Não é a primeira vez que o Exército alemão é afetado por um escândalo relacionado a condutas neonazistas. Desta vez, trata-se de um regimento de paraquedistas estacionado em Zweibrücken, no estado da Renânia-Palatinado, no sudoeste do país. Aparentemente, na unidade foram realizados rituais humilhantes, agressões sexuais e incidentes de caráter neonazista, incluindo saudações hitlerianas. Como sempre, esses fatos são classificados como “casos isolados”.
Entre as acusações que vieram à tona estão a agressão a um soldado na região genital, que exigiu uma intervenção cirúrgica, bem como o caso de um comandante que teria apontado sua arma carregada para o rosto de vários soldados. Os militares se saudavam através da expressão “Sierra Hotel” em vez de “Sieg Heil”. Aparentemente, eles também teriam celebrado uma “festa nazista” e usado insultos como “porca judia”. Um total de 55 soldados estão sob suspeita por comportamentos inadequados e crimes; nove deles já foram expulsos das Forças Armadas.
O comissário parlamentar para as Forças Armadas do Bundestag, Henning Otte, exigiu um endurecimento da supervisão e um exercício de comando mais consistente em todos os níveis. “O cumprimento dos princípios de liderança interna deve ser garantido e reforçado para preservar a plena capacidade operacional e a reputação da Bundeswehr [Forças Armadas] perante a opinião pública”, afirmou. Acrescentou ainda que “o extremismo e o sexismo não devem ter lugar na Bundeswehr. A capacidade operacional das tropas depende em grande medida da confiança mútua entre os camaradas”, declarou ao jornal Bild.
Ulrich Thoden, porta-voz de política de defesa do grupo parlamentar do partido de esquerda Die Linke no Bundestag, afirma que “os acontecimentos em Zweibrücken não são apenas chocantes, mas totalmente inaceitáveis” e lembra que tanto “o comissário parlamentar para as Forças Armadas, Otte, como anteriormente a sua antecessora Högl, bem como o ministro da Defesa, Pistorius, e, com isso, também o governo federal, estavam informados desde muito cedo, praticamente desde outubro de 2024”. O político, professor de profissão, não entende como “demorou tanto tempo para que se agisse no caso de Zweibrücken”.
Thoden enfatiza que, “de acordo com as reportagens do FAZ e Der Spiegel, não se pode mais falar apenas de ‘incidentes’, mas de um clima estrutural de extrema direita, com atos reiterados de caráter extremista, agressões sexualizadas e, além disso, consumo de drogas como a cocaína”. Ele considera que a magnitude do escândalo é considerável. Além disso, ele ressalta que “chama a atenção que esses excessos de extrema direita apareçam especialmente em unidades de elite da Bundeswehr”, por isso acredita que uma reestruturação é urgente. “Outro grande problema é que as pessoas afetadas pela violência sexualizada tenham que denunciá-la aos seus superiores”, sublinha Thoden, que reivindica a criação de um escritório de defesa independente para as pessoas afetadas por esse tipo de violência.
A verdade é que o Exército havia prometido no passado se reformar e ser mais rigoroso com os soldados de extrema direita. No entanto, com o chamado Zeitenwende – a ideia de que a Alemanha deve se preparar para a guerra, rearmar-se e recrutar centenas de milhares de pessoas –, os controles foram suavizados de facto. Por exemplo, os recrutas já não são obrigados a declarar se são membros do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), como foi revelado após um interrogatório parlamentar feito pela deputada do Die Linke, Martina Renner.
Não é por acaso que a nova direita alemã se formou em parte nas fileiras do Exército, o Bundeswehr. Um de seus principais referentes, o editor Götz Kubitschek, não só foi soldado, mas, segundo relatou em uma conversa com o jornalista Sebastian Friedrich, começou a ler as obras de seu principal referente ideológico, Armin Mohler, por recomendação de um superior. Além disso, na fundação do Exército da República Federal estavam presentes figuras de destaque da direita cuja orientação ideológica só veio a ser revelada após sua aposentadoria.
Trata-se de um fenômeno que vai além do âmbito militar e ajuda a contextualizar o problema: o ex-chefe do Escritório Federal para a Proteção da Constituição – teoricamente encarregado de combater o extremismo –, Hans-Georg Maaßen, cofundou um partido à direita da CDU (União Democrata-Cristã) e participa regularmente de meios de comunicação ligados à extrema direita.
Esses escândalos devem ser vistos sob a ótica da mudança de época já anunciada pelo ex-chanceler social-democrata Olaf Scholz, a chamada Zeitenwende, ou mudança de tempos. Essa mudança de época consiste em um retorno ao militarismo no país que, no século XX, invadiu toda a Europa e realizou o holocausto judeu, bem como o assassinato de milhões de outras pessoas por motivos raciais, políticos ou simplesmente porque não eram consideradas úteis.
Não faz nem um século desde o fim desse grande massacre e a Alemanha agora quer ser a terceira potência militar mundial. Esses episódios trazem à memória da Europa os atos imperdoáveis que os bisavós alemães cometeram e, ao avaliar se, diante da suposta ameaça russa, é preferível uma Alemanha armada até os dentes, é preciso lembrar que, neste momento, o primeiro partido em intenção de voto é a extrema direita da Alternativa para a Alemanha (AfD).
(*) Tradução de Raul Chiliani







































