A reunião entre Trump e Xi Jinping, realizada em 30 de outubro de 2025, em Busan, Coreia do Sul, pode ter representado um alívio temporário na guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. No entanto, a menos que vejamos os detalhes do acordo, é difícil avaliar se se trata de uma trégua temporária ou do início de uma verdadeira aproximação entre as duas nações. Ainda não há um veredito a esse respeito e esperaremos para entender melhor o que realmente foi alcançado em Busan.
O tema candente desde o início do segundo mandato presidencial de Trump tem sido sua guerra tarifária, não apenas com a China, mas com o mundo inteiro. No lugar de políticas comerciais nas quais as tarifas – direitos de importação e exportação – desempenham um papel, as tarifas se tornaram o motor da política externa dos Estados Unidos, para não dizer sua forma de envolvimento político, econômico e tecnológico com o mundo em geral. Não é que sua mão de ferro, o exército americano, esteja oculta da vista. No entanto, Trump parece se concentrar mais estreitamente em duas regiões. Por um lado, o apoio a Israel na Ásia Ocidental, e por outro o retorno à doutrina Monroe, na qual se reivindica a América Latina e o Caribe como “esfera de influência” dos Estados Unidos.
Os sonhos de uma nova ordem mundial “baseada em normas” e o sistema da Organização Mundial do Comércio (OMC) lançado com grande alarde em 1995 parecem ter desaparecido com Trump. Suas políticas claramente transformaram as tarifas em uma arma e representam um retorno às normas de controle de exportações da Guerra Fria, que eram dirigidas principalmente contra a União Soviética, mas também incluíam países como a Índia. Essas normas de controle de exportações eram conhecidas como Normas do Comitê de Coordenação para o Controle Multilateral de Exportações (COCOM) e, após a queda da União Soviética, passaram a ser chamadas de Acordo de Wassenaar. O regime de exportação e importação da OMC, lançado em 1995, supostamente como parte da ordem mundial “baseada em normas”, teve uma vida muito curta. Todo o seu processo de resolução de disputas está agora suspenso, uma vez que os Estados Unidos sabotaram efetivamente seu órgão superior, o Tribunal de Apelação da OMC. Os Estados Unidos se recusaram a aceitar qualquer nomeação de novos membros para esse órgão e, com a aposentadoria dos membros existentes, deixaram o órgão sem quórum para qualquer tribunal. Sem esse órgão superior, todas as disputas comerciais na OMC terminam sem solução, que é onde nos encontramos agora.
O que diferencia este regime do anterior regime de controle tecnológico – o COCOM e o Acordo de Wassenaar – é que este é uma política totalmente elaborada nos Estados Unidos. Nem mesmo seus aliados têm voz: eles têm que aceitar tudo o que Trump decreta! Não é de se admirar que a UE e seus possíveis parceiros na Europa tenham demonstrado pouca firmeza, curvando-se diante do imperador Trump e aceitando qualquer política que ele decrete. Para o mundo, o regime comercial se tornou um lugar muito mais perigoso. No mundo de Trump, as regras comerciais significam, essencialmente, o fato de que não há regras, exceto aquelas ditadas no dia em questão pelo governo dos Estados Unidos, ou seja, pelo presidente Trump.
Enquanto a mídia mundial se concentrou nas amplas restrições que a China impôs às suas exportações de terras raras e no perigo que isso representa para a cadeia de abastecimento mundial, pouco se escreveu sobre as normas de controle de exportações que o Departamento de Comércio dos Estados Unidos publicou em 29 de setembro deste ano, antes das restrições à exportação de terras raras da China. A declaração dos Estados Unidos de 29 de setembro ampliou o número de empresas chinesas incluídas na lista de controle de exportações dos Estados Unidos de 1.3 mil para mais de 20 mil. Isso representou um aumento de 15 vezes no número de empresas cujas exportações para os Estados Unidos devem cumprir novas restrições.
Isso é apenas a ponta do iceberg. Em um artigo publicado no Peterson Institute for International Economics (PIIE), Martin Chorzempa escreve (27 de outubro de 2025):
“Qualquer empresa americana que exporte até mesmo uma única semente de soja para a China deve realizar uma longa investigação corporativa para acompanhar a complexa rede da cadeia de propriedade completa dos clientes chineses e evitar assim o risco de ser sancionada com multas ou até mesmo penas de prisão… A regra dos 50% pode parecer um pequeno ajuste técnico, mas seu impacto, especialmente na China, será imenso.”
Não discutirei se as restrições à exportação dos Estados Unidos e a resposta chinesa foram equivalentes ou recíprocas. Basta dizer que tanto a Ordem de 29 de setembro dos Estados Unidos quanto as restrições chinesas às terras raras significam, na prática, que as cadeias de abastecimento globais enfrentam um perigo iminente de separação e fragmentação em todo o mundo. Estamos assistindo oficialmente ao fim do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio (GATT) e do subsequente sistema comercial mundial liderado pela OMC, baseado em um conjunto de normas comuns que foram aceitas por quase todos os países. Embora privilegiasse determinados países, em particular os ocidentais – os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) –, pelo menos havia um conjunto de normas comuns que quase todos os países aceitaram cumprir.
Com a ordem dos Estados Unidos de 29 de setembro e agora as restrições à exportação de terras raras da China, cada país terá que redesenhar as cadeias de abastecimento globais para que as entidades que comercializam com um bloco comercial não o façam com o outro. Voltamos aos dias em que as economias do Ocidente e dos países socialistas estavam praticamente separadas, e o resto do mundo tinha que percorrer um caminho difícil para lidar com ambos.
