Com a aproximação das eleições legislativas e presidenciais do próximo ano, a Colômbia sofre a maior investida contra o presidente Gustavo Petro e suas políticas progressistas por parte do governo de Donald Trump. Um primeiro antecedente do atual conflito foi a recusa do governo de Petro em receber dois aviões com migrantes deportados pelos Estados Unidos em condições que a Colômbia considerava indignas, violando seus direitos humanos, o que originou uma primeira confrontação diplomática logo após a posse de Trump, em janeiro de 2025. As tensões continuaram durante todo o ano e, mais recentemente, Petro denunciou uma tentativa de golpe de Estado promovida por seu ex-ministro das Relações Exteriores, Álvaro Leyva, com o apoio de políticos de direita colombianos, narcotraficantes e congressistas republicanos da Flórida no Congresso dos Estados Unidos muito próximos ao secretário de Estado, Marco Rubio.
O conflito continuou aumentando com a campanha norte-americana de bombardeios com mísseis contra lanchas que navegam pelo Caribe, assassinando seus ocupantes e acusando-os, sem provas, de transportar drogas. Em um de seus discursos, Petro lembrou a Trump que os grandes carregamentos de cocaína não saem em barcos das praias do Caribe, mas em contêineres carregados nos grandes portos, principalmente do Pacífico colombiano e do Equador, e que os assassinatos de cidadãos com mísseis, mesmo que esses barcos transportassem drogas, devem ser considerados execuções extrajudiciais puníveis pela legislação internacional.
Em um tom cada vez mais belicista, Trump se referiu a Petro como “líder do narcotráfico que incentiva a produção em massa de drogas”, uma acusação que, por sua improbabilidade, causa espanto e até riso entre a população da Colômbia e nas chancelarias de outros países que conhecem os meandros da política colombiana.
No plano regional, o conflito se desenvolve por etapas. O primeiro objetivo do governo de Donald Trump é hostilizar o governo da Venezuela com uma campanha que combina propaganda política com intimidação armada. A fantasiosa invenção do “Cartel dos Sóis”, uma suposta organização de narcotraficantes promovida por altos funcionários do governo de Nicolás Maduro, segue o roteiro escrito pelas agências de inteligência americanas para criar um casus belli contra Caracas.
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O presidente Donald Trump classificou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, como o líder dessa suposta rede de narcotráfico que estaria incrustada na burocracia estatal. Após essa primeira definição de inimizade, começaram os bombardeios com mísseis de aeronaves americanas contra pequenas embarcações que circulavam pelo mar do Caribe.
Segundo a versão de Washington, seriam barcos de narcotraficantes que traficavam cocaína, mas não há provas de que tenha sido localizada qualquer carga de droga após o afundamento de 14 embarcações e o assassinato dos 57 civis que as tripulavam. Houve sobreviventes em apenas uma das embarcações atacadas e, segundo o presidente da Colômbia, um desses ataques foi dirigido contra um cidadão colombiano, um pescador de Santa Marta. Gustavo Petro afirmou ainda que a principal motivação para os Estados Unidos empreenderem uma guerra colonialista nessa região do Caribe não é o tráfico de drogas, mas a ambição pelo petróleo venezuelano.
Além disso, Donald Trump descobriu que a Colômbia não é um país dócil em relação à execução de seus planos imperiais, que “não se ajoelha”, e que Gustavo Petro é um líder rebelde, que interpreta sua própria partitura e não a música que Washington gostaria de ouvir. Além disso, ele tem sua própria agenda de política externa e, com seus discursos em fóruns internacionais, denuncia os genocídios perpetrados por governos fascistas e rejeita os crimes contra a Natureza e a Humanidade. Existe algo mais distante ideologicamente do que representa um ultradireitista e multimilionário conservador como Donald Trump?
A “descertificação” na luta contra as drogas
O governo de Donald Trump anunciou, no dia 15 de setembro, que “descertificava” a Colômbia por descumprimento de suas obrigações na luta antidrogas. Isso implica que não se certifica mais que o país combata o narcotráfico de maneira eficaz, para ser merecedor da confiança e do apoio econômico dos Estados Unidos. A “descertificação” implica a suspensão da colaboração dos Estados Unidos com a Colômbia na perseguição de crimes relacionados ao narcotráfico, desde a produção e o tráfico de drogas até a lavagem de dinheiro através do sistema bancário internacional.
O comunicado oficial da Casa Branca afirma: “O cultivo de coca e a produção de cocaína atingiram recordes históricos sob a presidência de Gustavo Petro, e suas tentativas fracassadas de chegar a acordos com os grupos narcoterroristas apenas exacerbaram a crise”. O comunicado lamenta que a erradicação forçada da coca tenha sido interrompida e questiona a lentidão dos programas de substituição de culturas, mas não menciona que as apreensões de drogas aumentaram e que, durante o governo de Petro, houve 700 extradições de narcotraficantes, principalmente para os Estados Unidos.
