Naquela manhã, na conferência, todos os palestrantes falaram sobre a necessidade de proteger o legado de Nuremberg e os tão celebrados “Princípios de Nuremberg”. Em determinado momento, em um esforço para dar vida a esses princípios, um palestrante gesticulou em direção ao banco dos réus onde os acusados haviam se sentado 80 anos atrás. Isso, pelo menos, poderia ter sido evitado.
Éramos convidados a lembrar o passado, mas a esquecer o presente. Não pude deixar de pensar em Discursos sobre o Colonialismo, de Aimé Césaire: “O que a Europa não consegue perdoar a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, é… o fato de ele ter aplicado procedimentos colonialistas europeus que, até então, haviam sido reservados exclusivamente para… a África.”
No dia 21 de novembro de 1945, o promotor norte-americano e juiz da Suprema Corte Robert Jackson proferiu seu discurso de abertura nos Julgamentos de Crimes de Guerra de Nuremberg. Ele anunciou que os Aliados estavam “contendo a mão da vingança” ao dar início ao julgamento de 22 líderes nazistas por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes contra a paz. O julgamento terminou pouco mais de um ano depois com a condenação de 19 réus, 12 dos quais foram sentenciados à morte. Mas apenas dez dos nazistas foram enforcados, seus corpos cremados no Crematório Ostfriedhof, em Munique, e as cinzas espalhadas no rio Isar. Um dos acusados, o vice de Hitler, Martin Bormann, foi julgado e condenado à distância (e, por fim, declarado morto por um tribunal de Frankfurt em 1973). O mais famoso dos réus, Hermann Goering, tirou a própria vida em sua cela na noite anterior à data marcada para sua execução. 80 anos depois, o mesmo Goering, interpretado por Russell Crowe, me encara desafiadoramente de cartazes espalhados por Londres anunciando Nuremberg, um novo filme de Hollywood sobre o julgamento.
Às vezes esquecemos, em meio a todo esse interesse, que o julgamento poderia nunca ter acontecido. Nenhum dos três líderes aliados da época era inicialmente a favor de um processo judicial. Stálin era notoriamente favorável a outras formas de liquidação, Churchill inclinava-se para tribunais marciais sumários e Roosevelt temia que alguns réus pudessem escapar da justiça por uma “questão técnica” (três dos principais nazistas foram, de fato, absolvidos). Mesmo ainda em 1944, Roosevelt contemplava seriamente o plano de Morgenthau, seu secretário do Tesouro, para a punição coletiva do povo alemão por meio da desindustrialização permanente e da “pastoralização” da própria Alemanha.
Agora, porém, apesar de toda a discussão sobre as fraquezas do direito internacional, é difícil imaginar uma resposta à guerra agressiva sem fazer referência à possibilidade de um julgamento dos líderes culpados (pense nas acusações contra Netanyahu e Putin ou nos apelos anteriores para enviar Blair e Bush a Haia). O direito internacional elaborado — talvez até inventado — em Nuremberg tornou-se a linguagem que todos falamos quando falamos sobre guerra e paz. Como discutiríamos Gaza ou a Ucrânia sem recorrer a esse jargão jurídico exótico? Todos são advogados internacionais agora, embora apenas alguns de nós sejamos credenciados como tal.
Em outubro deste ano, fui convidado a Nuremberg para uma série de eventos em comemoração a esse “Julgamento do Século” e para discursar na Sala de Audiências 600, onde, há 80 anos, os líderes nazistas acusados se sentaram em condições precárias.
Na noite da minha chegada, o Governo da Baviera ofereceu uma recepção na Rathaus (a Antiga Prefeitura), de onde Hitler pela primeira vez havia se dirigido aos seus seguidores, em 1933. Um dignitário fez um discurso enfatizando a importância vital da memória. As palavras “genocídio” e “antissemitismo” flutuavam no ar. Todos falavam da guerra, do Holocausto e da própria história sombria de Nuremberg. Certos assuntos não foram mencionados. Havia uma tensão inconfundível no ar. Mais tarde, soube que um pequeno grupo de mulheres usando hijabs havia saído da sala durante um dos discursos.
