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A “epidemia” de espiões iranianos em Israel

Como cidadãos israelenses estão sendo recrutados e colaborando com a inteligência do Irã por um punhado de dólares

Abdaljawad Omar
Um soldado israelense em um ponto de ônibus em Jerusalém, em 17 de agosto de 2004. (Foto: Wikimedia Commons/Justin McIntosh)
Um soldado israelense em um ponto de ônibus em Jerusalém, em 17 de agosto de 2004. (Foto: Wikimedia Commons/Justin McIntosh)

No último domingo (19), promotores israelenses acusaram dois cidadãos israelenses de espionagem a favor do Irã: Sagi Haik, de 19 anos, que mantinha contato com um agente iraniano há meses pelo aplicativo de mensagens Telegram, e Asaf Shitrit, de 21 anos, que teria sido recrutado por Haik para realizar tarefas sob orientação iraniana. O contato, que durou meses, incluía planos para que os dois homens viajassem a um país árabe para “treinamento”, enquanto o suspeito mais jovem teria dito às autoridades israelenses que havia fornecido “informações falsas” ao seu contato iraniano na forma de um documento falsificado detalhando planos para um ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irã. Os promotores alertaram que, se o documento supostamente falso tivesse chegado a Teerã, poderia ter desencadeado um ataque preventivo iraniano.

Foi o mais recente episódio do que os comentaristas de segurança israelenses agora descrevem como uma “magefa” – uma epidemia. Desde outubro de 2023, mais de 50 acusações foram apresentadas contra cidadãos israelenses por espionagem para o Irã. Em 2025, a agência de segurança interna de Israel, o Shin Bet, relatou um aumento de 400% nas tentativas de recrutamento iranianas em comparação com o ano anterior, que por si só já havia registrado um aumento sem precedentes.

Em 2026, vários casos de destaque dominaram as manchetes. Em março, um militar reservista que trabalhou com o sistema antimísseis Iron Dome foi preso sob suspeita de repassar detalhes sobre o funcionamento do sistema de interceptação de mísseis em troca de mil dólares. Somente no último mês, uma série de redes de espionagem foi descoberta: dois suspeitos de serem espiões na Força Aérea Israelense, um plano frustrado para assassinar o ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennet, quatro soldados da ativa acusados de espionar para o Irã e, agora, os dois cidadãos com documentos falsificados.

Os suspeitos têm idades entre 13 e 73 anos. Entre eles estão estudantes ultraortodoxos, imigrantes do Azerbaijão, um morador de Bnei Brak que perseguiu um cientista nuclear, reservistas que filmaram baterias do Iron Dome e soldados presos durante a guerra “existencial” em curso com o Irã.

O que chama a atenção nesses fatos não são as falhas de inteligência, nem mesmo o relativo sucesso de Israel de descobrir as operações de espionagem. A parte mais interessante são as realidades sociológicas subjacentes que tornaram isso possível. Emblemático dessa realidade é o surgimento de uma nova figura na vida política israelense: o cidadão comum-traidor que trai seu país não por ideologia, mas por um pagamento por meio do Telegram feito em criptomoeda.

 Leia também – A noite em que os protestos no Irã foram cooptados por forças externas 

O fato de tais tentativas terem ocorrido não se deve necessariamente à astúcia iraniana – embora isso também mereça atenção –, mas às condições internas da sociedade israelense que criaram uma brecha para tais infiltrações.

O método iraniano é surpreendentemente simples. Especialistas em inteligência o descrevem como uma operação do tipo “spray-and-pray” (atirar indiscriminadamente, em tradução livre): milhares de mensagens enviadas via Telegram e redes sociais oferecem pagamento por “tarefas fáceis” – sem verificação cuidadosa, sem contatos cultivados ao longo de anos, sem pontos de entrega secretos, sem casas seguras. Apenas uma mensagem: “interessado em ganhar dinheiro?”

A primeira tarefa pode ser fazer pixações. A segunda é fotografar uma rua. Na quinta ou sexta missão, o recruta está filmando a entrada de uma base de defesa aérea. Na décima, ele recebe a solicitação de assassinar seu comandante da reserva por 100.000 NIS (cerca de 33 mil dólares).

O que faz esse método funcionar não é sua sofisticação, mas seu ambiente: o Irã está plantando em solo que já foi fertilizado. Os comentaristas de segurança israelenses retornam repetidamente a uma única frase: “ha-kesef menatze’akh.” O dinheiro vence.

Mas a questão é que o dinheiro vence quando nada mais vence. E é aqui que a análise deve se voltar para dentro, para as condições que tornaram o contrato social israelense tão frágil que alguns milhares de dólares puderam quebrá-lo.

O que tornou os israelenses suscetíveis ao recrutamento iraniano?

A chamada epidemia de espionagem não ocorreu no vácuo. Ela se acelerou paralelamente a uma série de crises políticas e morais que degradaram sistematicamente a confiança social e institucional israelense nos últimos anos. A reforma judicial de 2023 dividiu o país em campos rivais. O 7 de outubro de 2023 destruiu o mito do Estado de segurança. E há ainda os escândalos de corrupção que envolveram a liderança política israelense, demonstrando um padrão claro de negociações em benefício próprio. Eles tiveram um efeito mais sutil e corrosivo do que os acontecimentos mais dramáticos dos últimos anos.

