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Ser policial em Gaza: a luta do Hamas contra as milícias armadas por Israel

O Hamas enfrenta uma guerra paralela em Gaza: impedir que milícias apoiadas por Israel fomentem o caos e imponham uma nova autoridade

Tareq S. Hajjaj
Membros das forças policiais de Gaza durante um exercício em dezembro de 2012. (Foto: Hadi Mohammad / FARS)
Membros das forças policiais de Gaza durante um exercício em dezembro de 2012. (Foto: Hadi Mohammad / FARS)

Na segunda-feira, 20 de abril, um comboio de veículos atravessou Khan Younis, no sul de Gaza, transportando homens armados e mascarados. Eles pertenciam a uma milícia apoiada por Israel que costuma operar na região de Gaza sob controle militar israelense, a leste da chamada “Linha Amarela”, que divide Gaza praticamente ao meio. A presença deles na área de Khan Younis sob controle do Hamas era uma provocação direta.

Em um vídeo amplamente divulgado nas redes sociais, um dos homens armados saiu do veículo e se dirigiu à multidão. “O Hamas está acabado. Nós somos o povo, e o povo somos nós; vamos proteger vocês do terrorismo do Hamas.”

A incursão não passou em branco. Forças de segurança do Hamas apareceram e dispararam granadas e metralhadoras contra os veículos, enquanto confrontos intensos eclodiam, de acordo com vídeos divulgados nas redes sociais. Um canal do Telegram afiliado ao Hamas chamado Radea, que surgiu em 2025 para rastrear e perseguir colaboracionistas israelenses, descreveu a resposta à incursão como uma emboscada.

“Quando chegou o momento certo, os combatentes do Radea abriram fogo contra os veículos dos colaboracionistas, atingindo diretamente o primeiro veículo e, em seguida, mirando o segundo e o terceiro, deixando mortos e feridos, enquanto os demais fugiam sob a cobertura de aeronaves inimigas”, afirmou o canal. “Israel não vai proteger vocês. Nossos combatentes estão à espera de vocês.”

A incursão ocorreu um dia depois que Ghassan al-Duheini, chefe do grupo armado por Israel “Forças Populares”,  anunciou em sua página do Facebook o lançamento do que chamou de “Operação Dissuadir os Agressores”. As Forças Populares eram anteriormente lideradas pelo chefe de gangue e colaboracionista israelense Yasser Abu Shabab, antes dele ter sido supostamente morto por seus próprios associados em dezembro passado. Autoridades do governo do Hamas disseram anteriormente ao Mondoweiss que o grupo é a maior, mais bem equipada e mais perigosa milícia operando em Gaza.

Hoje, a maioria desses grupos opera nos setores orientais de Gaza que estão sob controle militar israelense. Entre eles estão as Forças Populares de al-Duheini em Rafah e Khan Younis, a “Força de Ataque Antiterrorista” de Hussam al-Astal e as chamadas “Forças de Defesa Popular”, lideradas por Rami Hilles no bairro de Shuja’iyya, na cidade de Gaza. Hilles e Astal seriam, ambos, ex-funcionários das forças de segurança da Autoridade Palestina.

A existência desses grupos faz parte de uma estratégia israelense mais ampla que os oficiais de segurança de Gaza afirmam estar enfrentando desde o início da guerra: o ataque sistemático a policiais e pessoal de segurança para criar um vácuo que as milícias possam preencher.

Mondoweiss conversou com vários líderes de segurança do Hamas e policiais em Gaza sobre como eles estão enfrentando a fase mais recente da campanha israelense em andamento para atacar seu pessoal, fomentar o caos e fortalecer a posição das milícias.

“Não é contra o Hamas”

Durante meses, as forças de segurança do Hamas vêm trabalhando para controlar a circulação através da Linha Amarela que separa a zona controlada por Israel na Faixa de Gaza e a outra parte do território ainda sob o controle do Hamas. O objetivo é monitorar e restringir os pontos de entrada pelos quais colaboracionistas poderiam se infiltrar nos campos de refugiados, mas Israel tem atacado repetidamente as posições da polícia do Hamas.

