No dia 28 de fevereiro de 2026, em meio às negociações em curso sobre o programa nuclear iraniano, os EUA e Israel lançaram um ataque com o objetivo de promover uma mudança de regime no Irã. O ataque atingiu 13 mil alvos civis, políticos, econômicos e militares — quase 18 vezes mais do que quando a coalizão liderada pelos EUA atacou o Iraque na Primeira Guerra do Golfo (1990–91).
No entanto, os ataques aéreos não alcançaram seu objetivo estratégico de mudança de regime. Pelo contrário: os EUA passaram a ameaçar fazer o Irã “regressar à Idade da Pedra”, atacando infraestruturas civis essenciais e tentando controlar seus recursos petrolíferos. Essas metas ambiciosas continuam sem ser alcançadas, e tanto Washington quanto Teerã concordaram com um cessar-fogo de 14 dias enquanto iniciam uma nova rodada de negociações no Paquistão, com ambos os lados mantendo exigências maximalistas.
Ambas as partes deixaram o Paquistão sem qualquer acordo, sinalizando o que William Zartman denomina um “impasse mutuamente prejudicial” — uma situação em que ambos os lados reconhecem que os custos da continuação dos combates superam quaisquer ganhos viáveis. Até que esse ponto seja alcançado, é provável que o conflito persista como uma guerra de desgaste prolongada. No entanto, as negociações podem continuar nos próximos dias.
Uma indicação clara da guerra de desgaste é a imposição de um bloqueio. Na segunda-feira, Trump anunciou que as Forças Armadas dos EUA iniciariam o bloqueio de todo o tráfego marítimo que entra e sai dos portos iranianos.
Um bloqueio é uma medida naval em tempo de guerra que corta fisicamente o comércio de um país e seu acesso a bens, imposta pela força militar e considerada, pelo direito internacional, um ato de guerra. As sanções, por outro lado, são restrições econômicas e financeiras não militares usadas para pressionar Estados sem conflito armado direto. No entanto, casos como o Iraque, Cuba e a Venezuela sugerem que as sanções podem, às vezes, abrir caminho para bloqueios.
O governo Trump está usando o bloqueio como alavanca para forçar o Irã a reabrir o Estreito de Ormuz — uma via navegável que estava livremente aberta antes do início dos ataques dos EUA e de Israel em fevereiro. No entanto, a estratégia de bloqueio é desafiada por suas próprias contradições, tanto em termos de tempo quanto de alcance.
Em termos de duração, quanto mais tempo o bloqueio se prolongar, mais profundos serão seus impactos na economia global. A guerra interrompeu o comércio mundial, desestabilizou os mercados de energia e espalhou tensões econômicas por todo o mundo. Paradoxalmente, essa dinâmica favorece o Irã: ao globalizar o sofrimento, uma guerra de desgaste prolongada torna-se uma estratégia de sobrevivência, e não uma fraqueza.
Abrangendo toda a costa do Irã — incluindo portos e terminais de petróleo — e aplicando-se a todas as embarcações, independentemente da bandeira, o amplo escopo do bloqueio cria vulnerabilidades significativas. Interceptar navios com destino a ou partindo de portos iranianos — incluindo os da China, maior comprador de petróleo do Irã — corre o risco de provocar uma escalada diplomática substancial ou até mesmo militar. Ao mesmo tempo, isso coloca os navios dos EUA ao alcance de mísseis e drones iranianos, expondo diretamente o pessoal militar americano.
Apesar de suas deficiências estratégicas, o bloqueio ainda pode exercer pressão significativa sobre a economia iraniana, já enfraquecida por décadas de sanções devastadoras e pela destruição de infraestruturas críticas durante a guerra — ao cortar receitas do petróleo vitais para a reconstrução e impor perdas estimadas em 150 milhões de dólares por dia.
Dados da Kpler sugerem que mais de 180 milhões de barris de petróleo bruto iraniano permanecem no mar, transportados por uma frota paralela, representando uma fonte substancial de receita. Em uma guerra de desgaste em que a segurança permanece incerta, é mais provável que esses recursos sejam direcionados à sobrevivência do Estado do que à reconstrução de infraestruturas danificadas.
É precisamente por isso que o governo Trump tem se concentrado no sistema de pedágio do Irã. Espera-se que o país arrecade cerca de US$ 1 por barril dos navios que transitam pelo Estreito de Ormuz, potencialmente gerando entre 70 e 80 bilhões de dólares por ano. Autoridades iranianas afirmaram explicitamente que esses recursos seriam destinados à reconstrução da infraestrutura danificada pela guerra.
As análises existentes sobre a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã frequentemente ignoram os danos causados pelas sanções à infraestrutura essencial do país. O caso do Iraque no pós-Guerra do Golfo é instrutivo: os ataques visaram infraestruturas civis que o Iraque não podia reparar sem ajuda estrangeira, ampliando os efeitos econômicos e psicológicos de longo prazo das sanções e paralisando estruturas essenciais a uma sociedade industrial, empurrando a economia iraquiana de volta ao século 19.
A alegação de Trump de que o Irã sofreu um retrocesso de décadas destaca o alvo intencional da infraestrutura civil. No entanto, isso não produziu uma mudança de regime. Em vez disso, são os iranianos comuns que arcam com o fardo — suportando as dificuldades diárias das sanções enquanto se preparam para o impacto psicológico agravado da infraestrutura danificada e a perspectiva de um bloqueio.
O bloqueio também sofre com a falta de apoio internacional necessário para sua aplicação eficaz. Cuba e a Venezuela mostram os limites dessa estratégia. Apesar de enfrentar um bloqueio dos EUA desde 1960, Cuba permaneceu socialista — enquanto o caso da Venezuela, em que um bloqueio naval dos EUA levou à captura de Nicolás Maduro, se assemelha mais a uma gestão do regime do que a uma mudança genuína de poder político.
O Irã, com maior influência regional, importância energética para as grandes potências e redes mais sofisticadas de evasão de sanções, apresenta-se como um candidato ainda menos promissor à capitulação por meio de bloqueio.
(*) Tradução de Raul Chiliani





































