O assassinato do aiatolá Ali Khamenei na fase inicial da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã gerou um debate marcante tanto nos círculos estratégicos quanto nos teológicos: sua morte pode ter eliminado não apenas um líder político, mas um freio normativo à possível marcha do Irã rumo às armas nucleares. Relatos indicam que, desde então, a tomada de decisões iraniana se endureceu sob intensa pressão militar e em um ambiente interno cada vez mais marcado pela lógica da segurança.
O que confere à morte de Khamenei um significado doutrinário particular é que ele, ao longo de mais de duas décadas, classificou publicamente as armas de destruição em massa – incluindo armas nucleares e químicas – como contrárias ao Islã. Se essa posição representava uma restrição religiosa genuína, em vez de mera retórica diplomática, então sua morte pode ter eliminado mais do que um líder: pode ter enfraquecido a restrição doutrinária que ajudou a manter o Irã como um Estado nuclear limítrofe.
A teoria islâmica da guerra justa impõe restrições morais à violência indiscriminada, restrições que Khamenei parecia projetar na política estatal. Com essa autoridade agora extinta, a questão central é se uma tradição moral pode disciplinar um Estado que cada vez mais vivencia sua insegurança como existencial – e se o próximo líder supremo poderá impor restrições doutrinárias a um sistema que se encaminha para uma lógica de segurança dura.
A teoria islâmica da guerra justa
A concepção islâmica da guerra parte de uma premissa diferente das caricaturas frequentemente projetadas sobre ela. O pensamento islâmico clássico não trata a guerra como um campo ilimitado de violência religiosa. Em vez disso, regula a guerra por meio de um quadro moral-legal derivado do Alcorão, da prática do Profeta e das tradições jurídicas que se desenvolveram nos séculos subsequentes. A injunção corânica fundamental é extraída do versículo 2:190: “Combatei na causa de Deus aqueles que vos combatem, mas não transgredais. Na verdade, Deus não ama os transgressores.” O versículo tanto permite a luta quanto a limita: a guerra é aceita como uma realidade política, mas não tratada como moralmente autônoma.
A dualidade entre permissão e restrição permeia, assim, a tradição islâmica da guerra justa. A guerra pode ser legítima em casos de defesa, resistência à agressão ou proteção da comunidade. Mas mesmo uma causa justa não autoriza meios ilimitados. Os juristas islâmicos enfatizaram a proporcionalidade, a autoridade legítima, a fidelidade aos acordos e a proteção dos não combatentes – incluindo mulheres, crianças, idosos, monges e camponeses –, desenvolvendo uma norma de discriminação que restringe a violência aos combatentes ativos.
É a partir dessa perspectiva que as armas nucleares se tornam especialmente difíceis de conciliar com a ética islâmica. Uma arma cuja essência é a devastação em massa e descontrolada não se coaduna com qualquer tradição que trate a imunidade dos não combatentes como um princípio moral central. Em termos islâmicos, o problema não é simplesmente a escala da destruição, mas a própria estrutura do ato: os meios em si são transgressivos.
A fatwa: restrição genuína ou cobertura estratégica?
A famosa oposição do aiatolá Ruhollah Khomeini às armas químicas durante a Guerra Irã-Iraque estabeleceu um precedente inicial para esse tipo de restrição doutrinária. O Iraque utilizou agentes químicos extensivamente, e o Irã sofreu enormemente – cerca de 20 mil iranianos foram mortos e mais de 100 mil gravemente feridos. No entanto, a República Islâmica não respondeu da mesma forma em escala comparável. Se essa restrição foi inteiramente teológica ou também estratégica, é algo que permanece em debate. Evidências recentes sugerem um desenvolvimento limitado de armas químicas pelo Irã durante a guerra. Ainda assim, o episódio reforçou a noção de que certas armas estavam além do limiar moral que a liderança clerical do Irã estava disposta a ultrapassar abertamente.
Khamenei estendeu essa lógica ao domínio nuclear. Ele primeiro emitiu uma fatwa verbal em outubro de 2003, declarando as armas nucleares como proibidas (haram) no Islã, e repetiu essa posição em uma declaração oficial na reunião de emergência da Agência Internacional de Energia Atômica em agosto de 2005. Nos anos seguintes, autoridades iranianas invocaram repetidamente seu decreto religioso como prova das intenções nucleares pacíficas da República Islâmica.