Abu Abdullah (nome fictício), um funcionário do governo do Hamas em Khan Younis que falou ao Mondoweiss sob condição de anonimato, disse que os ataques contra pessoal uniformizado forçaram grande parte da força policial a trabalhar disfarçada. Mas isso nem sempre é possível. “Quando estamos em hospitais e campos de deslocados, vestimos nossos uniformes para dar às pessoas uma sensação de segurança e para enviar a mensagem de que estamos aqui para protegê-las”, explicou ele. “Mas a ocupação nos tem como alvo em todos os momentos e lugares, independentemente do ambiente ou dos danos colaterais.”

Em um desses casos, na sexta-feira, 24 de abril, um ataque aéreo israelense teve como alvo um posto policial em Khan Younis, matando quatro policiais e quatro civis que por acaso estavam nas proximidades.

No dia seguinte, as facções islâmicas e nacionais em Gaza realizaram uma coletiva de imprensa conjunta em Khan Younis para denunciar formalmente os ataques contra as forças policiais, classificando-os como uma tentativa de incitar o caos e desestabilizar a segurança interna.

“Israel quer que os palestinos se matem uns aos outros e roubem uns aos outros. Quer destruir a segurança em nossa sociedade para poder nos controlar”, disse Jehad al-Qatatti, membro do Comitê Superior das facções nacionais e islâmicas, ao Mondoweiss. “Os ataques à polícia têm como objetivo fragmentar a sociedade e entregar o controle às milícias. Não permitiremos isso.”

Abu Abdallah ecoou um sentimento semelhante. “Os ataques não têm como alvo o Hamas – têm como alvo qualquer esforço feito para proteger civis em Gaza”, disse ele. “Eles buscam impedir que qualquer entidade palestina estabeleça sua autoridade sobre a Faixa.”

Abu Hamza, capitão na cidade de Gaza, disse que os ataques israelenses têm como alvo frequente o pessoal recém-nomeado – aqueles que são mais novos, menos experientes e mais visíveis. Ele explicou que as fileiras das forças policiais de Gaza foram reduzidas devido ao ataques israelenses, mas que milhares de novos policiais continuaram a ser recrutados ao longo da guerra. “Alguns deles são inexperientes e estão ocupando temporariamente esses cargos para compensar as perdas”, disse Abu Hamza. Para esses cargos, acrescentou, são priorizados jovens com ficha limpa e sem histórico conhecido de espionagem israelense.

Apesar das baixas, o Hamas afirma que sua estrutura de comando não entrou em colapso. “Estabelecemos procedimentos que são implementados sempre que algum líder, policial ou administrador é morto: indivíduos qualificados assumem as responsabilidades imediatamente. Cada cargo tem vários adjuntos, e as funções são transferidas sucessivamente”, disse Abu Hamza. “Trata-se de um arranjo de emergência imposto pelas condições da guerra para evitar o colapso do sistema de segurança e policiamento.”

A guerra contra a polícia de Gaza

As raízes do confronto em curso entre o Hamas e as milícias remontam aos estágios iniciais do genocídio em Gaza. Em junho de 2025, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu confirmou que havia “ativado” clãs em Gaza opostos ao governo do Hamas. Esses grupos foram usados pelas forças armadas israelenses para conduzir operações de sequestro e assassinato e para saquear comboios de ajuda durante a guerra e a fome que se seguiu.

Em resposta, o Ministério do Interior de Gaza formou, no início de 2024, uma unidade especial à paisana chamada Força Arrow, encarregada de caçar saqueadores e colaboracionistas que operavam sob proteção israelense. Em uma investigação do Mondoweiss de junho de 2025 sobre as operações da unidade, um membro da Arrow descreveu ter ido a um armazém de alimentos na cidade de Gaza onde ladrões armados tentavam roubar ajuda humanitária, apenas para ser bombardeado por um drone israelense ao chegar. “Quando a Força Arrow chegou, os ladrões se retiraram, e a Força foi alvejada”, disse ele. “Então, outra unidade foi enviada ao local para apoiar a Força, mas também foi bombardeada pela ocupação.”

