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Netanyahu finalmente consegue sua guerra contra o Irã

Pressões de Tel Aviv e cálculos eleitorais em Washington ajudam a explicar a escalada contra o Irã

Michael Arria
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, com o presidente dos EUA, Donald Trump, no aeroporto Ben Gurion, em Israel. (Foto: Amos Ben Gershom GPO / IsraelMFA / Flickr)
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, com o presidente dos EUA, Donald Trump, no aeroporto Ben Gurion, em Israel. (Foto: Amos Ben Gershom GPO / IsraelMFA / Flickr)

Vamos começar com algumas ressalvas.

É demasiado simplista sugerir que Israel foi a única razão motivadora para os EUA iniciarem uma guerra contra o Irã, ou que o país mais poderoso do planeta está de alguma forma sujeito às exigências de um primeiro-ministro israelense.

Trump sempre se apresentou como um crítico da guerra, e muitos acreditaram nisso, mas nunca houve muito fundamento para tal. Basta olhar para sua política externa desde que voltou à Casa Branca em janeiro. Seu governo realizou ataques ao Irã, Iêmen, Iraque, Somália, Nigéria, Venezuela e a barcos no Caribe.

Muitos na direita (e alguns na esquerda) acreditaram na retórica antiguerra, mas não há razão para acreditar que o presidente precise ser pressionado para apoiar uma campanha militar.

O New York Times chegou a relatar que o sequestro do líder venezuelano Nicolás Maduro aumentou a confiança de Trump em relação a um ataque ao Irã, e ele aludiu a essa operação várias vezes ao falar sobre a guerra atual.

Mas, dito isso, está bastante claro que os Estados Unidos responderam à pressão de Israel ao decidir atacar o Irã.

Durante décadas, Benjamin Netanyahu vem afirmando que o país está prestes a adquirir uma arma nuclear e deve ser impedido. Como primeiro-ministro, ele conseguiu praticamente tudo o que queria de todos os presidentes dos EUA, mas, até agora, eles ainda não haviam realizado seu maior desejo: uma guerra desestabilizadora que incapacitasse seus inimigos e lhe permitisse construir um “Grande Israel” em todo o Oriente Médio.

Após o início dos ataques, Netanyahu disse a um repórter que havia realizado seu sonho de bombardear o Irã graças a Trump. “Esta coalizão de forças nos permite fazer o que eu ansiava fazer há 40 anos”, declarou.

O papel de Israel em empurrar os Estados Unidos para a guerra não é uma teoria da conspiração. Neste momento, o envolvimento de Netanyahu está bem documentado.

Uma reportagem amplamente divulgada do New York Times revela que Trump havia reiniciado as negociações nucleares com o Irã, mas que Netanyahu “queria garantir que o novo esforço diplomático não prejudicasse” sua visão. A “marcha de Trump em direção à guerra cresceu inexoravelmente, alimentada por aliados como Netanyahu”.

“A decisão dos EUA de atacar o Irã foi uma vitória para Netanyahu, que vinha pressionando Trump há meses sobre a necessidade de atacar o que ele argumentava ser um regime enfraquecido”, observa o jornal. Durante uma reunião na propriedade de Trump em Mar-a-Lago, em dezembro, Netanyahu pediu a aprovação do presidente para que Israel atacasse os locais que abrigam mísseis do Irã nos próximos meses. Dois meses depois, ele conseguiu algo ainda melhor: um parceiro de pleno direito em uma guerra para derrubar a liderança iraniana.”

Fatos inconvenientes como esses ocasionalmente permeiam a grande mídia, mas é muito raro que autoridades eleitas revelem o segredo. Desta vez, as coisas foram diferentes, pois autoridades do governo e membros do Congresso estão admitindo abertamente que os EUA entraram em guerra por causa de Israel.

