A maior escalada militar dos EUA na Ásia Ocidental desde a invasão do Iraque em 2003 não se deve ao desenvolvimento do programa nuclear do Irã. Trata-se de quem controla o petróleo, quem lucra com a guerra permanente e quem está desafiando a ordem econômica que mantém o imperialismo dos EUA no topo.
Marx observou em “O 18 Brumário” que, quando os dramas da história se desenrolam, devemos olhar além dos atores no palco e perguntar: a quais interesses de classe eles servem? Navios de guerra e caças stealth não são o fundamental. Eles são instrumentos. O fundamental são as forças de classe que os colocam em movimento.
Quem se beneficia
No dia 16 de janeiro, na cúpula “Estado da Energia Americana” do American Petroleum Institute, o consultor da indústria petrolífera Bob McNally, do Rapidan Energy Group – ex-consultor de energia de George W. Bush – disse aos executivos que o Irã é “a maior oportunidade” para a indústria. Uma guerra para derrubar o governo iraniano, disse ele, seria um “dia maravilhoso”. Essa não é uma observação casual. É um programa de classe declarado abertamente.
O Irã possui a segunda maior reserva de gás natural do mundo e uma das maiores reservas comprovadas de petróleo – e esses recursos permanecem em grande parte fora do controle das empresas ocidentais. Desde a revolução de 1979, o capital ocidental está bloqueado. As sanções, a diplomacia e o aumento do poderio militar dos EUA convergem para um único objetivo: abrir a economia do Irã para as empresas americanas e aliadas.
Os monopólios de armas têm seu próprio registro contábil. A Lockheed Martin, a RTX (antiga Raytheon) e a Northrop Grumman têm uma carteira combinada de encomendas superior a 540 bilhões de dólares. Quando Israel atacou instalações iranianas em junho passado, as ações das empresas de defesa na Wall Street dispararam instantaneamente. A guerra não é um risco para essas empresas. É o modelo de negócios.
Quando as forças americanas se posicionaram para um ataque em 18 de fevereiro, os preços futuros do petróleo subiram mais de 4%. Esse “prêmio de guerra” – cerca de 10 dólares por barril – funciona como uma transferência direta de riqueza dos consumidores de energia da classe trabalhadora para os acionistas da ExxonMobil e da Chevron.
Washington como instrumento
Marx escreveu que o Executivo do Estado moderno é um comitê para administrar os assuntos comuns de toda a burguesia. O consenso bipartidário nos EUA sobre o Irã prova esse ponto.
No dia 30 de janeiro, o Senado aprovou uma dotação de 839 bilhões de dólares para a defesa — 8,4 bilhões de dólares a mais do que o próprio Pentágono solicitou – por 71 votos a 29. Com outras fontes adicionadas, os gastos militares totais para o ano fiscal de 2026 se aproximam de 1 trilhão de dólares. Os democratas forneceram os votos necessários para a aprovação.
O secretário da Guerra que supervisiona esse aumento, Pete Hegseth, convidou o pastor Doug Wilson – que se autodenomina um “paleoconfederado”, defendeu escravistas cristãos e argumentou que as mulheres deveriam ser privadas do direito ao voto – para liderar um culto no auditório do Pentágono. O conteúdo ideológico do partido da guerra não é oculto: nacionalismo cristão racista fundido com poder militar, pregado no prédio onde os planos de ataque ao Irã são traçados.
Embora a liderança democrata frequentemente se apresente como um baluarte contra a agenda doméstica do atual governo, o consenso bipartidário sobre a política externa permanece praticamente intacto. Isso cria uma contradição difícil até mesmo para as vozes mais progressistas em Washington, que se veem operando dentro de uma estrutura que valida as premissas do império.
Quando a deputada Alexandria Ocasio-Cortez discursou na Conferência de Segurança de Munique em 13 de fevereiro, ela navegou por essa tensão, concentrando-se em uma política externa da “classe trabalhadora” e no “flagelo do autoritarismo”. No entanto, sua presença em uma conferência dedicada à segurança imperialista destaca a dificuldade de desafiar a concepção estratégica mais ampla. Suas observações não abordaram o histórico aumento militar atualmente direcionado ao Irã, nem mencionaram o bloqueio petrolífero crescente que está estrangulando Cuba.
A mesma gravidade institucional ficou evidente em seus comentários em Munique sobre a captura de Nicolás Maduro pelos EUA em 3 de janeiro. Embora tenha criticado corretamente a operação como um “ato de guerra” e um “precedente assustador”, ela adotou a narrativa do Departamento de Estado ao caracterizar Maduro como um “líder antidemocrático”. Ao criticar o estilo de intervenção dos EUA, mas aceitar sua justificativa, o debate permanece confinado à forma como o imperialismo deve ser gerenciado, em vez de se deve ser desmantelado.
Não se trata de uma questão de fracasso individual, mas de alinhamento de classe. Nas questões fundamentais da supremacia militar, do bloqueio aos Estados socialistas e da defesa do poder do dólar, os dois partidos funcionam como um único conselho de administração. Washington puxa até mesmo suas vozes mais progressistas para uma frente unificada.
