Eqbal Ahmad, um dos mais notáveis intelectuais públicos do Paquistão do século XX, propôs um teste decisivo e implacável para a decadência imperial em “Como saber se os rebeldes venceram”: ignore o que o poder diz – observe o que seus inimigos ousam fazer. Quando aqueles que antes eram obrigados a se ajoelhar começam a ditar condições, o destino do império não é mais uma questão. É uma conclusão.
Os impérios não são derrubados por declarações, mas pela desobediência – pelo momento em que suas ameaças deixam de funcionar. O que acabamos de testemunhar é precisamente esse momento: não um desvio, não um erro, mas uma ruptura – a derrota mais concentrada do poder dos Estados Unidos na era do pós-guerra, comprimida em semanas.
Durante anos, o declínio dos EUA foi discutido em termos abstratos: déficits, desindustrialização, multipolaridade, ascensão da China. Esses eram eufemismos educados para algo mais desestabilizador – que o monopólio de cinco séculos do Ocidente sobre a autoridade global, nascido em 1492, estava enfraquecendo. Mas a abstração conforta. Ela adia o reconhecimento. O que ocorreu agora é algo mais severo: o declínio tornado visível, inegável e irreversível.
Os Estados Unidos não se recalibraram; recuaram. Começaram com ultimatos e terminaram dentro da estrutura estratégica de seu adversário. Isso não é diplomacia. Isso é capitulação burocraticamente organizada.
O Império, quando funciona, disfarça a violência como virtude – “ordem”, “estabilidade”, “dissuasão”. Desta vez, o disfarce desmoronou. A linguagem foi crua: aniquilação, apagamento, morte da civilização. Era um império sem gramática.
E, no entanto, despojado de eufemismos, revelou sua própria fraqueza: suas palavras não mais determinavam o comportamento. O Irã não entrou em pânico, não implorou nem se submeteu. Absorveu a ameaça – e impôs condições.
Chame isso pelo que é: reversão. O poder não foi meramente resistido; foi revertido. Washington negociou sob restrições, respondendo em vez de ditar. O significado do “plano de dez pontos” não reside em suas cláusulas, mas em sua existência: os Estados Unidos operando dentro de uma estrutura que não criaram nem controlam.
Ao lado desse colapso, há outro: o mito da invencibilidade israelense. Durante décadas, Israel funcionou como o braço executor da supremacia ocidental; um Estado que podia atacar em qualquer lugar e impor resultados por meio da força. Essa ilusão se rompeu. Em Gaza, a resistência persiste. No Líbano, ela persiste. Contra o Irã, fracassou decisivamente. O que resta não é domínio, mas repetição: bombardeios sem vitória, escalada sem resolução, violência sem autoridade.
Até mesmo o cessar-fogo perdeu credibilidade. A expectativa de que Israel possa retomar o bombardeio à vontade não é força; é uma acusação. Um sistema incapaz de traduzir força em finalidade fica preso a uma violência perpétua. Ele pode destruir infinitamente, mas não pode concluir nada. Isso não é poder. Isso é exaustão estratégica.
Juntas, essas falhas – a coerção americana e a imposição israelense – marcam uma ruptura histórica. O domínio dos EUA repousava não apenas na força, mas na credibilidade de suas ameaças. A guerra funcionava porque era temida. Esse medo já não existe. Quando ameaças de destruição total não produzem submissão nem obediência, mas sim negociação nos termos do adversário, elas deixam de disciplinar. Tornam-se espetáculo.
A comparação com o Paquistão em 2001 é reveladora. Naquela época, diante da ameaça direta de ser “bombardeado de volta à Idade da Pedra”, um Estado com armas nucleares colapsou quase instantaneamente. Aquele momento consolidou o mito do domínio absoluto dos Estados Unidos. Hoje, esse mito está destruído. O Irã enfrentou a mesma ameaça – ser “bombardeado até a Idade da Pedra” – e a rejeitou categoricamente. A diferença não é de capacidade, mas de consciência. Uma elite internalizou a autoridade do império. A outra a rejeitou – e provou que ela poderia ser rejeitada.
Nada disso significa que o poder americano ou israelense tenha desaparecido. Eles mantêm imensa capacidade destrutiva. Podem devastar, punir e destruir. Mas isso já não é suficiente. A equação mudou. A destruição não produz mais submissão. A violência não garante mais obediência. A maquinaria do império ainda opera – mas não determina mais os resultados.
É por isso que este momento vai além de um único conflito. Não se trata meramente de um fracasso político; é uma ruptura estrutural na própria hegemonia ocidental. Por cinco séculos, a ordem global repousou sobre uma premissa simples: que o poder ocidental prevalece em última instância. Essa premissa foi agora quebrada – materialmente, não retoricamente.
As consequências já são visíveis. Os Estados estão se recalibrando. As alianças estão se afrouxando. Até mesmo os intermediários tradicionais agem com uma nova consciência: o executor não é mais onipotente. Em segundo plano está a China – não como ideologia, mas como realidade –, garantindo que o domínio unilateral já não seja possível.
O que torna essa ruptura tão devastadora é sua velocidade. Os impérios geralmente decaem lentamente, protegidos pela ilusão. Aqui, a ilusão desmoronou instantaneamente. Em semanas, os Estados Unidos passaram de ameaçar a aniquilação a aceitar termos que não podiam nem ditar nem recusar. Uma guerra destinada a demonstrar supremacia expôs limitações. Uma campanha destinada a impor submissão legitimou a rebeldia.
Voltemos, então, à percepção de Ahmad – não mais teórica, mas comprovada. A medida do império não são suas armas ou sua retórica, mas se aqueles que ele busca dominar ainda obedecem.
Eles não obedecem.
Este não é o fim do poder americano. É algo muito mais significativo: o momento em que ele perdeu a capacidade de ditar as regras pelas quais o mundo deve viver.
(*) Tradução de Raul Chiliani




