“Sabíamos que haveria uma ação israelense” contra o Irã, disse Marco Rubio a repórteres na segunda-feira. “Sabíamos que isso precipitaria um ataque contra as forças americanas… e sabíamos que, se não agíssemos preventivamente antes que eles lançassem esses ataques, sofreríamos mais baixas… E então estaríamos todos aqui respondendo perguntas sobre porquê sabíamos disso e não agimos”, continuou Rubio.

Então, os Estados Unidos não podiam impedir Israel de atacar o Irã, mesmo que a equipe de Trump soubesse que isso significaria a morte de soldados americanos?

Rubio posteriormente ofereceu uma espécie de correção, insistindo que a operação precisava acontecer de qualquer maneira, mas isso não impediu os republicanos de repetirem seu argumento original.

“Essa foi uma medida defensiva”, disse o presidente da Câmara, Mike Johnston (R-LA), aos repórteres. “Se Israel disparasse contra o Irã e tomasse medidas contra o Irã para destruir os mísseis, então [o Irã] teria retaliado imediatamente contra o pessoal e os bens dos EUA.”

“Israel enfrentava um risco existencial e estava preparado para atacar o Irã sozinho”, disse o senador Tom Cotton (R-AR) à Fox News. “Se isso acontecesse, era muito provável que o Irã atacasse nossas tropas. Isso pode responder à pergunta ‘por que agora?’”

Essa explicação também parece ter sido compartilhada por funcionários de Trump durante uma reunião secreta do Senado sobre os ataques.

“Esta ainda é uma guerra de escolha que foi reconhecida por outros, que foi ditada pelos objetivos e cronograma de Israel”, disse o senador Mark Warner (D-VA) aos repórteres após a reunião. “Não havia nenhuma ameaça iminente aos Estados Unidos por parte dos iranianos. Havia uma ameaça a Israel. Se equipararmos uma ameaça a Israel como equivalente a uma ameaça iminente aos EUA, então estamos em território desconhecido.”

Esses acontecimentos ocorrem em meio a uma batalha cada vez mais acirrada sobre Israel dentro do Partido Republicano.

No mês passado, o embaixador dos EUA em Israel e sionista cristão Mike Huckabee causou um incidente internacional depois de dizer ao comentarista conservador Tucker Carlson que Israel tinha direito à grande maioria do Oriente Médio. Huckabee fez o comentário depois de ser pressionado sobre o assunto por Carlson, que tem se tornado cada vez mais crítico da relação entre os EUA e Israel.

Essas mesmas tensões estão atualmente em evidência, já que o ataque ao Irã foi criticado por vozes proeminentes da direita, como Megyn Kelly e Steve Bannon. A divisão explica por que fontes próximas a J.D. Vance já estão dizendo a repórteres que ele supostamente se opôs aos ataques, já que o vice-presidente parece querer assumir a Casa Branca após o fim do mandato de Trump. Lembre-se de que Kamala Harris perdeu votos por não se distanciar do presidente Biden em relação a Gaza.

Os ataques também estão ocorrendo durante as primárias de meio de mandato, onde grupos de lobby israelenses, como a AIPAC, estão sendo criticados como nunca antes.

“Israel, após uma longa e devastadora guerra em Gaza, tornou-se tão impopular entre muitos eleitores da base democrata que os principais candidatos nas principais primárias estão usando até mesmo pequenas conexões com os líderes políticos do país para atacar seus oponentes”, declara um artigo recente da Politico sobre o tema.

É de se esperar que a reputação de Israel caia ainda mais à medida que a guerra no Irã se expande.

Netanyahu pode finalmente ter conseguido sua guerra, mas também acirrou ainda mais a batalha interna sobre a relação dos EUA com Israel.

(*) Tradução de Raul Chiliani

Mondoweiss O Mondoweiss é um site independente que fornece informações aos leitores sobre os acontecimentos em Israel/Palestina e sobre a política externa dos EUA. O site fornece notícias e análises sobre a luta dos palestinos pelos direitos humanos que não estão disponíveis na mídia convencional.

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