis impressos explicando toda a história de como, por 22 anos, eles foram expulsos de suas casas e se tornaram refugiados”, disse ela. “Antes do sequestro acontecer, eu tinha ouvido um lado da história. E quando o sequestro aconteceu, comecei a ouvir o outro lado da história. Não estou dizendo que sei quem está certo ou errado, mas isso me deu muito o que pensar.”
“Meus sentimentos em relação aos palestinos são de simpatia.”
Embora ela chore ao se lembrar disso hoje, aos 68 anos, ela ainda tem compaixão por aqueles que fizeram isso.
“Eles decidiram que essa era a única maneira de serem ouvidos”, diz Hodes.
Os sequestradores conseguiram uma corda para as crianças pularem e trouxeram uma caixa de Fanta laranja para dentro do avião. Uma mulher, uma das líderes do comando, brincou com as crianças. Ryn e Martha disseram a eles quais remédios tomavam para asma e, uma hora depois, eles trouxeram exatamente esses remédios. Na época, Ryn disse à imprensa: “Eles poderiam ter feito qualquer coisa conosco. Fizeram tudo o que podiam por nós e isso ganhou meu respeito”.
Os sequestradores disseram aos reféns que suas próprias famílias estavam morando em barracas e não tinham comida suficiente – e que estavam ficando sem comida para dar o que tinham aos reféns.
Anos mais tarde, ela descobriu que o verdadeiro perigo vinha de outro lugar.
“Nixon e Kissinger estavam falando em intervir agressivamente, o que teria matado todos nós”, diz ela. “Eu não corria perigo naquele momento por parte dos militantes. É claro que eu achava que poderia estar. Eu tinha visto dinamite conectada ao avião. Eles estavam fortemente armados. Então, é claro, não havia motivo para eu não estar apavorada, mas o risco real vinha de Nixon e Kissinger. Acho que foi o secretário de Defesa Melvin Laird quem disse que não era uma boa ideia. Mas se eles tivessem conseguido o que queriam, eu não estaria aqui.”
Quando Hodes voltou para casa, em Nova York, seus pais a encorajaram a não falar sobre a experiência, a tirar isso da cabeça – e ela o fez. Durante anos, ela não falou sobre o incidente, mas os pensamentos sobre a causa palestina continuaram surgindo.
Quando ela expressou simpatia pela situação dos palestinos, as pessoas disseram que ela havia sofrido lavagem cerebral, que era síndrome de Estocolmo, que era propaganda.
Mas, à medida que lia mais livros de estudiosos antissionistas e conversava com ativistas antissionistas, ela percebeu que, embora as ações dos sequestradores fossem extremas, suas opiniões não eram. Milhões de pessoas em todo o mundo também acreditavam em uma Palestina livre, e ela decidiu que concordava com isso.
Ela nunca tinha ouvido falar da Palestina antes de 1970.
“O sionismo era apenas parte do ar que você respirava”, lembra Hodes. “Ouvi dizer que os judeus foram para esse deserto desabitado e construíram esse país que agora é a pátria dos judeus. Nunca ouvi falar dos palestinos e das aldeias que tinham nomes, agricultura e tribos. Nunca ouvi dizer que palestinos, judeus, muçulmanos e drusos viviam nessa área com uma espécie de indigenismo compartilhado. Quando lembro dessa maneira de pensar, sinto muita tristeza, indignação e raiva. É muito triste, porque não era assim. Descobrir que essa fantasia de um lugar não era vazia e que havia pessoas lá que não tinham nada a ver com a perseguição que sofremos como judeus europeus, e descobrir que suas aldeias estavam sendo destruídas e aniquiladas, e que eles não tinham para onde ir… Muitas dessas coisas, a primeira vez que soube foi pelos palestinos que nos sequestraram.”
Hodes cresceu em meio à cultura judaica em Nova Iorque, embora não fosse religiosa. Não teve um Bat Mitzvah nem frequentava regularmente o templo, o Sabbath ou os seders, mas identificava-se fortemente como judia e era um aspecto importante para ela fazer parte da comunidade judaica.
Quando ela tinha oito ou nove anos, seus pais se divorciaram e sua mãe se casou novamente com um israelense e se mudou para Tel Aviv. Ryn e Martha ficaram em Nova York com o pai e começaram a passar todos os verões em Israel com a mãe e o padrasto, voando de um lado para outro sem acompanhantes. Ela experimentou Israel como um lugar com praias, arte, cinemas e danças folclóricas em praça pública.
Embora estivesse ciente da existência de abrigos antiaéreos e postos de controle, eles não a preocupavam, nem faziam-na questionar por que estavam lá. Ela tinha uma noção geral da Guerra dos Seis Dias, em 1967, e via os tanques e caminhões destruídos à beira da estrada. Ela entendia que os “árabes”, em geral, eram inimigos.
Depois que aprendeu sobre a Palestina por meio de sua experiência como refém, ela passou a questionar cada vez mais o sionismo. Não fazia sentido para ela que a resposta ao Holocausto fosse exilar os palestinos de suas terras, que não tinham nada a ver com isso, ou que os judeus precisassem de um pedaço de terra no mundo para estarem seguros, quando deveriam estar seguros em qualquer lugar do mundo. O que antes era um fato consumado não fazia mais sentido.
Quando adulta, ela começou a se identificar como uma antissionista pela libertação do povo palestino, uma causa pela qual é apaixonada até hoje. Hodes cria arte multimídia e a vende para beneficiar a UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo) e a Middle East Children’s Alliance para ajudar Gaza.
Embora ainda enfrente resistência dos sionistas, que acreditam que suas convicções são resultado de lavagem cerebral, Hodes analisa a experiência de uma perspectiva mais ampla.
Ela tem compaixão pelos reféns do Hamas – assim como pelas famílias deles, pensando no que seus pais passaram há 55 anos –, mas sua principal preocupação são os reféns de Israel.
“Eu penso em Gaza como uma situação de reféns”, diz ela. “Eu penso nos milhares de palestinos mantidos como reféns pelas políticas de Israel desde a Nakba.”
“Quando você compara o que aconteceu comigo com o que Israel faz em termos de suas políticas em relação aos palestinos… Me diga quem é o verdadeiro agressor, quem é o verdadeiro sequestrador.”


































