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Conflitos no campo: assassinatos dobram no Brasil em um ano, aponta Pastoral da Terra

Mesmo com queda em ocorrências totais, levantamento aponta crescimento de homicídios, cárcere privado, humilhação e prisões

Raphaela Ribeiro | Edição: Ludmila Pizarro, Bruno Fonseca
Entre os mandantes ou executores dos homicídios no campo, os fazendeiros foram os responsáveis em 77% dos registros de 2025. Dos 26 assassinatos, 20 são atribuídos direta ou indiretamente a esse grupo. (Foto: José Cícero/Agência Pública)
Entre os mandantes ou executores dos homicídios no campo, os fazendeiros foram os responsáveis em 77% dos registros de 2025. Dos 26 assassinatos, 20 são atribuídos direta ou indiretamente a esse grupo. (Foto: José Cícero/Agência Pública)

Os conflitos de terra nas áreas rurais do Brasil foram o palco de 26 assassinatos em 2025 registrados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). O número representa um salto de 100% na comparação com o ano anterior, quando 13 homicídios foram anotados. Os dados fazem parte do relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, lançado pela CPT nesta segunda-feira, 27 de abril, em Brasília. 

A Região Norte foi o local de mais de 50% das mortes violentas, com sete registros no Pará e mais sete em Rondônia. As demais ocorreram na Bahia (4), Amazonas (2), Paraná (2), São Paulo (2), Minas Gerais (1) e Mato Grosso do Sul (1). Entre as pessoas assassinadas no ano passado, os agricultores sem-terra foram os mais atingidos, com 10 vítimas, seguidos por sete indígenas assassinados e quatro posseiros. Também foram mortos um pescador, um assentado, um funcionário público e dois aliados.   

Para Larissa Rodrigues, integrante da Articulação das CPTs da Amazônia, os números revelam “o avanço de um projeto histórico de expansão colonial e capitalista sobre a Amazônia, que continua atingindo e transformando os povos e territórios inteiros em alvos de expropriação e extermínio”.

Rodrigues também atribui esse quadro de mortes ao fortalecimento do “consórcio entre grilagem, crime organizado, setores do Estado, além de setores privados, que atuam juntos para atingir terras públicas e áreas protegidas”.

Entre os mandantes ou executores desses crimes, os fazendeiros foram os responsáveis em 77% dos registros de 2025. Dos 26 assassinatos, 20 são atribuídos direta ou indiretamente a esse grupo. 

Cárcere privado, humilhação e prisões também cresceram

O crescimento em 2025 de outros tipos de violência contra a pessoa no campo é apontado pelo relatório. Se os assassinatos dobraram, as prisões cresceram 56% no ano passado frente ao ano anterior. Já os casos de cárcere privado saltaram de 1 em 2024, para alarmantes 105 em 2025. Cárcere privado ocorre quando a vítima é mantida presa em sua própria residência, muitas das vezes por algum parente, como o pai ou o marido. Os registros de humilhação foram de cinco para 142, número 28 vezes maior, na mesma comparação.

Gustavo Arruda, documentalista do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc/CPT), explica que “a alta dos casos de humilhação e cárcere, por exemplo, se dão pela ação arbitrária da polícia militar do estado de Rondônia, que em novembro de 2025, no contexto da operação Godos, interrompeu uma reunião pública com cerca de 100 famílias sem terra, despejadas de seus acampamentos, e servidores do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar)”.

Ele ainda acrescenta que “o aumento dos casos de prisões também se dá por conta de ações pontuais da força do Estado sob comunidades: neste caso, é reflexo da polícia do estado da Bahia, que prendeu cerca de 24 povos originários da TI (Terra Indígena) Barra Velha; e da polícia militar de Rondônia, que, também no ano passado, realizou diversas operações de perseguição a integrantes da Liga dos Camponeses Pobres (LCP)”.

Considerando todas as categorias de violência contra a pessoa contabilizadas pela CPT, os números de 2025 melhoraram frente ao ano anterior. O relatório mostra que o número de vítimas caiu, de 1.181 em 2024, para 581 no ano passado, uma diminuição de cerca de 50%. O número de mulheres vítimas de violência no campo também recuou, aponta a CPT. Em 2024 elas representavam 18,9% do total e em 2025 foram cerca de 10,5%. Os números, no entanto, podem conter subnotificações, uma vez que o gênero das vítimas nem sempre é divulgado. 

O relatório também destaca que no ano passado ocorreram dois massacres. A CPT considera um massacre sempre que ocorre, em uma mesma ocasião, três ou mais mortes. Em junho de 2025, na zona rural de Vilhena, município de Rondônia, três pessoas foram mortas em um possível conflito envolvendo a posse da propriedade onde as vítimas foram encontradas. Já no Pará, no mês de julho do mesmo ano, três trabalhadores do movimento sem-terra foram mortos no assentamento Coco II, conforme citado em artigo da CPT. Os seis assassinatos ocorridos em chacinas representam 23% do total registrado no relatório.

Conflito por terra ainda é principal razão da violência no campo

As disputas por terra seguem como o principal vetor de violência agrária no país. Segundo o relatório da CPT, 75% de todos os registros de conflito em 2025 envolviam violências por terra. Foram 1.286 ocorrências, sendo 1.186 sobre violência pela ocupação e a posse da terra e 100 correspondentes a ações de resistência, como acampamentos, ocupações e retomadas. 

O relatório somou 1.593 ocorrências de conflitos no campo em 2025 no total, uma queda de 28% em relação a 2024, que teve 1.593 registros. A queda, no entanto, não representa uma diminuição da violência, mas um cenário de estabilidade. Os números do ano passado são maiores apenas dos coletados em 2017 e 2018, quando foram registrados 1.531 e 1.570 conflitos, respectivamente.  

A categoria com o segundo maior número de registros foi a de conflitos trabalhistas. No ano de 2025, foram resgatadas no campo 1.991 pessoas em condições análogas à escravidão, crescimento de 22,7% na comparação com o ano retrasado. Mato Grosso foi o estado com maior número de pessoas resgatadas em 2025: 606.

Um dos principais motivos desse destaque foi o resgate de 586 trabalhadores e trabalhadoras em uma usina de etanol, na cidade matogrossense de Porto Alegre do Norte. Aliciados no Norte e no Nordeste do país, os trabalhadores dormiam em quartos superlotados e sofriam com má alimentação, falta de água e energia. 

Minas Gerais foi em 2025 o segundo estado com maior número de resgates de trabalho análogo ao escravo em 2025, contabilizando 303 pessoas. Na sequência estão Goiás (220), Bahia (171), São Paulo (142) e Maranhão (135). 

Agência Pública Fundada em 2011 por repórteres mulheres, a Pública é a primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do Brasil. Todas as nossas reportagens são feitas com base na rigorosa apuração dos fatos e têm como princípio a defesa intransigente dos direitos humanos.

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