Quando o chefe de Estado está sob acusação e seu círculo íntimo é acusado de coordenar-se com interesses estrangeiros, a lição que se transmite não é complexa: a lealdade é transacional, o Estado serve àqueles que o dirigem, e a linguagem do sacrifício coletivo é uma retórica de conveniência empregada por pessoas que não acreditam nela.

O adolescente no Telegram não está lendo acusações formais nem acompanhando debates parlamentares, mas está absorvendo o sinal do ambiente que lhe diz que o contrato social é uma ficção mantida para o benefício daqueles que estão no topo.

Aqueles no topo são acusados de aceitar dinheiro do Catar em troca de mudanças políticas, e aqueles na base são acusados de aceitar dinheiro do Irã em troca de informações de inteligência. O paralelo estrutural entre os dois não escapou aos comentaristas israelenses. O jornalista especializado em inteligência Yossi Melman descreveu isso como “a deterioração da sociedade”.

Cidadãos comuns raciocinam que, se autoridades podem servir a interesses estrangeiros, por que o leigo não pode? A racionalização não é particularmente sofisticada, mas, em seus próprios termos cínicos, permanece internamente consistente.

O discurso israelense desenvolveu um rico vocabulário para descrever o que está acontecendo: hitpor’rut khevratit, ou “desintegração social”; e mashehu ba-khevra ha-yisraelit nisdak, ou “algo se rompeu na sociedade israelense”. Cada frase gira em torno de um mesmo reconhecimento: de que a ameaça vem de dentro.

No entanto, essas frases, apesar de toda a sua urgência, também desempenham uma espécie de contenção. Nomear a crise em hebraico e atribuir-lhe um lugar dentro da taxonomia das emergências nacionais significa que o problema já está sendo domesticado. Ele passa a ser subsumido sob um discurso que Israel costuma usar para processar ameaças existenciais sem alterar fundamentalmente as estruturas que as produzem.

O comentário em torno desses casos oscila entre dois enquadramentos que se opõem. Primeiro, há a linguagem da “epidemia”, denotando uma crise grave na qual a espionagem é apenas um sintoma do enfraquecimento do contrato social. E, segundo, há o esforço persistente para minimizar o fenômeno, apresentando os acusados como figuras marginais, pessoas que nunca reconheceram plenamente a autoridade do Estado e cujas ações, portanto, revelam pouco sobre a política mais ampla. Essas narrativas obviamente não podem coexistir confortavelmente, porque se você descreve a espionagem como sintomática de uma epidemia mais ampla, já implicou o todo. Isso não pode ser conciliado com a alegação de que os perpetradores são exceções.

Essa incompatibilidade é, por si só, reveladora, porque aponta para a forma como o discurso público israelense lida com a crise: eles encenam o alarme de maneira tão completa que o próprio frenesi se torna tranquilizador, sugerindo um Estado que aprendeu a metabolizar o pânico como uma forma de governança. Quanto mais agitado o comentário, mais ele sinaliza vigilância, que o Estado ainda está no controle.

O frenesi, em outras palavras, substitui a sensação de ordem. O tratamento dos casos de espionagem segue o mesmo padrão: sua existência indica que algo está errado com a sociedade israelense, mas, de alguma forma, eles ainda são marginais. Tudo está dando errado; nada precisa mudar.

O que está surgindo é algo para o qual a cultura de segurança israelense não tinha um termo adequado: um novo tipo de traidor. Não o desertor ideológico que muda de lado por convicção, nem o funcionário comprometido, mas o agente motivado financeiramente que passa de fazer pixações a planejar assassinatos em questão de semanas. Israel está intimamente familiarizado com esse tipo de figura porque passou décadas cultivando tais traidores como ativos e informantes dentro de sociedades inimigas. Mas, até agora, isso não havia surgido de dentro. E é aí que a ironia se torna quase cômica. O Shin Bet passou décadas estudando exatamente quais condições produzem colaboradores dispostos: precariedade econômica, desilusão política, a erosão dos laços comunitários, uma classe governante que visivelmente se isenta das obrigações que impõe aos outros. Essas são as vulnerabilidades que qualquer serviço de inteligência competente procura ao tentar recrutar espiões de dentro de uma sociedade hostil. Elas também são, a partir de 2026, uma descrição razoável para Israel. Isso faz parte do mesmo manual que o Shin Bet tem usado repetidamente para transformar cidadãos comuns em informantes. Mas agora ele tem que enfrentar esses mesmos mecanismos operando em seu próprio território.

(*) Tradução de Raul Chiliani

Mondoweiss O Mondoweiss é um site independente que fornece informações aos leitores sobre os acontecimentos em Israel/Palestina e sobre a política externa dos EUA. O site fornece notícias e análises sobre a luta dos palestinos pelos direitos humanos que não estão disponíveis na mídia convencional.

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