A Unidade Arrow foi reativada depois que Israel retomou seus ataques em março de 2025 e as milícias ressurgiram sob cobertura israelense, mas o ataque às milícias armadas por Israel realmente ganhou força depois que o Hamas lançou uma campanha de segurança abrangente para caçá-las quando o cessar-fogo com Israel entrou em vigor em outubro passado.

Mas os grupos armados continuaram recebendo apoio israelense, enquanto as forças do Hamas continuavam sendo alvo de ataques israelenses, apesar do “cessar-fogo”. Desde então, o exército israelense tem tentado intervir sistematicamente sempre que as forças de segurança do Hamas ficam expostas no terreno, enviando drones para atacá-las. E as milícias estão se tornando mais agressivas ao confrontar a presença do Hamas, o que se manifestou mais recentemente na Operação “Deter os Agressores”, de Ghassan al-Duheini.

“Nos despedimos de nossas famílias todos os dias”

Hoje, a situação de segurança está “no limite”, como disse um funcionário do Ministério do Interior, Abu Ahmad. Ele descreveu como é o trabalho diário atualmente: policiais circulam pelas ruas em roupas civis, portando pistolas de forma velada. Membros das Brigadas Qassam, o braço militar do Hamas, fazem o mesmo. “O plano envolve turnos de vigilância tanto pela manhã quanto à noite. Todos circulam armados pelas ruas de Gaza como precaução”, disse ele.

Abu Ahmad relatou uma tentativa de sequestro contra um de seus colegas nas Brigadas Qassam no início desta semana. Membros da milícia tentaram raptá-lo em uma área densamente povoada no centro da cidade de Gaza. Ele sobreviveu porque estava armado e seus colegas estavam por perto.

O que está em jogo não é algo abstrato. “Nos despedimos de nossas famílias todos os dias quando vamos trabalhar”, disse Abu Ahmad. “Sabemos que, se partirmos, talvez não voltemos. Nos consideramos mártires em espera.”

A inteligência israelense, disse ele, envia ameaças regulares por meio de mensagens de texto e ligações de números desconhecidos, alertando-os de que eles e suas famílias são alvos. “Mas nos recusamos a responder a essas mensagens sob qualquer pressão e continuamos a cumprir nosso dever nacional e humanitário.”

Esses ataques enfraqueceram a segurança e o controle policial sobre as Zonas Verdes e, às vezes, forçaram uma retirada. Eles também reduziram a capacidade da polícia de perseguir criminosos, fazer cumprir a lei e executar ordens de detenção, uma realidade com a qual vivem desde o início da guerra. Mas todos com quem o Mondoweiss conversou insistiram em continuar sem recuar.

Desde outubro de 2023, pelo menos 770 policiais foram mortos em serviço em toda a Faixa de Gaza, de acordo com dados do governo do Hamas. Entre os mortos estão policiais mortos em postos de controle, em postos policiais e nas ruas, enquanto trabalhavam à paisana. Em quase todos os casos, diz o Hamas, os ataques ocorreram quando os policiais estavam ativamente perseguindo ou se posicionando contra as milícias.

“Há uma mensagem clara de que nossa presença como forças de segurança e polícia é um alvo para Israel”, disse Abu Ahmad. Os ataques são sinais, afirmou ele, destinados a impedir que as forças de segurança afirmem seu controle e mantenham a ordem. Esta é uma nova etapa na tentativa mais ampla de Israel de acabar com o domínio do Hamas sobre Gaza e forçar o desarmamento.

“Recebemos inúmeras ligações e ameaças de morte contra nossas famílias, mas nos recusamos a ceder a essas pressões”, disse Abu Ahmad. “Nosso dever é garantir a segurança, e em toda guerra, muitos membros da polícia e das forças de segurança são mortos. Esse é o nosso trabalho, e não vamos recuar. A ocupação não conseguirá impor seu controle nem quebrar nossa vontade.”

(*) Tradução de Raul Chiliani

Mondoweiss O Mondoweiss é um site independente que fornece informações aos leitores sobre os acontecimentos em Israel/Palestina e sobre a política externa dos EUA. O site fornece notícias e análises sobre a luta dos palestinos pelos direitos humanos que não estão disponíveis na mídia convencional.

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