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A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois

A intervenção na Líbia em 2011 consolidou um paradoxo: destruiu o Estado e fortaleceu a nostalgia pelo que foi derrubado

Owen Schalk
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)

Desde a guerra da OTAN contra a Líbia em 2011, o outrora próspero país norte-africano tem sido marcado pela pobreza extrema, pela disfunção institucional e pela constante ameaça de guerra civil. Muitos líbios anseiam pelo retorno da funcionalidade do Estado. Esse anseio frequentemente se manifesta em forma de nostalgia pelo período da Jamahiriya, quando a Líbia era governada pelo coronel Muammar Gaddafi, que liderou a Revolução Al-Fatah de 1969 e levou adiante a construção de um Estado soberano nos moldes de sua Terceira Teoria Universal, uma forma única de socialismo islâmico e anti-imperialismo explicada no Livro Verde de Gaddafi.

Hoje, a Líbia está dividida entre o Governo de Unidade Nacional (GNU), com sede em Trípoli, reconhecido pelas Nações Unidas e liderado por Abdulhamid Dabaiba, e a Câmara dos Representantes, efetivamente um governo militar sob o comando do marechal de campo Khalifa Haftar. Ambos os governos contam com apoio estrangeiro: o GNU da Turquia, do Catar e dos EUA, e a Câmara dos Representantes do Egito e dos Emirados Árabes Unidos, entre outros.

O apoio a Gaddafi e às suas teorias não morreu quando o próprio foi morto por rebeldes de Misrata apoiados pela OTAN em 20 de outubro de 2011. O legado da Jamahiriya paira fortemente sobre a Líbia hoje, e a nostalgia por Gaddafi continua sendo uma tendência significativa na política do país. Trata-se fundamentalmente de um movimento de massas vindo de baixo, com diversas manifestações políticas, como o Movimento Nacional Popular (PNM) e a Frente Popular para a Libertação da Líbia (PFLL), esta última liderada pelo falecido Saif al-Islam Gaddafi até seu assassinato no início deste ano.

Para muitos líbios, a Jamahiriya continua sendo um ponto de referência da soberania e da estabilidade perdidas. Tais visões são reforçadas a cada nova revelação sobre a subjugação da Líbia a forças externas. Uma das mais recentes revelações sobre essa subjugação surgiu quando o Departamento de Justiça dos EUA divulgou documentos revelando que, durante a intervenção da OTAN na Líbia, Jeffrey Epstein trabalhou com ex-oficiais de inteligência britânicos e israelenses em um esforço para acessar bilhões em ativos do Estado líbio congelados em países ocidentais.

Em um sinal da contínua disfuncionalidade da Líbia, muitos ex-rebeldes anti-Gaddafi aderiram à “Resistência Verde”, como costuma ser chamada a constelação de conselhos lealistas, alianças tribais e redes clandestinas que reivindicam a herança do ex-líder líbio. Quando o acadêmico líbio Dr. Mustafa Fetouri viajou para as Montanhas Nafusa em janeiro de 2026 para se encontrar com Saif al-Islam – uma viagem descrita de forma eloquente em um recente artigo da New Lines Magazine , ele descobriu que um dos guarda-costas de Saif era um ex-rebelde de Zintan que se descrevia como pertencente aos “mugharrar bihim”, que significa “enganados”. Em 2016, um jornal do Zimbábue entrevistou ex-combatentes anti-Gaddafi sobre a situação na Líbia; eles expressaram nostalgia pelo governo que ajudaram a derrubar. Um ex-combatente antigovernamental comentou: “Antes de 2011, eu odiava Gaddafi mais do que qualquer pessoa. Mas agora, a vida está muito, muito mais difícil, e me tornei seu maior fã.” Enquanto escrevia meu livro, Targeting Libya, um líbio de Benghazi me informou que “a maioria” dos ex-rebeldes da cidade se arrepende de seu papel na derrubada da Jamahiriya.

Entre as classes trabalhadoras e médias na Líbia, permanece uma vasta base de apoio à Resistência Verde. Organizacionalmente, porém, a Resistência está fragmentada, carecendo de uma estrutura de comando unificada. Isso é tanto reflexo de divisões internas, quanto uma tática de sobrevivência; afinal, é mais difícil para as autoridades pós-2011 erradicar o lealismo a Gaddafi se a Resistência Verde permanecer difusa.

Embora os excessos do período de Gaddafi sejam bem conhecidos, seus aspectos positivos, que servem de base para a nostalgia atual, tendem a ser omitidos, especialmente na cobertura da mídia ocidental. Tal análise desequilibrada presta um desserviço tanto aos ocidentais quanto aos líbios. Ela rompe a conexão com as realidades no país e filtra as descrições dos eventos por meio de uma hostilidade pré-condicionada ao período da Jamahiriya. Qualquer análise completa e fundamentada do sistema político da Líbia hoje, e da Resistência Verde que influencia o discurso político tanto dentro quanto fora das instituições governamentais, deve levar em conta os próprios sentimentos dos líbios sobre esta experiência política de 42 anos que ainda ocupa a memória coletiva da nação.