O verdadeiro “crime” do Irã
Washington exige que o Irã descarte seu desenvolvimento de energia nuclear civil e capacidade de pesquisa, destrua seu sistema de defesa antimísseis e rompa laços com as forças de resistência palestinas, libanesas e aliadas. A palavra para isso é capitulação.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, ofereceu-se para negociar sobre enriquecimento e inspeções – a razão declarada para o confronto. Um alto funcionário dos EUA descartou as negociações de Genebra como “nada demais”. O vice-presidente JD Vance advertiu que “o presidente se reserva o direito de dizer quando achar que a diplomacia chegou ao seu fim natural”.
O “crime” do Irã, aos olhos do capital americano, é triplo: mantém uma economia nacional independente, fechada aos monopólios imperialistas do petróleo; apoia a resistência palestina e recusa o papel de Estado petrolífero complacente; e – o que impulsiona a urgência agora – está construindo estruturas econômicas que contornam o dólar.
Uma alternativa ao domínio do dólar
No dia 29 de janeiro, o Irã, a Rússia e a China assinaram um pacto estratégico trilateral. Superficialmente, trata-se de um acordo técnico envolvendo mecanismos comerciais em yuan e rublos, compartilhamento de inteligência e o Corredor de Transporte Norte-Sul. Em essência, é uma saída do sistema financeiro dos EUA.
Durante décadas, a influência de Washington na Ásia Ocidental baseou-se em mais do que apenas porta-aviões. Baseou-se no papel do dólar como moeda dominante e canal de compensação para o comércio de energia. Ao garantir que o petróleo seja precificado, segurado e depositado em moeda americana, o Tesouro mantém um “veto silencioso” sobre a vida econômica de qualquer nação. Isso não é apenas uma conveniência; é o mecanismo que permite aos EUA administrar um orçamento militar de 1 trilhão de dólares, enquanto transfere os custos para o resto do mundo.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, foi notavelmente franco em uma recente audiência no Congresso ao descrever o “sucesso” da política dos EUA: “O que podemos fazer no Tesouro, e o que temos feito, é criar uma escassez de dólares no país [Irã]”.
Uma queda “controlada” da moeda é uma forma de guerra que deixa os edifícios de pé, mas esvazia a vida das pessoas dentro deles. Quando o rial é desvalorizado por decreto de Washington, o poder de compra do salário de um trabalhador iraniano desaparece. Essa é a alternativa “pacífica” ao bombardeio – um estrangulamento sistêmico projetado para forçar uma economia soberana de volta à órbita imperialista.
O pacto trilateral é uma prova de conceito para uma alternativa. Ao direcionar mais comércio pelo Corredor Norte-Sul e liquidar mais transações fora do dólar, esses países estão construindo um circuito que Washington não pode desligar.
Essa é a verdadeira “ameaça” que a atual escalada militar busca enfrentar. Se o dólar for desacoplado dos fluxos de energia mundiais, os EUA perderão sua principal ferramenta de disciplina global. Para os interesses financeiros que orientam Washington, uma mudança na arquitetura do comércio global é mais perigosa do que qualquer míssil. Os navios de guerra no Golfo estão lá para garantir que o mundo continue negociando nos termos estabelecidos por Wall Street, ou não negocie.
Israel: a engrenagem, não o motor
Israel desempenha o papel que tem desempenhado desde sua fundação – o que o ex-secretário de Estado Alexander Haig chamou de “o maior porta-aviões americano do mundo que não pode ser afundado”. É um Estado colonialista financiado e armado pelos EUA que funciona como base avançada permanente de Washington. Israel pode elaborar listas de alvos e fornecer justificativas, mas a questão decisiva é o que o capital americano decide fazer. Israel fornece o pretexto e o parceiro operacional – não o motor estratégico.
Os governantes do Golfo estão pressionando no sentido contrário. O príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman disse ao presidente iraniano Masoud Pezeshkian que Riade não permitirá que seu espaço aéreo ou território seja usado para ataques ao Irã. Os Emirados Árabes Unidos emitiram uma declaração semelhante. Eles preferem lidar com um Irã sancionado do que apostar no colapso, no caos e nas suas repercussões.
Uma máquina de trilhões de dólares
O USS Gerald R. Ford foi redirecionado para se juntar ao USS Abraham Lincoln na região, transportando mais de 150 aviões de guerra entre eles. Estima-se que 50 mil soldados americanos estejam destacados em toda a região. O Pentágono está preparando não um ataque pontual, mas “operações sustentadas, com duração de semanas”. Os ataques de junho do ano passado registraram um número estimado de 1.190 mortos, de acordo com a Human Rights Activists e sua rede de voluntários médicos e locais.
De acordo com a Axios, um ex-alto oficial de inteligência dos EUA que assessora o governo Trump havia avaliado em 80% a 90% a probabilidade de ataques nas próximas semanas. A CNN informou no dia 18 de fevereiro que a Casa Branca foi informada de que os militares poderiam estar prontos para atacar até o fim de semana. Trump não havia dado a ordem — mas a maquinaria estava posicionado e o relógio estava correndo.
Cada F-35 implantado é uma fonte de receita para a Lockheed Martin. Cada bateria Patriot significa dinheiro nas contas da RTX. Cada Tomahawk carregado em um contratorpedeiro foi fabricado com fins lucrativos. O aumento da produção de armamento é tanto uma preparação para a guerra quanto um programa de estímulo para a indústria de armas, financiado pelo orçamento de trilhões de dólares aprovado por ambos os partidos.
(*) Tradução de Raul Chiliani






































