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Colômbia: crônica de uma intervenção anunciada

A Colômbia sai do script e Washington reage. Transição energética, nova política de drogas e autonomia viram fronteiras intoleráveis para Trump

Sahasranshu Dash
Gustavo Petro durante uma aparição na ONU em setembro de 2022. (Foto: ONU)
Gustavo Petro durante uma aparição na ONU em setembro de 2022. (Foto: ONU)

“A única diferença entre a morte e as más notícias é que a morte não piora”. Em Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, o horror não reside no assassinato, mas em seu anúncio. A violência é antecipada, comentada, normalizada e lentamente transformada em destino. Todos sabem o que vai acontecer; ninguém o impede. Quando ocorre, já não parece uma decisão, mas o cumprimento de um roteiro coletivamente aceito.

Essa lógica estrutura cada vez mais a forma como o poder dos Estados Unidos é exercido sobre a América Latina sob Donald Trump. A intervenção já não precisa se materializar para ser eficaz. Funciona como ameaça, como ensaio, como condição prévia. Descertificações, sanções, retirada de vistos, ameaças tarifárias, acusações públicas de criminalidade e referências explícitas à força militar tornam-se instrumentos de disciplina. A violência não precisa ser executada se seu anúncio já ordena o comportamento. A política externa torna-se assim uma crônica escrita de antemão.

É nesse contexto que a Colômbia, sob o presidente Gustavo Petro, se torna intolerável para o imaginário conservador de Washington. Petro não é simplesmente um governante de esquerda com um programa redistributivo; ele representa uma negação estrutural de três pilares que, durante décadas, sustentaram a influência dos Estados Unidos na região: o extrativismo fóssil, a proibição militarizada das drogas e a subordinação geopolítica. A Colômbia não é um caso marginal nem um ator irrelevante. Por mais de meio século, foi o aliado modelo dos Estados Unidos na América do Sul, o laboratório da contrainsurgência, o maior receptor de ajuda militar na região e o parceiro mais disciplinado na guerra global contra as drogas. Se a Colômbia sai do roteiro, o próprio roteiro perde autoridade.

A base do projeto de Petro é econômica, mas não no sentido tecnocrático habitual. Os combustíveis fósseis representam mais da metade das exportações colombianas e cerca de metade do investimento estrangeiro direto. A Colômbia é um dos maiores exportadores de carvão do mundo, com mais de 90% de sua produção destinada ao exterior, e depende do petróleo para financiar boa parte do Estado. No entanto, a extração não só gerou receitas: organizou a violência. As zonas carboníferas e petrolíferas coincidem historicamente com territórios de deslocamento forçado, controle paramilitar e economias armadas. A riqueza se concentrou; a guerra se territorializou.

A decisão de Petro de suspender novos contratos de exploração de petróleo, gás e carvão em 2022 – respeitando os contratos existentes – não foi um gesto ambientalista simbólico, mas uma ruptura planejada com esse modelo. O fracking foi explicitamente proibido. Em uma indústria que sobrevive substituindo permanentemente reservas, encerrar a exploração equivale a aceitar o declínio. Petro não prometeu uma transição indolor; prometeu administrar o fim de um ciclo antes que o mercado o impusesse de forma caótica.

As consequências foram imediatas e visíveis. Sem novas explorações, diferentes análises estimam que a produção petrolífera colombiana poderá cair fortemente no início da próxima década. A Ecopetrol, empresa estatal responsável por cerca de dois terços da produção nacional, poderá esgotar as reservas exploráveis até 2031. A perfuração foi reduzida, o investimento estrangeiro no setor caiu significativamente e a Exxon se retirou do país após o cancelamento dos projetos pilotos de fracking. Petro assumiu esses custos como o preço de sair de uma economia governada pela ilusão da perpetuidade extrativa.

As críticas trabalhistas são reais, mas incompletas. Os combustíveis fósseis não produzem apenas empregos; eles produzem disciplina política. Eles centralizam o capital, militarizam territórios e vinculam a política nacional a interesses externos. A transição energética de Petro não se baseia na substituição imediata do barril pelo painel fotovoltaico, mas na descentralização do poder. Em 2025, mais de trezentas comunidades energéticas funcionavam em territórios rurais, indígenas, afrocolombianos e pós-conflito, com centenas mais em planejamento. Em apenas três anos, a capacidade solar instalada no país multiplicou-se quase por dez. Não prometem riqueza rápida nem rendimentos extraordinários, mas redistribuem o poder, reduzem a dependência e quebram a lógica segundo a qual a energia só pode existir sob controle corporativo e militar.

A mesma lógica atravessa a política de drogas. Durante décadas, a Colômbia foi o palco central da guerra contra as drogas impulsionada pelos Estados Unidos, recebendo bilhões de dólares em ajuda militar, treinamento e armamento. No entanto, o resultado é eloquente: a Colômbia continua sendo o maior produtor mundial de coca, com aproximadamente 253 mil hectares cultivados, segundo estimativas das Nações Unidas. A erradicação em massa das drogas puniu os camponeses sem desmantelar as redes criminosas. A violência se deslocou, mas não desapareceu. Não é por acaso que essa história tenha sido transformada em entretenimento global em séries como Narcos, onde a caça aos chefões oferece uma narrativa de encerramento – a morte de Pablo Escobar, a queda de um cartel – enquanto a estrutura que produz o narcotráfico permanece intacta, repetindo-se temporada após temporada sob novos nomes.

Essa recusa em aceitar a culpa eterna explica a fúria de Donald Trump. Suas ameaças, insultos e advertências a Petro não respondem a indicadores técnicos, mas a uma lógica ideológica. Trump acusou publicamente a Colômbia de “fabricar cocaína”, advertiu que ela poderia ser “a próxima”, sugeriu que países ligados ao narcotráfico estão “sujeitos a ataques” e insinuou ações militares. Em 2025, seu governo descertificou os esforços antidrogas da Colômbia pela primeira vez desde 1997, ameaçou impor tarifas de até 50%, revogou o visto de Petro e aplicou sanções pessoais. Esses gestos funcionam menos como política pública e mais como lembretes de hierarquia.

O precedente venezuelano é fundamental. Trump normalizou a linguagem da “decapitação” política, da punição exemplar e da intervenção preventiva como ferramentas legítimas de ordem regional. Nesse contexto, a Colômbia aparece não apenas como um parceiro rebelde, mas como um aviso para outros. A ameaça não precisa ser executada: basta ser credível.

A Colômbia importa precisamente porque sempre obedeceu. Se até mesmo a Colômbia se permite questionar a extração, a guerra contra as drogas e a subordinação estratégica, o poder dos Estados Unidos deixa de parecer inevitável. Como García Márquez compreendeu, é aí que começa seu declínio: quando a violência deixa de parecer natural e se revela como uma escolha.

O final continua em aberto. Petro não pode ser reeleito. Setores da direita prometem reabrir licenças, autorizar o fracking, restaurar o alinhamento automático com Washington e reviver a erradicação em massa. A violência contra líderes ambientais continua. A transição é frágil, incompleta e disputada. Nada está garantido. Mas algo já mudou de forma irreversível: a Colômbia demonstrou que o extrativismo, a proibição e a subordinação não são leis naturais, mas acordos políticos sustentados pelo costume e pela força. A crônica está escrita. O desfecho ainda está em disputa.

(*) Tradução de Raul Chiliani

El Salto El Salto é um meio de comunicação social autogerido, horizontal e associativo espanhol.

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