Quando a delegação dos EUA abandonou as negociações em Islamabad em 12 de abril sem chegar a um acordo, Washington decidiu imediatamente intensificar a tensão com o Irã. Trump anunciou que as forças navais dos EUA imporiam um bloqueio aos portos iranianos, interrompendo o tráfego marítimo de entrada e saída do país. O Comando Central dos EUA informou que a operação teria início às 10h, horário da costa leste, no dia 13 de abril.
Mas isso não começou com Washington. Após seis semanas de guerra, o Irã já havia assumido o controle do Estreito de Ormuz — em suas próprias águas territoriais —, restringindo a passagem sob condições regulamentadas e reduzindo drasticamente o tráfego marítimo pela via navegável. Essa medida veio em resposta a uma guerra ilegal dos EUA e a uma campanha contínua de bombardeios que matou civis e destruiu centenas de escolas, hospitais e indústrias essenciais.
O bloqueio dos EUA é a mesma guerra sob outra forma. Washington não conseguiu derrotar o Irã com bombardeios nem impor condições na mesa de negociações. Agora, está tentando sufocar as exportações de petróleo do Irã — o principal elo do país com o mercado mundial —, em um esforço para forçar o que não conseguiu conquistar militarmente.
Esta é a terceira grande ação bélica que Trump empreendeu contra o Irã desde o início da Operação Fúria Épica, em 28 de fevereiro. Ele fez isso sem autorização do Congresso, sem debate público e sem sequer tentar obter amplo consentimento político. O Congresso não foi instado a autorizar uma única medida. A guerra segue adiante de qualquer maneira.
Os líderes democratas não estão pedindo o fim da guerra. Suas críticas dizem respeito à forma como Trump a está conduzindo, não a se ela deve continuar.
O choque econômico começou antes mesmo do início do bloqueio dos portos iranianos pelos EUA, porque o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz já havia sido interrompido pela guerra e pelo controle do Irã sobre a passagem. O petróleo Brent, que havia caído para 92 dólares quando o cessar-fogo de duas semanas foi anunciado, subiu para mais de 102 dólares o barril em 13 de abril, enquanto o West Texas Intermediate subiu para mais de 104 dólares. Os petroleiros começaram a se afastar do estreito antes mesmo do início da operação.
A perturbação já está se espalhando para além do petróleo. Analistas relatam escassez de hélio, gás natural liquefeito e matérias-primas industriais. Um ataque imperialista a um país estratégico produtor de energia não fica restrito aos mercados de petróleo. Ele se espalha por todo o sistema de comércio e produção.
O Irã restringiu a passagem pelo próprio estreito, em suas próprias águas. Washington está bloqueando os portos iranianos para impedir que seu petróleo chegue ao mercado mundial.
A geografia do Estreito de Ormuz impõe limites rígidos. Em seu ponto mais estreito, o estreito tem cerca de 34 km de largura. As águas costeiras se estendem por 12 milhas náuticas a partir da costa, o que significa que as rotas marítimas atravessam águas territoriais iranianas e omanenses, e não o oceano aberto. Os navios navegam por um corredor confinado, sob vigilância constante e ao alcance das defesas costeiras. Este não é um espaço que os EUA controlam.
Os petroleiros já estão se desviando do estreito. O transporte marítimo está reagindo ao perigo, não ao que Washington diz no papel. Mais de 15 navios de guerra dos EUA foram mobilizados para a operação, incluindo um porta-aviões, contratorpedeiros e um navio de assalto anfíbio. Alguns estão equipados para operações de abordagem. Outros estão posicionados para interceptar e redirecionar o tráfego comercial.
Na prática, parar navios não é simples. As tripulações podem recusar ordens, resistir à abordagem ou bloquear os sistemas de controle. Cada etapa da ação coercitiva — do aviso à abordagem e à apreensão — aumenta o risco de confronto direto. O bloqueio não pode ser imposto sem uma escalada.
Há décadas, Washington alega defender a “liberdade de navegação”. Na prática, usa sanções e força militar para decidir quem pode vender petróleo, quem pode comprá-lo e como ele é transportado. As sanções dos EUA restringem quais países e empresas podem receber petróleo específico, enquanto medidas como o bloqueio total dos embarques de petróleo para Cuba mostram como esse controle é aplicado na prática. O bloqueio torna essa realidade explícita. É uma tentativa de controlar os fluxos de energia na fonte pela força.
Em março, após sofrer um ataque com mísseis, o grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln recuou para cerca de 1.000 quilômetros (620 milhas) da costa do Irã. Essa não é uma posição a partir da qual se possa impor um bloqueio.
Em 13 de abril, a Guarda Revolucionária Islâmica declarou que navios militares dos EUA que se aproximassem do estreito seriam tratados como parte de uma violação do cessar-fogo e provocariam uma resposta contundente, enquanto o transporte marítimo civil continuaria sob condições regulamentadas.
Essa distinção é importante. O Irã não está tentando interromper todo o tráfego. Está afirmando o controle sobre suas próprias águas em condições de guerra.
O cessar-fogo de duas semanas anunciado em 7 de abril permanece tecnicamente em vigor até 21 de abril, e novos contatos estavam sendo discutidos. O bloqueio dos EUA agora coloca essas negociações à beira do colapso. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Araghchi, disse que os dois lados estavam próximos de um memorando de entendimento antes de os EUA se retirarem.
Após 21 horas sem um acordo, a delegação dos EUA abandonou as negociações. Negociações sobre uma guerra dessa magnitude não terminam em um único dia, a menos que os EUA estejam lá para impor condições, e não para negociar.
Washington apontou a questão nuclear como a razão do fracasso das negociações. Mas elas giraram em torno de Ormuz, do Líbano e da questão de saber se o Irã aceitaria as condições dos EUA — as mesmas questões que agora impulsionam o bloqueio.
Washington iniciou esta guerra buscando uma mudança de regime. Ela fracassou. O Irã se manteve unido, fortaleceu suas defesas e afirmou o controle sobre o Estreito de Ormuz em resposta a um ataque à sua existência. Só então Washington passou a exigir que o estreito fosse reaberto nos termos dos EUA.
O bloqueio dos EUA aos portos iranianos é sua resposta a essa recusa.
É uma tentativa de usar o cerco — cortando as exportações de petróleo e ameaçando o colapso econômico — para forçar o que a guerra e as negociações não conseguiram alcançar.
Mas essa pressão não recai apenas sobre o Irã. China, Índia e Paquistão dependem dos fluxos de energia iranianos. Bloquear essas exportações significa confrontar os países que dependem delas. Washington não pode intensificar a escalada contra o Irã sem ampliar o conflito.
Washington apresenta cada escalada nesta guerra imperialista como limitada e controlada. Na realidade, os custos estão aumentando e os riscos se ampliando. O bloqueio não resolve o problema com o qual Washington se deparou. Ele o aprofunda.
Não há razão para esperar que ele tenha sucesso onde a guerra e as negociações já fracassaram.




