Entre 1969 e 2011, a Líbia passou de um país extremamente pobre para a nação mais próspera da África, com indicadores de desenvolvimento humano mais comparáveis aos do sul da Europa do que aos do resto do continente africano. O Estado recuperou os recursos naturais, principalmente o petróleo, do controle estrangeiro, e utilizou as receitas para financiar um sistema de saúde e educação universais. Os direitos das mulheres foram ampliados e alcançou-se a alfabetização generalizada. Em 1976, o coronel Gaddafi demoliu pessoalmente a última favela da Líbia para celebrar a construção de mais de 100 mil novas moradias (durante esse período, os únicos países ocidentais com taxas de construção mais elevadas foram a Suécia e a Dinamarca). Surgiu um sistema político, enraizado na teoria do Livro Verde, que concedeu aos líbios um grau de participação política maior do que o que haviam experimentado sob a monarquia senussi do rei Idris (1951-1969), o domínio pós-guerra pelas potências aliadas (1945-1951), a colonização italiana (1911-1943) e a era otomana precedente.

A nostalgia verde representa fundamentalmente um anseio por ordem pública, estabilidade econômica e instituições funcionais – todas destruídas pelas bombas da OTAN em 2011. Como Mustafa Fetouri descreveu em uma entrevista:

“As classes trabalhadora e média [da Líbia] sofreram o impacto do colapso econômico, da insegurança e da fragmentação institucional pós-2011. Para muitos, essa nostalgia não é necessariamente um anseio por uma ideologia política específica do passado, mas sim um desejo pelo ‘estado de ordem’ e pela dignidade básica de vida que, desde então, evaporou.”

No entanto, certamente não passa despercebido aos líbios que tal ordem e dignidade foram garantidas no contexto da nacionalização dos recursos e de fortes políticas anti-imperialistas.

Na Líbia de hoje, as duas principais formações políticas do movimento Verde são a PFLL e o PNM. Os grupos apresentam semelhanças e diferenças. A PFLL, nas palavras de Fetouri, “funciona mais como um movimento sociopolítico do que como um partido tradicional”. Não possui organização formal nem hierarquia estabelecida, embora a autoridade repousasse indiscutivelmente nas mãos de Saif al-Islam, filho de Muammar Gaddafi, assassinado em 3 de fevereiro de 2026.

Operacionalmente, a PFLL funciona “por meio de uma rede de atores-chave influentes que muitas vezes permanecem nos bastidores por razões de segurança”. Hostil a ambos os governos líbios, a PFLL era, no entanto, influente o suficiente para garantir sua inclusão no “diálogo estruturado” da Missão de Apoio das Nações Unidas na Líbia, envolvendo as várias facções do país.

Resumindo a PFLL, Fetouri explicou:

“A Frente atua como uma organização guarda-chuva para os ‘Verdes’. Sua relação com Saif al-Islam era de profundo alinhamento ideológico, em vez de uma rígida estrutura de comando burocrática. Dentro da Líbia, a Frente extrai sua força de uma base de apoiadores profundamente enraizada, particularmente entre tribos e comunidades que se sentem marginalizadas pela ordem política pós-2011.”

Antes de seu assassinato, Saif al-Islam era a figura política mais popular da Líbia. Durante a última década do governo de seu pai, Saif foi um defensor da liberalização econômica. Após a guerra da OTAN contra a Líbia em 2011, ele foi preso pelos rebeldes em Zintan por vários anos. Após sua libertação em 2017, tornou-se mais uma vez uma figura política nacional, defendendo o legado de seu pai enquanto criticava tanto o governo reconhecido pela ONU em Trípoli quanto a Câmara dos Representantes. Por isso, foi isolado por ambos os governos líbios. Como Anas El Gomati escreve: “[Saif] permaneceu fora do sistema, tolerado, contido e vigiado, uma lembrança de uma linha alternativa de herança que nunca poderia ser totalmente neutralizada. Ele vivia sob a ameaça persistente de assassinato desde 2017.”

O herdeiro de Gaddafi concorreu à presidência nas eleições de dezembro de 2021; no entanto, a eleição acabou sendo cancelada e adiada várias vezes. Alguns membros do governo líbio afirmaram que a eleição foi cancelada a pedido de Washington para impedir que o popular Saif chegasse ao poder; o governo dos EUA desmentiu essas suspeitas como “teorias da conspiração”.

