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Nem rendição nem acordo: a guerra no Irã entra na sua terceira semana

Quinze dias de guerra no Irã revelam um conflito sem saída rápida, com impacto direto na política americana e no mercado global de energia

Queralt Castillo Cerezuela
Soldados do Exército da República Islâmica do Irã durante desfile militar em setembro de 2011. (Foto: Reza Dehshiri / YPA / Wikimedia Commons)
Soldados do Exército da República Islâmica do Irã durante desfile militar em setembro de 2011. (Foto: Reza Dehshiri / YPA / Wikimedia Commons)

Completam-se duas semanas desde que os Estados Unidos e Israel decidiram atacar o Irã; completam-se também duas semanas desde que os dois regimes agressores tiraram a vida da máxima autoridade iraniana, o aiatolá Khamenei. Após quinze dias de fogo cruzado que colocou toda a região em xeque, permanece a incerteza sobre o que acontecerá nos próximos dias.

De acordo com os últimos números divulgados pelo Ministério da Saúde do Irã, pelo menos 1.444 pessoas foram mortas nessa campanha conduzida pelos Estados Unidos e por Israel, e 18.551 ficaram feridas desde 28 de fevereiro, data de início da ofensiva. Ainda ontem, enquanto se celebrava o Dia de Al-Quds — um dia internacional anual para expressar apoio à Palestina e oposição à ocupação israelense — Israel bombardeou a Praça Ferdowsi, em Teerã, onde centenas de pessoas se reuniram apesar do clima de guerra.

O regime sionista teria avisado momentos antes do ataque; no momento em que estas linhas são escritas, havia sido relatada a morte de uma mulher atingida por estilhaços.

Incerteza no terreno e nos mercados

Na quinta-feira, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei — filho do falecido Ali Khamenei — fez seu primeiro discurso. A mensagem não foi transmitida ao vivo, mas lida pela televisão pública estatal iraniana. Ele garantiu que o estreito de Ormuz, uma das artérias mais importantes do comércio global, permaneceria fechado e que os ataques a interesses norte-americanos na região também não cessariam.

O novo aiatolá demonstrou, assim, que continua vivo — ao longo dos últimos dias circularam rumores de que ele poderia estar morto. No entanto, o fato de não aparecer em público levanta dúvidas sobre seu estado de saúde, já que se afirma que ele teria ficado ferido nos ataques de 28 de fevereiro.

Em seu discurso, o novo líder também conclamou os países do Golfo a tomarem partido e se posicionarem diante do que está ocorrendo, por exemplo “fechando” as bases norte-americanas “o mais rápido possível”.

Essa informação surgiu no mesmo dia em que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou em entrevista à Sky News que era questão de dias para que a Marinha dos Estados Unidos começasse a escoltar navios no estreito de Ormuz — informação também divulgada pelo portal Axios.

A medida ocorre após relatos de que o Irã estaria minando o estreito e depois de ataques a diferentes navios com bandeiras internacionais. Ainda assim, a escolta não ocorrerá de forma imediata. Como destacou também na quinta-feira o secretário de Energia, Chris Wright, em entrevista à CNBC, a prioridade das forças americanas neste momento é “destruir as capacidades ofensivas do Irã e a indústria manufatureira que sustenta essas capacidades”.

Nesse contexto global de incerteza e com o consequente aumento do preço do petróleo — em um mundo marcado pela interdependência econômica — os Estados Unidos se viram obrigados a suavizar temporariamente as sanções ao petróleo russo retido no mar, ou seja, já em trânsito. A isenção será prorrogada por 30 dias.

Com essa medida, o governo americano pretende conter o impacto global causado pelo fechamento do estreito de Ormuz. O Irã não pretende reabri-lo, advertiram autoridades iranianas, até que cessem os ataques — algo para o qual, por enquanto, não há data.

As autoridades iranianas chegaram inclusive a advertir que o preço do petróleo poderia chegar a 200 dólares por barril. As reservas petrolíferas dos Estados Unidos estão em seu nível mais baixo em três décadas.

Diante dessas circunstâncias, na quarta-feira, a Agência Internacional de Energia aprovou a maior liberação de reservas de petróleo da história: os 32 países membros da organização — entre eles a Espanha — concordaram, por unanimidade, em liberar 400 milhões de barris de petróleo bruto.