De acordo com o comunicado, Washington poderia reconsiderar sua decisão se a Colômbia adotasse “medidas mais agressivas para erradicar a coca e reduzir a produção e o tráfico de cocaína”. Petro replica que a política de erradicação forçada foi um fracasso, que em vez de atacar os camponeses é preciso conquistá-los, e demonstra com números o sucesso de sua política contra os grandes narcotraficantes: “O governo que represento é o que mais apreendeu cocaína no mundo”, afirmou ele em sua coletiva de imprensa em 23 de outubro.
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A retórica trumpista esconde alguns fatos fundamentais. Os cultivos de folha de coca não diminuíram, mas também não aumentaram no ritmo do governo anterior, de Iván Duque, um aliado dos Estados Unidos cuja campanha foi financiada com fundos do narcotráfico. A “descertificação” se baseia nos dados estatísticos da ONU sobre o aumento dos cultivos, que estimou que, em 2023, havia 253 mil hectares plantados com coca na Colômbia, um recorde histórico. Mas, ao identificar por satélite as áreas cultivadas, não se levou em conta que existem áreas com produtividade muito mais alta do que outras áreas, que foram abandonadas.
Gustavo Petro explicou em coletiva de imprensa, apoiando-se em uma ampla documentação cartográfica, que “dos 250.000 hectares totais, 80.000 estão abandonados” e há três anos não produzem folha de coca. Além disso, conseguiu-se implementar a política voluntária de substituição de cultivos em outros 22.000 hectares que estavam plantados com coca. Existem zonas como o Cañón del Micai – ocupado militarmente pelo exército “sem causar uma única morte” – que atingem uma produtividade muito mais alta do que outras regiões cultivadas com coca. Essa diferença de produtividade por hectare foi omitida nos cálculos realizados para o relatório das Nações Unidas, o que, segundo Petro, daria uma visão distorcida do mapa real da produção de coca na Colômbia.
Por outro lado, Petro defende os resultados positivos de sua estratégia de combate ao narcotráfico e lembra que foi ele quem denunciou no Congresso as alianças dos políticos da direita colombiana com o narcotráfico, o que chamou de “governança narcoparamilitar” – com impacto especial na região do Caribe –, que levou à prisão 35 senadores da República, um terço do total. E lembra ao presidente dos Estados Unidos que os verdadeiros narcotraficantes não vivem na Colômbia, mas principalmente perto dele, em Miami, e que contam com aliados na direita política colombiana e norte-americana.
Segundo alguns meios de comunicação, Petro teria reagido contra as medidas de Trump afirmando que “chegou a hora de retirar as bases militares americanas do país”, rompendo o acordo firmado em 2009 entre Álvaro Uribe e Barack Obama, pelo qual se cedia o uso compartilhado de sete bases para combater conjuntamente o narcotráfico e o terrorismo. Dessa forma, seria encerrada uma presença direta do Exército americano no país que durou várias décadas, uma cooperação militar que se reforçou desde o início do Plano Colômbia. Esse convite para a saída das tropas estrangeiras seria acompanhado pela integração das capacidades defensivas da Colômbia em uma nova configuração defensiva no âmbito sul-americano.
Cenários de conflito com os Estados Unidos
Gustavo Petro denunciou em várias ocasiões as políticas belicistas do governo de Donald Trump. Ele fez isso desde o início do genocídio em Gaza, há dois anos, e reiterou repetidamente sua condenação ao apoio dos Estados Unidos ao Estado sionista e ao exército de Israel. No último mês de setembro, ao participar de sua última Assembleia da ONU como presidente da Colômbia, ele elevou o tom de suas críticas e chegou a exortar nas ruas de Nova York, megafone em punho, que os soldados americanos desobedecessem às ordens do presidente que implicassem cometer crimes de guerra. Petro também convidou em seu discurso a formação de uma coalizão internacional (militar) como alternativa para frear o genocídio na Palestina e, de maneira mais geral, para defender os direitos da Humanidade. Essa ideia, que recebeu respostas favoráveis de alguns países e, em geral, indiferença, foi desativada após o cessar-fogo acordado para Gaza nas negociações entre Trump e o Hamas. Em retaliação às denúncias de Gustavo Petro, o Departamento de Estado revogou seu visto de entrada nos Estados Unidos, país que abriga a sede das Nações Unidas.
