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O surto de hantavírus revela um sistema doente

O surto de hantavírus em um navio de cruzeiro expõe como cortes na saúde pública ampliam riscos em um mundo hiperconectado

Gary Wilson
O hantavírus Andes pode se espalhar por meio de contato próximo e prolongado com uma pessoa infectada — um membro da família, cuidador ou parceiro íntimo — de uma forma que a maioria dos hantavírus não consegue. Ele pode matar de 30% a 40% das pessoas infectadas. (Foto: Terrance D. Rhodes / U.S. Army)
O hantavírus Andes pode se espalhar por meio de contato próximo e prolongado com uma pessoa infectada — um membro da família, cuidador ou parceiro íntimo — de uma forma que a maioria dos hantavírus não consegue. Ele pode matar de 30% a 40% das pessoas infectadas. (Foto: Terrance D. Rhodes / U.S. Army)

Três passageiros morreram após um surto do hantavírus dos Andes no navio de cruzeiro MV Hondius, de bandeira holandesa, o primeiro surto conhecido de hantavírus associado a um navio de cruzeiro.

Oito casos foram registrados até o momento: seis infecções pelo hantavírus dos Andes confirmadas em laboratório e dois casos prováveis. Os passageiros deixaram o navio antes que as autoridades reconhecessem o surto e voltaram para suas casas em vários países, incluindo os Estados Unidos. O navio chegou ao porto de Granadilla, em Tenerife, no dia 10 de maio.

Questionado sobre o surto em 7 de maio, Trump disse aos repórteres: “Esperamos que esteja, em grande parte, sob controle. Temos muitas pessoas, muitas pessoas excelentes, estudando o caso.” Questionado se as pessoas nos EUA deveriam se preocupar com uma maior disseminação, ele disse: “Espero que não. Quero dizer, espero que não. Faremos o melhor que pudermos.”

No início de 2020, Trump disse ao público que o coronavírus estava “bem sob controle” e que o número de casos nos EUA logo estaria “próximo de zero”. As palavras são quase idênticas.

Os profissionais de saúde pública não dizem isso. Especialistas em doenças infecciosas afirmam que o risco para a população em geral continua baixo. Mas manter esse risco baixo requer avaliar o perigo e desenvolver os protocolos necessários para conter o surto. Essa é justamente a capacidade que Trump cortou do sistema de saúde pública dos EUA: rastreamento de contatos, vigilância de doenças, testes rápidos, comunicação pública clara, pesquisa em doenças infecciosas e cooperação internacional.

O Hondius partiu de Ushuaia, na Argentina, em 1 de abril, com destino à Antártida e às ilhas do Atlântico Sul. O primeiro paciente conhecido, um homem holandês, adoeceu em 6 de abril e morreu em 11 de abril durante a viagem. Sua esposa, que já estava doente, desembarcou em Santa Helena em 24 de abril e foi levada de avião para Joanesburgo no dia seguinte. Ela morreu em 26 de abril.

Uma mulher alemã morreu a bordo do Hondius em 2 de maio — no mesmo dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi notificada sobre o surto, três semanas após a primeira morte. Quando o surto foi relatado à OMS, 147 passageiros e tripulantes ainda estavam a bordo. Outros 34 já haviam desembarcado.

O navio havia parado em Tristão da Cunha, uma remota ilha do Atlântico Sul, de 13 a 15 de abril — dois dias após a morte do primeiro passageiro. O capitão disse aos passageiros em 12 de abril que o navio estava “seguro”. Passageiros e tripulantes desembarcaram e se misturaram com os habitantes da ilha. Desde então, a OMS listou um caso provável envolvendo um homem adulto que desembarcou em Tristão da Cunha em 14 de abril e posteriormente desenvolveu sintomas no local.

A OMS identificou o surto do Hondius como o primeiro surto conhecido de hantavírus associado a um navio de cruzeiro, com provável transmissão de pessoa para pessoa a bordo. Testes laboratoriais na Suíça e na África do Sul confirmaram a presença do hantavírus Andes em amostras de passageiros, corroborando a hipótese inicial da OMS de que o surto envolvia o único hantavírus conhecido por se espalhar entre pessoas.

O hantavírus Andes pode se espalhar por meio de contato próximo e prolongado com uma pessoa infectada — um membro da família, cuidador ou parceiro íntimo — de uma forma que a maioria dos hantavírus não consegue. Ele pode matar de 30% a 40% das pessoas infectadas. Não há cura específica para a infecção por hantavírus; a sobrevivência depende do diagnóstico precoce e de cuidados intensivos de suporte. Não se sabe se ele se é transmitido por contato casual.

A OMS e especialistas em saúde pública afirmam que os testes genômicos ainda estão em andamento, mas até o momento não observaram nada que sugira uma forma nova e mais perigosa do vírus. Os especialistas também enfatizam que o hantavírus dos Andes não se transmite pelo ar tão facilmente quanto a COVID ou a gripe. Os casos confirmados estão ligados ao navio ou ao contato próximo com pessoas relacionadas a ele.