A batalha pela narrativa

Além da batalha no terreno, Israel e Irã também travam uma disputa pela narrativa. O mesmo ocorre nos países do Golfo Pérsico, onde foi proibida a divulgação de imagens dos impactos de mísseis iranianos que têm como alvo interesses americanos.

Nos Emirados Árabes Unidos (EAU), por exemplo, cerca de 20 pessoas — entre elas um cidadão britânico — já foram acusadas com base na Lei de Crimes Cibernéticos do país, que pune a filmagem e a divulgação de material relacionado à guerra e pode implicar penas de prisão e deportação para estrangeiros.

Nesse caso, as autoridades foram claras: não é permitido divulgar imagens relacionadas aos ataques iranianos no país.

No Irã, de onde quase não chegam imagens, o apagão informativo é quase total. Os locais que foram alvo de ataques não podem ser visitados, segundo relatam jornalistas presentes no país.

A censura em Israel também é um fato. O governo de Netanyahu proibiu a publicação de conteúdos relacionados aos ataques iranianos, sob o argumento de preservar a segurança nacional.

De fato, no início da guerra, todos os jornalistas que trabalham no país receberam diretrizes específicas sobre como informar sobre os ataques — o que pode ser publicado e o que deve permanecer oculto.

O custo político para o governo Trump

Ao longo dessas duas semanas, a sociedade civil americana também expressou suas opiniões sobre o conflito. As diversas pesquisas mostram uma oscilação na popularidade do presidente Donald Trump.

Durante a primeira semana da ofensiva, uma parte significativa dos americanos se opunha à decisão tomada por Trump. No entanto, essa tendência vem mudando com o passar dos dias.

Uma pesquisa realizada pelo The Washington Post durante a primeira semana da guerra revelou que 39% dos americanos apoiavam que “o presidente Trump ordenasse ataques aéreos contra o Irã”, enquanto 52% se opunham e 9% se declaravam indecisos.

Em uma nova pesquisa publicada nesta semana, os números mudaram: 42% agora apoiam a campanha militar dos Estados Unidos contra o Irã; 40% se opõem e 17% afirmam não ter certeza.

Segundo os dados, a maioria dos entrevistados concorda que o governo Trump não explicou claramente os objetivos da ofensiva.

A decisão de iniciar essa nova guerra também dividiu o Partido Republicano e o movimento MAGA. Uma parte significativa do movimento se opõe à continuidade das intervenções dos Estados Unidos no exterior.

Uma das figuras que se encontram na berlinda é o vice-presidente JD Vance, cujas divergências políticas com Trump sobre esse tema são evidentes.

Em suas intervenções públicas, Vance — que evita expressar oposição direta às decisões de seu chefe — tem insistido na necessidade de não repetir os erros cometidos nas guerras do Iraque e do Afeganistão.

“O presidente Trump não vai envolver os Estados Unidos em um conflito que dure anos sem um objetivo claro”, afirmou ele em entrevista à Fox News.

Apesar de procurar preservar a unidade política, no dia 27 de fevereiro — um dia antes do início dos ataques — JD Vance declarou ao The Washington Post que se mostrava “cético” em relação às intervenções militares dos Estados Unidos no exterior.

“Somos filosoficamente um pouco diferentes quando se trata da guerra dos Estados Unidos com o Irã. Acho que talvez eu estivesse menos entusiasmado”, reconheceu o próprio Trump em coletiva de imprensa realizada na segunda-feira, 9 de março, em Mar-a-Lago, na Flórida.

Apesar disso, o presidente insiste que as divergências não representam um problema e não prejudicam a relação entre ambos. Quem poderia sofrer danos políticos, no entanto, é o próprio JD Vance — especialmente em relação às suas aspirações eleitorais para 2028.

A ofensiva, por sua vez, parece não ter data para terminar. Muito pelo contrário. Por enquanto, o Irã não se rende nem se dá por vencido — enquanto os mercados tremem e o mundo permanece em suspense.

El Salto El Salto é um meio de comunicação social autogerido, horizontal e associativo espanhol.

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