O congressista republicano Carlos Giménez, de origem cubana e representante da Flórida, acusou o presidente Petro de ter ameaçado “derrubar” o presidente Trump, após a entrevista transmitida pela UniNoticias, na qual Petro afirmou que Trump poderia ser “substituído de várias maneiras”, por meio de uma renúncia voluntária (inconcebível) ou por meio de processos institucionais vigentes na legislação americana. No entanto, o congressista ultraconservador expôs sua interpretação tendenciosa para afirmar: “Gustavo Petro decidiu se aliar às narcoditaduras terroristas da região. Por isso, será tratado como o pária que é e não terá embaixador nos Estados Unidos enquanto continuar colaborando com o Cartel dos Sóis”.
Donald Trump respondeu às críticas de Gustavo Petro com falsidades, calúnias e muita exaltação, e formulou uma clara ameaça, com seu estilo característico: “É melhor fechar os campos da morte imediatamente, ou os Estados Unidos os fecharão por conta própria e não o farão de forma amigável”, disse ele em uma mensagem em sua rede social.
A resposta de Petro coloca as coisas em seu devido contexto: “O senhor Trump fica irritado porque eu não apoio os norte-americanos com o Exército colombiano para ajudar a invadir a Venezuela. Não, senhor! Que colombiano idiota poderia pensar em ajudar a invadir o país onde estão seus primos, seus sobrinhos, seu povo colombiano, que soma quatro milhões de pessoas, para que sejam mortos como em Gaza?”
Os Estados Unidos suspenderam imediatamente a ajuda econômica à Colômbia, estimada em 240 milhões de dólares. Na imprensa econômica conservadora, também se antecipava o fantasma de um possível aumento das tarifas sobre as exportações colombianas. No entanto, o senador republicano Bernie Moreno – de origem colombiana – comunicou no dia 22 de outubro a decisão presidencial de não aumentar as tarifas: “Aumentar as tarifas só prejudica as pessoas do setor privado que estão do lado dos Estados Unidos”, disse ele. Em vez disso, foram acordadas medidas diretas e sanções contra Gustavo Petro, sua família e pessoas próximas. As represálias imediatas consistiram em incluir o presidente, sua esposa, um de seus filhos e seu ministro do Interior, Armando Benedetti, na chamada Lista Clinton, ou mais propriamente na lista da OFAC (Office of Foreign Assets Control), uma agência do Departamento do Tesouro que se encarrega de fazer cumprir as sanções econômicas impostas a países estrangeiros pelo governo dos Estados Unidos. A inclusão na Lista Clinton, além de seus efeitos práticos, implica uma estigmatização e um dano reputacional significativo, já que, na Colômbia, são criminosos ligados ao narcotráfico e à lavagem de dinheiro que costumam ser incluídos nela.
Petro respondeu a essa sanção injustificada em suas redes sociais: “O que o Tesouro dos Estados Unidos está fazendo é uma arbitrariedade própria de um regime de opressão”, afirmou. Na prática, isso significa que os bancos colombianos podem bloquear contas ou cartões dos clientes afetados e até mesmo recusar a abertura de uma conta ao presidente da República por medo de represálias do sistema financeiro global. A entidade patronal Asobancaria confirmou que os bancos devem cumprir as “normas internacionais” da OFAC e que esse cumprimento não é opcional, mas obrigatório. De fato, o ministro do Interior anunciou consternado, poucos dias depois, que seus cartões de crédito haviam sido bloqueados.
A inclusão do presidente colombiano e seus familiares nessa lista é uma intervenção política direta do governo dos Estados Unidos na disputa eleitoral e política de 2026. A anunciada suspensão da ajuda americana à Colômbia seria temporária, até as eleições de 2026, e sua retomada ficaria condicionada à vitória de um candidato favorável aos interesses de Washington. No entanto, o governo colombiano relativizou a importância dessa “ajuda” externa, uma vez que ela é destinada a empresas e entidades americanas (principalmente a USAID), sem que o Estado colombiano intervenha em sua gestão ou distribuição.
Este conflito se desenvolve em um ambiente de confronto que se estende a toda a política internacional belicista do presidente americano. Petro foi o primeiro mandatário a condenar Donald Trump por sua cumplicidade com Benjamin Netanyahu no genocídio do povo palestino. As tensões foram crescendo como consequência dos bombardeios americanos com mísseis a barcos que navegam em águas internacionais do mar do Caribe, em sua maioria de origem venezuelana; embora também tenha sido relatado o desaparecimento de um pescador de Santa Marta após o bombardeio de um barco, conforme denunciou Petro.