Minha viagem pela “velha Europa” havia começado algumas horas antes, quando a elegante conexão do trem Eurostar para Bruxelas deu lugar à outrora tão elogiada empresa ferroviária Deutsche Bahn. Todos com quem conversei reclamavam dos atrasos e da falta de confiabilidade após décadas de subfinanciamento.
Como era de se esperar, o trem de Frankfurt para Nuremberg — com seu interior surrado, da era da British Rail — foi cancelado, e seu substituto estava lotado de passageiros que há muito sofrem com o transporte, muitos deles em pé.
À medida que me aproximava do que outrora fora o coração da Alemanha nazista, o trem diminuía a velocidade ou parava regularmente de forma inexplicável: será mesmo que os alemães são agora os únicos europeus ocidentais que não conseguem fazer os trens circularem no horário? O clima dominante parecia ser de resignação. Alguns encolhiam os ombros, com um ar de “bem, o que se pode fazer?”. Os vagões estavam cheios de militares. Jovens soldados da infantaria tatuados conversavam sobre suas designações nos corredores, e oficiais da marinha ficavam nas plataformas fumando cigarros. Pelas janelas do trem, avistei, junto com campos de painéis solares, um ou outro veículo do exército. Nesses momentos, a Alemanha parecia uma nação se preparando — um tanto displicentemente — para uma guerra ainda em algum lugar distante, no horizonte. Eu me peguei imaginando como esses soldados de aparência juvenil se sairiam em um combate contra um drone russo.
De volta ao evento, os discursos continuaram, intercalados por apresentações de Brahms a cargo de um trio japonês-alemão. Outro ministro levantou-se para falar sobre história. Em minhas visitas anteriores a Nuremberg, o passado parecia coisa do passado; os nazistas, ogros da história, costumavam ser evocados como um aviso para que permanecêssemos vigilantes. Aproveitando sua outra herança, Nuremberg agora se autodenomina a “Cidade dos Brinquedos”, mas isso é uma estratégia de relações públicas muito otimista; ela continua sendo um lugar assombrado por guerras, passadas e presentes.
Assim, no discurso do ministro (e em muitos discursos na Sala do Tribunal de Nuremberg mais tarde naquele fim de semana), houve referências frequentes à ascensão do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) e à necessidade da democracia liberal “lutar” contra forças antidemocráticas (o que JD Vance teria achado disso?). Disseram-nos que os “Princípios de Nuremberg” precisavam ser defendidos ou certamente pereceríamos. Esses políticos alemães estavam firmes em seu compromisso com os valores europeus decentes e condenavam os inimigos da democracia. Ao olhar ao redor da sala, era difícil imaginar qualquer um desses bávaros de classe média votando no AfD. Seria assim que Nuremberg se parecia em 1929, antes da ascensão de Hitler ao poder?
Estávamos sendo convidados a lembrar o passado, mas a esquecer o presente. Não pude deixar de pensar em Discursos sobre o Colonialismo, de Aimé Césaire (publicado em 1950): “O que a Europa não consegue perdoar a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, é… o fato de ele ter aplicado procedimentos colonialistas europeus que até então haviam sido reservados exclusivamente aos árabes da Argélia… e aos negros da África.”
A própria Sala 600 talvez não tenha o impacto histórico mundial das fotos de 1945. Reformada em 1961, ela atualmente combina o funcionalismo alemão com o anonimato de uma sala de tribunal simulado (embora um enorme crucifixo esteja acima do banco dos juízes, colocado ali por um presidente do Tribunal Regional Superior que esperava “exorcizar” a sala de sua história sombria). E, no entanto, a história se infiltra. A sala é uma cápsula da história europeia do século XX. Foi aqui, no final da década de 1920, que os tribunais de Weimar deram aos principais nazistas sentenças brandas por agitação (uma clemência lamentada pelos alemães e compartilhada por um americano com quem conversei quando ele falou sobre os litígios da era Biden em relação a Donald Trump).
