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O jogo por trás do jogo: as bets e o futebol

O problema das bets começa antes dos jogos manipulados: ele está na precarização que organiza o futebol global

Kenyua Gachecheh
As apostas têm sucesso no futebol não apenas porque as pessoas gostam de risco, mas também porque o futebol já funciona como um mundo de esperança em massa e de chances remotas que vêm acompanhadas de proteções trabalhistas fracas, pouca regulamentação nacional, estruturas de apoio a amadores incompletas, infraestrutura limitada e oportunidades profissionais desiguais. (Foto: PxHere)
As apostas têm sucesso no futebol não apenas porque as pessoas gostam de risco, mas também porque o futebol já funciona como um mundo de esperança em massa e de chances remotas que vêm acompanhadas de proteções trabalhistas fracas, pouca regulamentação nacional, estruturas de apoio a amadores incompletas, infraestrutura limitada e oportunidades profissionais desiguais. (Foto: PxHere)

Em grande parte dos trabalhos investigativos sobre jogos de azar, apostas e futebol, a narrativa mais óbvia costuma ser apresentada de quatro maneiras: jogadores, árbitros e as instituições responsáveis pelo desenvolvimento do esporte estão corrompidos; as apostas destroem a juventude; as empresas de apostas exploram as pessoas pobres; a sociedade perdeu seus valores morais.

Nenhuma dessas afirmações está errada, mas, com o tempo, elas parecem gerar mais indignação do que compreensão sobre como o futebol se torna vulnerável às apostas.

As apostas, na verdade, não criam do zero a cultura de risco do futebol. Elas encontram e se inserem em um jogo já construído, e que já treina milhões de pessoas para se tornarem fanáticas por viver em meio a probabilidades remotas, progressão incerta, visibilidade seletiva e esperança carregada de emoção.

Junto com muitos outros nas categorias de base do esporte, todo fim de semana assisto futebol e peço aos jovens que façam uma aposta socialmente aceitável e determinante para a vida: arriscar tempo, identidade e, muitas vezes, educação por uma chance muito remota de se tornarem jogadores profissionais. O futebol convida centenas de milhões de pessoas para seu universo emocional e cheio de aspirações, ao mesmo tempo em que oferece resultados genuinamente profissionais a apenas uma fração microscópica delas. Essa aspiração de risco extremo é uma característica fundamental e parte da história do esporte.

A própria análise do ambiente do futebol amador da FIFA sugere uma população global de futebol de aproximadamente 28 milhões de jogadores registrados, 75 milhões de jogadores competitivos não registrados e 300 milhões de jogadores casuais. O Relatório do Futebol Profissional da FIFA mostra que a camada profissional global é composta por apenas 128.694 jogadores profissionais em 3.986 clubes profissionais em 135 países, com 71 países relatando não ter nenhum jogador profissional.

Isso significa que o universo de ambições do futebol é muito maior do que os caminhos e estruturas formais pelos quais o esporte é governado e administrado. Para muitos jovens jogadores, o esporte se torna uma estrutura de grandes desafios antes mesmo que a indústria de apostas entre em cena e se organize para lucrar com eles.

Isso é parte do que torna o futebol queniano tão revelador. Aqui, o futebol é socialmente enorme, mas fraco em termos de desenvolvimento. O esporte está presente em toda parte: em escolas, conjuntos habitacionais, vilarejos, grupos do WhatsApp, bilhetes de apostas, conversas nos ônibus, transmissões de TV e nos corpos jovens que carregam uma ambição muito maior do que as estruturas destinadas a comportá-la.

O futebol é uma das coisas mais acessíveis emocionalmente na vida pública, e o celular é a nova arquibancada do futebol. Por meio dele, o jogo ultrapassou o campo e o estádio, migrou pela tela para onde agora também vive, nas plataformas de mídia social, carteiras de apostas, avisos de depósito, páginas de odds, capturas de tela de acumuladores e aplicativos de empréstimo. Ao mesmo tempo, caminhos estáveis na vida real por meio do jogo são raros, desiguais e fracamente protegidos.

A análise do ambiente do futebol amador mostra ainda que apenas 73% das federações membros possuem federações regionais, 74% colaboram com a confederação em matéria de desenvolvimento, 20% dos governos têm planos para melhorar a saúde e o bem-estar por meio do futebol amador, e 76% das federações membros não mantêm boas conexões com organizações privadas. O relatório também indica que 84% dos países relatam que os governos são responsáveis pela infraestrutura do futebol amador, enquanto apenas 20% dos governos têm planos ativos para usar o futebol amador para melhorar a saúde e o bem-estar.

Em conjunto, isso sugere que se espera que o futebol, dado seu capital cultural, tenha um peso social significativo sem uma estrutura de desenvolvimento público correspondentemente forte ao seu redor. Se os sistemas públicos são fracos nesses aspectos, outros atores entram em cena.

