A editora Baioneta lança, neste mês de abril, o livro Apulco de Castro: a vida desafiadora, o linchamento público e a memória apagada de um jornalista negro, do historiador norte-americano Thomas H. Holloway. Com base em extensa pesquisa documental, a obra recupera a trajetória de um jornalista combativo do século 19 cuja morte violenta por linchamento – e posterior esquecimento – expõem tensões profundas da sociedade brasileira.
Apulco de Castro foi assassinado em 25 de outubro de 1883, no centro do Rio de Janeiro, diante da Chefatura de Polícia e sob os olhos de autoridades e de uma multidão. Homens armados, disfarçados, o atacaram com facas e tiros poucos minutos após ele sair de uma reunião em que buscava proteção do próprio Estado. Nenhum dos responsáveis foi punido: os assassinos eram oficiais do Exército ligados à guarda pessoal de Dom Pedro II.
O crime não foi um episódio isolado. Ele ocorreu após uma escalada de violência que incluiu a destruição da tipografia do jornal O Corsário, dirigido por Castro. Dias antes de morrer, o jornalista já denunciava ameaças públicas contra sua vida, e chegou a prever sua própria morte: “O 1º Regimento de Cavalaria Ligeira diz a quem queira ouvir que Apulco Castro há de ser assassinado, máxime se continuar a publicar o Corsário”, publicou Apulco em seu jornal, dois dias antes de seu linchamento. “Preferimos morrer atravessados pela espada facínora da guarda do rei, do que fugir, desmentindo o nosso glorioso passado, que tantos sacrifícios nos custou a conquistá-lo. E depois, quando a inexorável história ocupar-se dos nossos tempos, há de dizer que um regimento que guardava o rei Pedro II, composto de mil praças, armou-se de espadas, machadinhas, cacetes, etc., etc., para matar a um negro!”
Mais do que reconstituir os fatos, o livro investiga as razões do crime e, sobretudo, o apagamento histórico do jornalista.

Um jornalista contra o poder
Fundado em 1880, O Corsário tornou-se um dos jornais mais incisivos da capital imperial. Com tiragem expressiva para a época, o periódico atacava corrupção, abusos de autoridade e desigualdades sociais, atingindo desde autoridades policiais até o próprio imperador Dom Pedro II.
Apulco de Castro, tipógrafo de origem e homem negro, assumia publicamente sua identidade racial em um período marcado pela escravidão e por profundas hierarquias sociais. Sua atuação articulava crítica política, denúncia social e defesa de causas como o abolicionismo e o republicanismo.
Apulco enfrentava diretamente os interesses estabelecidos. Seu jornal promovia campanhas públicas contra figuras influentes, denunciando desde corrupção administrativa até abusos cometidos por militares. Foi esse enfrentamento direto – em especial contra membros do 1º Regimento de Cavalaria, a guarda do imperador – que desencadeou a sequência de ataques que culminaria em sua morte.
Um assassinato com consequências políticas
Como Thomas Holloway descreve, o assassinato de Apulco de Castro provocou uma crise imediata no Rio de Janeiro poucos anos antes da abolição e do estabelecimento da República. Nos dias seguintes ao seu linchamento, a cidade foi tomada por tumultos, protestos e repressão policial. Centenas de pessoas foram presas. A Casa de Detenção chegou a registrar mais de 600 detidos em um espaço projetado para 160, resultando em uma rebelião que destruiria parte das instalações.
A repercussão política também foi significativa. O episódio contribuiu para o desgaste do governo imperial e está ligado à queda do gabinete chefiado por Lafayette Rodrigues Pereira, em 1884, evidenciando a dimensão institucional da crise desencadeada pelo crime.
Raça, imprensa e silêncio
Um dos eixos centrais do livro é a análise do apagamento da memória de Apulco de Castro. Apesar do impacto imediato de sua morte, amplamente noticiada à época, sua figura foi sendo progressivamente marginalizada na historiografia brasileira.
Holloway argumenta que esse esquecimento não é acidental. Ele reflete tanto o incômodo causado por sua atuação quanto as dinâmicas de raça, poder e controle da memória no Brasil. Um jornalista negro, que confrontou diretamente instituições e elites, acabou sendo reduzido, em relatos posteriores, a uma figura menor ou desqualificada, quando não abertamente difamado. Republicano e abolicionista, Castro chegou a ser qualificado como monarquista e pró-escravidão. Pela caneta de Euclides da Cunha, autor d’Os Sertões, foi descrito como um “alucinado”.
Ao revisitar documentos, jornais e registros oficiais, o autor demonstra como versões posteriores buscaram justificar ou relativizar o assassinato, ao mesmo tempo em que evitavam responsabilizar seus autores.
Uma história que ecoa no presente
Mais de um século depois, a história de Apulco de Castro ressurge como um caso emblemático para compreender a relação entre violência, poder e silenciamento no Brasil.
Ao trazer à luz esse episódio, o livro não apenas recupera uma trajetória individual, mas questiona os mecanismos pelos quais certos acontecimentos, e certas vozes, são excluídos da memória coletiva.
A obra conta com prefácio do professor de Jornalismo da ECA/USP Dennis de Oliveira, que ressalta a atualidade do tema diante dos debates contemporâneos sobre racismo estrutural, liberdade de imprensa e violência política. “Diante da fama dos rebeldes no seu tempo, a arma do poder é o apagamento da memória. Daí que este livro de Holloway cumpre um papel importante de trazer à luz a personagem histórica de Apulco Castro, mais um exemplo daquilo que o sociólogo Clóvis Moura defende – negros e negras sempre lutaram contra o escravismo em todos os momentos e foram os protagonistas da história da luta de classes no país”, escreve o professor.





