Foi aqui, em 1942, que Leo Katzenberger, um empresário judeu, foi condenado à morte por “profanação sexual e racial”. Uma das sinistras “conclusões” preliminares do Tribunal foi que Katzenberger era “totalmente judeu”. E foi aqui, alguns anos após o julgamento da liderança nazista, que os americanos convocaram 12 julgamentos com o objetivo de punir aqueles que estavam mais abaixo na hierarquia das elites nazistas. Um desses processos, “O Julgamento da Justiça”, contou com juristas e advogados que haviam aplicado a Lei Nacional-Socialista, e foi posteriormente filmado em Hollywood como O Julgamento de Nuremberg, com Spencer Tracy e Burt Lancaster nos papéis principais.
A escritora Rebecca West, que cobriu o julgamento (às vezes relatado em jargão jurídico enfadonho como Os Estados Unidos et al. v. Göring et al.), e que supostamente teve um caso com o juiz americano Francis Biddle, foi certa vez questionada sobre as coisas mais marcantes que havia visto no Julgamento de Nuremberg. “Bem”, disse ela, “havia uma garota cultivando ciclames em uma estufa improvisada do lado de fora do tribunal e um homem se locomovendo com uma perna só”.
Nesse espírito, e com a intenção de sentir a vida plena do lugar, na manhã de domingo do evento final no tribunal, caminhei até o Palácio da Justiça pela avenida “Fürther Strasse” (por onde, historicamente, judeus expulsos da cidade velha viajavam da vizinha Fürth para se dedicar ao comércio). Ao longo do caminho, havia pequenos grupos de jovens afro-alemães reunidos de madrugada; havia jovens caucasianos cambaleando para casa, taciturnos e barulhentos após uma grande noite de sábado. A certa altura, vi uma menina judia atravessando a rua envolta em uma bandeira israelense. Do lado de fora do tribunal, uma borracharia que fervilhava de atividade em minhas visitas anteriores havia sido substituída por um novo (e vazio) centro de memória dos julgamentos. O cemitério judeu nas proximidades ainda estava cercado por arame farpado.
Naquela manhã, na conferência, todos os palestrantes falaram sobre a necessidade de proteger o legado de Nuremberg e os tão celebrados “Princípios de Nuremberg”. Em determinado momento, em um esforço para dar vida a esses princípios, um palestrante gesticulou em direção ao banco dos réus onde os acusados haviam se sentado 80 anos atrás. Isso, pelo menos, poderia ter sido evitado. Os fantasmas dos réus sempre estiveram presentes na Sala 600. Agora estão por toda parte – na postura pretensiosa dos secretários de defesa, na arrogância arquitetônica dos presidentes, nos maneirismos emprestados dos populistas.
Não se poderia deixar de pensar que estávamos coletivamente experimentando uma nostalgia pelas distribuições morais simples de 1945, como se, ao manter os nazistas vivos ou enforcá-los repetidamente, pudéssemos também, de alguma forma, manter vivo o direito internacional, ou sua encarnação atual, a “ordem global baseada em regras”.
Mas todo monumento é um monumento ao esquecimento. Ali estava a história monumental de Nietzsche, destruindo tudo em seu caminho. Lembrei-me então de contabilizar o número de referências feitas pelos ministros da Baviera na Rathaus à destruição, transmitida ao vivo pela TV, dos palestinos de Gaza, um grupo com uma alegação plausível de ter sofrido genocídio, para adotar a formulação estrangulada da Corte Internacional de Justiça.
Não houve nenhuma.
(*) Tradução de Raul Chiliani



