A diferença entre o regime COCOM de antigamente e o de hoje – e esta é uma diferença enorme – é que a complexidade de cada produto aumentou significativamente. Os produtos de hoje, por exemplo, um automóvel, têm muito mais componentes discretos do que no passado. Isso também significa que a complexidade de suas cadeias de abastecimento é muito maior do que era naquela época.
Vejamos a complexidade, por exemplo, do Ford Modelo T, o primeiro automóvel produzido em série. O seu motor de combustão interna, o coração do automóvel, tinha cerca de 100 peças móveis. Hoje em dia, mesmo um automóvel não elétrico equivalente tem pelo menos entre 1000 e 2000 peças móveis, o que representa um aumento de 10 a 20 vezes. Mesmo nos veículos elétricos (VE), embora o motor do automóvel – ou seja, o próprio motor elétrico – tenha menos peças móveis, a bateria e sua cadeia de abastecimento são muito mais complexas do que a cadeia de abastecimento de combustível de um automóvel a diesel ou a gasolina. Mesmo em um carro a gasolina ou diesel de hoje, o custo dos conjuntos eletrônicos feitos com chips representa aproximadamente 40-50% do custo do carro.
A dissociação dessas complexas cadeias de abastecimento que atualmente fazem parte de qualquer produto importante é uma tarefa muito mais difícil do que os Estados Unidos parecem crer. Isso não se deve à complexidade do sistema comercial, mas fundamentalmente ao aumento da complexidade de produção de qualquer produto de consumo, à complexidade de sua fabricação e, portanto, à complexidade de suas cadeias de abastecimento. É essa complexidade da produção e da cadeia de abastecimento que torna quase impossível a separação da economia mundial em blocos autárquicos, cada um com suas cadeias de abastecimento independentes e fisicamente separadas. Por mais que a administração Trump queira acreditar, não existe um caminho de “volta ao futuro” para o mundo atual.
Para ilustrar isso, vamos dar uma rápida olhada em duas indústrias críticas e suas respectivas cadeias de abastecimento. O país que controla os gargalos ou pontos críticos dessas cadeias de abastecimento pode exercer um controle efetivo sobre as próprias cadeias de abastecimento. Na fase atual da guerra tecnológica e de cadeias de abastecimento entre os Estados Unidos e a China, vejamos o sistema de produção de terras raras, já que tratamos frequentemente da guerra dos chips.
Uma parte significativa da mídia acredita ingenuamente que o monopólio das terras raras significa simplesmente extraí-las, ou seja, simplesmente retirá-las da terra. O que eles parecem não saber ou se recusam a compreender é que o controle tecnológico que a China construiu consiste em concentrar o mineral, separar os minerais de terras raras propriamente ditos, uma vez que se encontram no mineral em baixa concentração, muitas vezes misturados até mesmo com substâncias radioativas, como o tório nas areias de monacita de Kerala. Por fim, algumas dessas terras raras são usadas nos ímãs permanentes, presentes em quase todos os motores e geradores de alta eficiência.
Mesmo quando os minerais que contêm terras raras são separados dos demais, a purificação desde a forma mineral até o produto final é novamente um processo complexo. Por exemplo, embora a Austrália extraia terras raras – é o quarto maior fornecedor de terras raras –, a etapa final da separação, em particular das terras raras pesadas, é realizada na China. De acordo com a Benchmark Mineral Intelligence, uma empresa de pesquisa sediada no Reino Unido, a China representa até 99% do processamento mundial de terras raras pesadas. De acordo com a Goldman Sachs, o Ocidente pode precisar de pelo menos uma década para diminuir o controle da China sobre a cadeia de abastecimento de terras raras.
As terras raras, em particular as pesadas, são necessárias para os ímãs permanentes. As terras raras não só entram na cadeia de abastecimento das energias renováveis, mas, como já comentamos anteriormente, também em toda uma série de armas e equipamentos militares: desde mísseis e drones até aviões, navios e submarinos. Em outras palavras, se o ecossistema de fabricação de chips, especificamente a litografia, é controlado pelos Estados Unidos e seus aliados, a China controla o ecossistema das terras raras, não apenas extraindo-as e refinando-as, mas também produzindo ímãs permanentes, que são usados em quase todos os principais produtos industriais e militares. Curiosamente, a máquina litográfica da ASML, peça-chave do controle americano sobre a cadeia de fornecimento da fabricação de chips, também precisa de uma grande quantidade de terras raras para seus lasers e de ímãs permanentes no sistema de foco do raio laser.
A única vantagem que os Estados Unidos têm hoje é a Defesa, renomeada acertadamente por Trump como “Departamento de Guerra”. Os gastos militares dos Estados Unidos são iguais aos dos nove países seguintes juntos. Portanto, sua esperança é aproveitar seu poder militar e transformá-lo em poder comercial e financeiro. Na sua perspectiva, a extorsão é a única carta que resta aos Estados Unidos, e é isso que está em jogo nas relações comerciais globais. Os Estados Unidos podem transformar seu poder militar e o dólar como moeda global em domínio econômico global? Essa é a essência da guerra comercial que Trump lançou contra o mundo inteiro, incluindo seus aliados.
Sim, é possível que vejamos uma trégua temporária entre os Estados Unidos e a China na atual batalha tarifária, já que a crise imediata pode ter passado com a reunião entre Trump e Xi na Coreia do Sul. Mas a guerra comercial mais ampla entre as duas economias continuará, a menos que os Estados Unidos estejam dispostos a retornar a um regime comercial global. No momento, isso parece improvável, já que destruir o sistema comercial mundial – a OMC – foi uma política bipartidária, tanto de Trump quanto de Biden.
(*) Tradução de Raul Chiliani



