Estruturas de desenvolvimento público fracas também tendem a produzir proteção trabalhista fraca dentro do futebol. Aqui, o Relatório do Futebol Profissional continua a ser útil: globalmente, apenas 69% das federações membros têm um contrato padrão, 50% têm uma associação de jogadores, 41% têm um requisito de salário mínimo e apenas 19% relatam um acordo coletivo de trabalho.

Na África especificamente, o panorama é mais frágil. O relatório afirma que o registro atual mostra 8.485 jogadores profissionais nos países que reportam à Confederação Africana de Futebol (CAF), sendo 92% dos jogadores formados localmente. Mas apenas 50% das federações membros da CAF possuem um contrato padrão, 46% têm uma associação de jogadores, 28% têm um salário mínimo e apenas 4% possuem acordos coletivos de trabalho.

Isso é importante, pois significa que a história das apostas e da manipulação de resultados não deve ser contada apenas como uma história moral sobre atores mal-intencionados. Os próprios dados da FIFA ajudam a mostrar que muitos ambientes de trabalho no futebol são mal protegidos, e as apostas se aproveitam mais facilmente onde o trabalho no futebol é menos protegido.

O jogador jovem, o jogador mal remunerado, o jogador não remunerado, o técnico sem estrutura, o árbitro sem proteção, o clube sem estabilidade — essas não são questões secundárias ao problema das apostas no futebol. Elas fazem parte do ambiente que torna o problema possível.

A FIFA também mostra que, globalmente, 55% das competições de primeira linha têm um patrocínio principal, e entre os três principais setores, as empresas de apostas ocupam o segundo lugar, com 18%, atrás das telecomunicações, com 26%, e à frente dos bancos, com 14%. O panorama da CAF mostra que 56% das competições de primeira linha têm um patrocinador principal, com as empresas de apostas em segundo lugar, com 12%, atrás das telecomunicações e à frente das bebidas alcoólicas.

O patrocínio de 10 anos da SportPesa à Premier League do Quênia, no valor de 1 bilhão de KES (8 milhões de dólares), é um exemplo local do argumento apresentado pela própria análise comparativa global da FIFA: as apostas não são uma categoria comercial marginal que paira à margem do esporte. Já são um dos principais setores de patrocinadores nas competições de futebol de primeira divisão e um ator-chave na lógica operacional e no marketing do esporte.

O fato de que, na CAF, a proporção de jogadores formados localmente é de 92% mostra claramente que o futebol ainda é predominantemente local em termos de quem o pratica. No entanto, o esporte raramente é local em termos de quem lucra com ele. O problema é o grau em que ele é cada vez mais moldado por sistemas comerciais que não são locais e que o monetizam de maneiras extrativistas, externas ou indiferentes ao desenvolvimento.

A lacuna entre a retórica do desenvolvimento e a realidade comercial também é destacada por uma das estatísticas mais reveladoras do Relatório do Futebol Profissional: regulamentações especificamente concebidas para apoiar jogadores formados localmente existem em apenas 27% dos países globalmente. Na CAF, apenas 11% das federações membros possuem tais regulamentações, mas as apostas já são um dos principais setores patrocinadores.

Em outras palavras, muitos sistemas de futebol nem mesmo são fortemente regulamentados no que diz respeito ao desenvolvimento de jogadores formados localmente. Nesses tipos de contextos e ambientes, o futebol facilmente se torna mais organizado em torno de competições, patrocínios, transferências e captação de público do que em torno do desenvolvimento real dos jogadores.

Juntamente com essa falta de vontade e estruturas para o desenvolvimento público, os relatórios também destacam como o futebol, apesar de ser tão importante socialmente, é ao mesmo tempo carente de infraestrutura física. Com apenas 59 campos por 1 milhão de pessoas em todo o mundo, o esporte vem desenvolvendo uma participação em massa com uma infraestrutura relativamente escassa. Assim, as apostas surgem tanto como tentação quanto como um dos poucos sistemas de monetização altamente organizados ligados ao esporte. O ecossistema de desenvolvimento é subdesenvolvido, enquanto os sistemas, plataformas e modelos de negócios que monetizam a atenção não o são.

É assim que o futebol acaba se configurando quando o desenvolvimento não foi construído com força suficiente para resistir às forças extrativistas. Não se trata apenas do fato de que as apostas são prejudiciais; trata-se do fato de que o esporte é fraco onde deveria ser forte.

As apostas têm sucesso no futebol não apenas porque as pessoas gostam de risco, mas também porque o futebol já funciona como um mundo de esperança em massa e de chances remotas que vêm acompanhadas de proteções trabalhistas fracas, pouca regulamentação nacional, estruturas de apoio a amadores incompletas, infraestrutura limitada e oportunidades profissionais desiguais.

O universo cultural e econômico do esporte é enorme, mas suas estruturas de desenvolvimento e garantias não são. As apostas entram nessa lacuna, estudam-na e aprendem como lucrar com ela.

Africa is a Country O Africa is a Country é um site de opinião e análise sobre e a partir da esquerda africana fundado por Sean Jacobs em 2009.

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