A ofensiva retórica lançada pelo conservadorismo americano contra o mandatário colombiano é uma manobra tão grosseira que só pode prosperar entre seus próprios adeptos, porque carece de toda lógica e veracidade. Na verdade, Petro foi o presidente que obteve maiores sucessos na luta contra o narcotráfico, precisamente por ter abandonado as velhas e inúteis estratégias de erradicação forçada. De fato, durante os três primeiros anos do governo de Gustavo Petro, foram apreendidas quase 2,5 mil toneladas de cocaína, 65% a mais do que durante os quatro anos do governo de Iván Duque. Na Marcha pela Paz, Soberania e Democracia realizada em Bogotá em 24 de outubro de 2025, Gustavo Petro apontou os grandes cartéis de drogas como responsáveis diretos pelo aumento da tensão: “A Junta do Narcotráfico quer que as relações entre os Estados Unidos e a Colômbia sejam rompidas. E está conseguindo”.
Fortalecer as reformas do governo da mudança
Apesar do distanciamento geopolítico da Colômbia em relação aos Estados Unidos, o país continua avançando internamente em sua transformação política. O discurso de Petro durante a Marcha pela Paz concluiu com um apelo ao povo colombiano para se envolver na Assembleia Constituinte, que ele mesmo convocou naquele momento, para defender e consolidar as reformas sociais e políticas impulsionadas pelo governo do Pacto Histórico (PH) e sistematicamente boicotadas pela oposição.
Nestes mesmos dias, em meio às agressões e ameaças dos Estados Unidos, a sociedade colombiana deu um exemplo de vitalidade e empoderamento em condições adversas com a consulta interna para eleger o candidato à presidência pelo Pacto Histórico, com uma participação total de 2.646.083 eleitores. A eleição foi vencida pelo senador Iván Cepeda (65% dos votos), um ativista dos direitos humanos cuja trajetória representa o oposto da velha política uribista ligada ao narcoparamilitarismo. Essa expressão de democracia interna dentro da formação esquerdista permitiu consolidar as bases do projeto político do PH, demonstrando uma resposta vigorosa da cidadania, apesar das pressões externas.
Enquanto isso, o governo de Gustavo Petro mantém, ainda com dificuldades, os diálogos de paz abertos com as guerrilhas e os grupos paramilitares, após ter chegado a acordos de cessar-fogo e desmobilização de alguns setores até agora minoritários, mas sem desistir de seu empenho em esgotar até o último dia de sua presidência no caminho da Paz Total. Um exemplo recente foi a realização, no Catar, com a mediação do Estado do Catar, de uma primeira rodada de diálogos com a maior organização narcoparamilitar da Colômbia, o Clã do Golfo, agora rebatizado como Exército Gaitanista da Colômbia. De acordo com o comunicado oficial do Ministério das Relações Exteriores do Catar, “as partes concordaram em estabelecer uma mesa de diálogo em Doha e continuar o processo de negociação”. Ao mesmo tempo, o presidente Petro afirmou que voltaria a manter negociações com a principal guerrilha, o ELN, superando o atual momento de paralisia desse processo de paz.
A favor de Petro pesam também os resultados socioeconômicos de sua gestão. A economia colombiana vem crescendo acima da média dos países vizinhos. O desemprego foi reduzido a mínimas históricas, apesar das reformas trabalhistas que supostamente causariam um efeito adverso. Com sua nova matriz energética, a Colômbia limitou a extração e o consumo de carvão e combustíveis fósseis, impulsionando a geração de energias limpas. A produção de alimentos aumentou, aproveitando o potencial agrícola do país e requalificando terras da pecuária para a agricultura. E manteve-se uma cotação forte do peso colombiano e uma inflação relativamente baixa em relação a períodos anteriores. O impulso econômico dado ao país foi tão forte que, segundo analistas financeiros, a bolsa de valores atingiu recordes e seria a mais valorizada globalmente, tanto neste ano quanto nos últimos três anos.
É claro que aumentar o valor das ações das grandes empresas não é um objetivo do plano econômico do governo Petro, que se concentra na economia real e no fortalecimento do Estado social de direito, melhorando a vida dos setores populares. Mas é uma prova irrefutável de que a economia prosperou quando até mesmo os mais ricos tiveram melhores resultados em seus negócios.
A Colômbia está a caminho de uma profunda transformação que até agora só começou. Possivelmente, outro governo do Pacto Histórico, com maior representação no Congresso e após uma convenção constituinte que formalize as reformas básicas, as já aprovadas e as bloqueadas pela oposição, seja um horizonte que entre em colisão com as políticas da oposição de direita aliada a Donald Trump.
Em seu discurso apaixonado durante a Marcha pela Paz, Soberania e Democracia, Petro voltou seu olhar para o futuro e projetou diante de seus entusiásticos seguidores, reunidos em massa na Praça Bolívar, a ideia de “um futuro democrático ainda mais amplo do que este governo pôde fazer, porque estamos na metade do caminho e não podemos voltar atrás”. A enorme participação popular e o resultado encorajador da pesquisa para eleger o candidato do Pacto Histórico parecem lhe dar razão.




