Mas a autenticidade e o peso jurídico da fatwa sempre foram contestados. Alguns argumentaram que nenhuma fatwa formal por escrito foi jamais emitida e que o que o Irã divulgou como uma decisão religiosa era, na origem, meramente o parágrafo final de uma mensagem para uma conferência de desarmamento nuclear de 2010, posteriormente enquadrada retroativamente por diplomatas iranianos como uma fatwa. Outros documentaram que as declarações de Khamenei sobre armas nucleares eram inconsistentes: às vezes ele proibia categoricamente o desenvolvimento, o armazenamento e o uso; em outras ocasiões, parecia permitir o desenvolvimento e o armazenamento, embora proibisse o uso.
Nada disso retira totalmente o significado da fatwa. Em sistemas políticos onde a legitimidade é em parte teológica, uma proibição pública articulada pelo jurista supremo, mesmo que ambígua em sua forma jurídica, eleva o custo político e doutrinário de uma reversão. Como observa um estudioso, tais declarações tornam oneroso para a República Islâmica reverter a posição declarada publicamente, mesmo que não constituam decisões jurídicas vinculativas no sentido formal.
Sucessão e a questão da herança doutrinária
A questão crítica de saber se o sucessor de Khamenei herdaria sua autoridade política e moral é de grande importância. Em 9 de março de 2026, a Assembleia de Especialistas nomeou Mojtaba Khamenei, filho de 56 anos de Ali Khamenei, como terceiro líder supremo do Irã. Se ele herdará os compromissos doutrinários de seu pai, especialmente em relação às armas nucleares, está longe de estar claro. Não sendo conhecido como um jurista de prestígio comparável ao de seu pai, a autoridade de Mojtaba deriva principalmente de suas credenciais revolucionárias e de segurança, e não da profundidade de seu conhecimento teológico – um fato observado criticamente dentro do establishment clerical iraniano, que historicamente resistiu à sucessão de pai para filho por considerá-la desconfortavelmente monárquica.
A proibição nuclear de Khamenei teve peso porque partiu da mais alta autoridade religiosa do Estado. A posição de Mojtaba é muito mais contestada, o que significa que qualquer proibição comparável provavelmente terá menos força doutrinária – enquanto qualquer flexibilização tácita acelerará a erosão da barreira que seu pai manteve. Os comandantes da IRGC que manobraram para sua nomeação ao poder estão há muito entre aqueles que pressionam por uma reavaliação da postura nuclear do Irã.
Moderação islâmica vs. realismo estratégico
Isso leva à questão final e talvez a mais complexa: o Irã, se agisse como um Estado puramente realista, buscaria armas nucleares independentemente da tradição islâmica da guerra justa? A resposta realista é direta. Os Estados buscam a sobrevivência em um sistema internacional anárquico. Quando um Estado enfrenta adversários mais fortes, coerção recorrente e a perspectiva credível de violência para mudança de regime, ele tem todos os incentivos para buscar o dissuasor definitivo. Dessa perspectiva, a lógica da aquisição nuclear não é teológica, mas estratégica: uma bomba prometeria não utilidade no campo de batalha, mas a sobrevivência do regime, dissuasão e proteção contra ataques futuros.
E, no entanto, o Irã não é um Estado puramente realista em termos abstratos. É uma ordem política em que ideologia, autoridade clerical, segurança nacional e sobrevivência do regime coexistem há muito tempo em uma combinação instável. A possibilidade mais interessante, portanto, não é que o realismo simplesmente substitua a teologia, mas que o realismo gradualmente a colonize. Nesse cenário, a doutrina não é descartada abertamente; ela é reinterpretada e subordinada à necessidade, permitindo que o Estado mantenha a linguagem islâmica enquanto avança para uma postura à qual o mais velho Khamenei resistiu publicamente.
O maior perigo é que a linguagem de contenção da República Islâmica possa deixar de ancorar a política e, em vez disso, comece a ficar para trás. Se assim for, o futuro nuclear do Irã será decidido não apenas em salas de centrífugas ou bunkers de comando, mas na luta entre limites teológicos e medo estratégico.
(*) Tradução de Raul Chiliani





