Saif al-Islam planejava concorrer à eleição presidencial de abril de 2026, que está adiada desde dezembro de 2018; pesquisas não oficiais mostravam que ele contava com um alto nível de apoio popular. Curiosamente, seu assassinato ocorreu uma semana após uma reunião em Paris entre autoridades americanas e representantes de alto escalão dos dois governos da Líbia, e logo após os esforços do governo de Donald Trump para intensificar a exploração do petróleo líbio; naturalmente, isso alimentou especulações sobre as motivações dos assassinos de Saif al-Islam.

Com a morte de Saif, o futuro da PFLL é incerto. “A ausência de Saif al-Islam deixa o movimento em uma encruzilhada crítica”, afirmou Fetouri. “Ela deve agora enfrentar o desafio de fazer a transição de uma entidade impulsionada por uma personalidade para uma resistência mais institucionalizada ou um bloco político, se quiser sobreviver à perda de sua figura central.”

O Movimento Nacional Popular (PNM) é liderado pelo Dr. Mustafa al-Zaidi, um proeminente cirurgião plástico, que conclamou à derrubada do governo de Dabaiba, sediado em Trípoli, em 2022. Ao contrário da PFLL, o PNM estabeleceu laços com o governo de Haftar, no leste da Líbia, onde o PNM também publica seu jornal.

O PNM é mais estruturado do que a PFLL. Apesar de seus recursos limitados – ele depende principalmente de contribuições de apoiadores –, o PNM conseguiu realizar duas conferências anuais consecutivas em solo líbio, ambas em Benghazi. “Isso indica um nível de mobilização popular e gestão interna que o diferencia de facções mais clandestinas ou centradas em personalidades”, observou o Dr. Fetouri. “Enquanto a [PFLL] frequentemente opera por meio de redes simbólicas e clandestinas, o PNM atua como a face mais ‘institucionalizada’ e ‘diplomática’ do movimento, buscando reintegrar a base lealista ao processo político formal.” Essa integração envolveu interações pragmáticas e transacionais com as autoridades líbias, principalmente no leste.

Além de suas negociações com o PNM, Haftar tem jogado regularmente a “carta verde”, ostentando suas conexões com funcionários da era Gaddafi na esperança de se beneficiar do sentimento popular de nostalgia por Gaddafi – o que é bastante irônico, dado que o próprio Haftar desertou da Líbia na década de 1980 e viveu por anos na Virgínia. No entanto, Haftar integrou numerosos oficiais militares e figuras administrativas da era Gaddafi em seu governo e recebeu apoio de figuras proeminentes da época, como Abu Zaid Dorda e Moussa Ibrahim.

Quinze anos após a destruição da Jamahiriya, as autoridades líbias ainda precisam lidar com o legado de Gaddafi. A repressão governamental à Resistência Verde forçou seus membros a se esconderem e a agir em segredo, enquanto alguns, como Haftar, tentam cooptar o legado do ex-líder líbio para seus próprios fins políticos, mesmo permanecendo hostis à ideologia da era Gaddafi.

Em uma ilustrativa demonstração da repressão pós-2011, as autoridades líbias proibiram os apoiadores de Saif al-Islam de enterrar seu líder em Sirte, cidade natal e sede tribal de Muammar Gaddafi. A lembrança pública do outrora candidato à presidência foi suprimida. Como descreve Anas El Gomati: “As recepções de condolências foram bloqueadas. O luto público foi impedido. Saif passou uma década ouvindo onde poderia morar, quem poderia ver e quando poderia falar. Seus assassinos decidiram onde ele poderia morrer. Seus rivais decidiram onde ele poderia ser enterrado. Ninguém foi preso. Ninguém será.”

Apesar das restrições públicas, milhares de apoiadores de Saif se reuniram na cidade de Bani Walid para seu funeral. O Dr. Fetouri estava presente. Ele descreveu dezenas de milhares de líbios reunidos em um “referendo massivo e silencioso”. Embora Bani Walid tenha sido por muito tempo um centro do lealismo a Gaddafi na Líbia, Fetouri enfatizou que “este não é mais um grupo marginal ou isolado; ele se manifestou como uma ampla base social que vê a era pré-2011 como um parâmetro de estabilidade, em contraste com a atual crise prolongada.”

Quanto mais a crise da Líbia se prolongar, quanto mais tempo o país ficar subjugado a potências estrangeiras, mais generalizada se tornará a nostalgia por Gaddafi. Isso não é de se surpreender. Em vez da liberdade e da democracia ao estilo ocidental prometidas, os líbios receberam bombas, guerra civil e corrupção desenfreada.

É altamente improvável que uma fênix verde renasça das cinzas da Líbia e restaure a estabilidade e a soberania do país. No mínimo, porém, a nostalgia por Gaddafi continuará sendo uma força popular com a qual todas as facções na Líbia terão de lidar – por meio de repressão, da cooptação ou de uma combinação das duas.

Africa is a Country O Africa is a Country é um site de opinião e análise sobre e a partir da esquerda africana fundado por Sean Jacobs em 2009.

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