A OMS reconheceu que os residentes de Tenerife tinham motivos para se preocupar. Um navio de cruzeiro transportando um vírus mortal em direção a um porto da ilha inevitavelmente lembra o início da pandemia de COVID e os navios em quarentena de 2020. Mas a OMS enfatizou que o hantavírus dos Andes não é mais uma COVID: ele não se espalha tão facilmente, e os casos conhecidos permanecem ligados ao navio ou ao contato próximo.

Os cruzeiros vendem uma fuga

As empresas de cruzeiros vendem uma fuga do mundo. Mas o MV Hondius nunca esteve fora do mundo. Ele dependia, em primeiro lugar, de trabalhadores: a tripulação do navio que mantinha a embarcação em funcionamento, os trabalhadores portuários que o recebiam, os agentes de saneamento que lidavam com os resíduos, as enfermeiras e equipes médicas que tratavam dos doentes e os tradutores que ajudavam na coordenação transfronteiriça. Também dependia de portos, aeroportos, hospitais, laboratórios, secretarias de saúde locais e agências internacionais — sistemas que não funcionam sem mão de obra.

É isso que o folheto brilhante do cruzeiro esconde. A empresa vendeu a viagem. A sociedade está lidando com o perigo.

Esse perigo recai, em primeiro lugar, sobre os trabalhadores. Recai sobre a tripulação ainda a bordo, que vive e trabalha dentro do navio, limpa cabines, lida com alimentos, lavanderia e resíduos, e não pode simplesmente sair do local de trabalho. Recai sobre os estivadores, os trabalhadores de saneamento portuário e os manuseadores de bagagem encarregados de receber o navio, lidar com amarras, suprimentos, bagagem e resíduos potencialmente contaminados, e depois voltar para casa, para suas famílias e bairros. Recai sobre o povo de Tenerife se a empresa e os governos tratarem o porto como um local para despejar riscos.

É por isso que os estivadores de Santa Cruz de Tenerife protestaram contra a decisão de receber o Hondius. Era um direito básico dos trabalhadores e da comunidade da ilha saber quais medidas de proteção estão em vigor, como o navio será desinfetado, como o lixo e os resíduos médicos serão manuseados e como a tripulação, os passageiros, os trabalhadores portuários e os residentes serão protegidos contra a exposição.

Quando a doença surgiu pela primeira vez, a empresa de cruzeiros focou no lucro. Ela manteve o cruzeiro em andamento, e os passageiros foram informados de que o navio era seguro. Ela não rastreou contatos, não testou amostras, não alertou médicos nem organizou evacuações seguras. Isso requer profissionais de saúde pública. Requer laboratórios. Requer departamentos de saúde locais. Requer cooperação internacional.

Esse é o mesmo sistema de saúde pública que Trump e seus comparsas atacaram: os profissionais, os laboratórios e os procedimentos necessários para prevenir doenças, detectar surtos e contê-los antes que se espalhem.

A resposta internacional tem sido substancial. A OMS coordenou-se com vários países e realizou coletivas públicas. O Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças enviou um especialista ao navio. Em meio a protestos dos trabalhadores portuários de Tenerife e à preocupação na ilha, a Espanha preparou uma operação controlada de desembarque, com os passageiros a serem avaliados a bordo e repatriados ou colocados em quarentena sob protocolos rigorosos.

A resposta dos EUA é uma outra história.

Gravemente limitado pelos cortes de Trump, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) só começou a agir publicamente em 8 de maio — seis dias após a OMS ter sido notificada e 27 dias após a morte do primeiro paciente conhecido. Só então o CDC anunciou orientações para os passageiros, instruções de monitoramento estadual e local e equipes médicas.

Cientistas americanos especializados em resposta a surtos e prevenção de pandemias estão trabalhando com a OMS e outras agências. Mas estão fazendo isso depois que o quadro de funcionários foi drasticamente reduzido, os orçamentos foram cortados e a pesquisa em doenças infecciosas — incluindo a pesquisa sobre vírus emergentes — passou a ser alvo de ataques.

O ataque não se limita à saúde pública. Em 24 de abril, o governo dos EUA demitiu todos os 22 membros do Conselho Nacional de Ciência, órgão que supervisiona a Fundação Nacional de Ciência (NSF). Mais de 30% dos funcionários da NSF também deixaram a agência desde a posse de Trump em janeiro de 2025, enquanto cientistas foram afastados de cargos-chave de pesquisa em todo o governo federal. O resultado é o mesmo em todos os lugares: menos ciência independente, menos proteção pública e mais controle político sobre quais pesquisas têm permissão para continuar.

A Divisão de Patógenos de Alto Risco e Patologia do CDC — a unidade que lida com doenças infecciosas mortais, incluindo o hantavírus — também perdeu seu diretor. O Dr. Fernando Torres-Vélez deixou o CDC em fevereiro para assumir um cargo sênior no governo da Nova Zelândia, após supervisionar trabalhos de diagnóstico, resposta a emergências e contramedidas médicas para alguns dos patógenos mais mortais do mundo. Seja qual for o motivo de sua saída, isso significou mais uma perda de expertise de alto nível após os ataques de Trump ao sistema de saúde pública.

O secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., não se pronunciou sobre o surto. O diretor interino do CDC, Jay Bhattacharya, não deu nenhuma entrevista coletiva. Em 2020, Bhattacharya foi coautor da Declaração de Great Barrington, que se opunha à contenção da pandemia e recomendava que pessoas de baixo risco retomassem a vida normal e desenvolvessem imunidade por meio da infecção. Mas a COVID não produziu a imunidade populacional duradoura da qual essa estratégia dependia. As pessoas podiam ser reinfectadas, novas variantes podiam escapar da imunidade prévia, e os mais vulneráveis não podiam ser mantidos protegidos enquanto o vírus se espalhava pelas casas dos trabalhadores, asilos e hospitais.

O Instituto Nacional de Saúde (NIH) fechou os Centros de Pesquisa em Doenças Infecciosas Emergentes em 5 de junho de 2025. Um desses 10 centros vinha estudando como a cepa Andes do hantavírus passa de roedores para humanos. Onze meses depois, esse mesmo vírus está forçando evacuações de emergência e planos de quarentena das Ilhas Canárias até o estado do Nebraska.

Trump iniciou a retirada dos EUA da OMS em janeiro de 2025, e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA afirma que o país saiu formalmente em janeiro de 2026.

Em julho de 2025, o governo também rejeitou as emendas de 2024 ao Regulamento Sanitário Internacional — a estrutura legal que a OMS utiliza para notificação e coordenação de surtos. “O Centro de Controle e Prevenção de Doenças não faz parte desse envolvimento de rotina”, disse o Dr. Daniel Jernigan, que dirigiu o centro de doenças emergentes do CDC antes de se demitir em protesto. “Quando algo surgir, não receberemos essa ligação imediatamente.”

A OMS afirmou que Tenerife foi escolhida de acordo com o Regulamento Sanitário Internacional porque era o porto mais próximo com capacidade médica suficiente para proteger a segurança e a dignidade das pessoas a bordo. A Espanha honrou essa obrigação. Washington, por sua vez, vem afastando os Estados Unidos desse mesmo sistema internacional de saúde.

O CDC ainda existe. Seus cientistas ainda estão trabalhando. Mas a agência está operando com equipe reduzida, cortes no orçamento, comunicações restritas e laços internacionais enfraquecidos após a reestruturação do sistema de saúde pública por Trump. É por isso que especialistas que analisam o surto do navio Hondius estão questionando por que o CDC não se mostrou mais visível mais cedo. A agência de notícias AP informou que o CDC não enviou equipes para as Ilhas Canárias e a Base Aérea de Offutt nem emitiu um alerta de saúde aos médicos até o final da semana.

Um grupo consultivo de especialistas da OMS, composto por representantes do Brasil, Grã-Bretanha, Índia, Holanda e outros países, deve se reunir neste 11 de maio para avaliar as últimas descobertas sobre o hantavírus. O CDC não tem assento na mesa. “Especialmente neste momento, não parece que o CDC esteja muito funcional”, disse Tulio de Oliveira, diretor do Centro de Resposta a Epidemias e Inovação da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, ao New York Times.

O surto no Hondius mostra por que a cooperação internacional em saúde não é opcional. Um vírus pode se deslocar da América do Sul para um navio de cruzeiro, para Santa Helena, África do Sul, Europa e Estados Unidos antes mesmo que os governos saibam com o que estão lidando.

Os proprietários de navios de cruzeiro, chefes portuários e empresas de viagens querem que os navios naveguem, os aviões voem, os passageiros paguem e o dinheiro circule sem interrupção. Mas eles tratam os trabalhadores e os sistemas públicos que tornam esse movimento possível — e seguro — como custos a serem cortados.

Os trabalhadores portuários já lutaram contra isso antes. Durante a crise da COVID no Grand Princess em 2020, em Oakland, os sindicatos locais 10, 34, 75 e 91 do Sindicato Internacional dos Trabalhadores Portuários (ILWU) exigiram que os empregadores higienizassem equipamentos e instalações e protegessem os trabalhadores que carregavam e descarregavam os navios. Eles alertaram que a infecção nas docas poderia se espalhar para os trabalhadores portuários, suas famílias e a comunidade ao redor. Também exigiram informações sobre a condição de centenas de tripulantes mantidos a bordo do Grand Princess e se o terminal havia sido desinfetado após a partida do navio.

O presidente do Local 10 do ILWU, Trent Willis, colocou a questão de forma clara: os trabalhadores portuários também são membros da comunidade, e a saúde e a segurança dos trabalhadores e da comunidade vêm antes de manter o porto em funcionamento. Essa é a mesma lição que os estivadores de Tenerife estão enfatizando agora. Os patrões querem que os navios sigam, que os passageiros paguem e que o dinheiro circule. Os trabalhadores estão perguntando quem arca com o risco.

Este vírus é um perigo. Mas o perigo mais profundo é um sistema que mantém os navios em movimento, mantém o dinheiro fluindo e corta os trabalhadores, laboratórios e órgãos públicos necessários antes que o próximo surto aconteça.

 

Struggle-La Lucha

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