Os impérios não precisam de convites. Eles chegam, se impõem e perduram até que, como demonstraram as lutas anticoloniais do passado, sejam expulsos. Essa era a lógica do colonialismo, que deixou cicatrizes pela Ásia, África e Oriente Médio: uma via de mão única pavimentada com exploração, humilhação e o lento sufocamento da autodeterminação.
A tragédia da atual situação do Golfo, no Oriente Médio, não é que o império persista, mas que ele tenha sido convidado com cerimônia, financiado com petrodólares e normalizado como estratégia. Os governantes do Golfo não tentaram resistir ao abraço imperial. Eles o cultivaram. As bases americanas não foram impostas à força de armas, mas negociadas, expandidas e celebradas como garantias de segurança. A soberania foi subcontratada.
Essa sempre foi uma ilusão perigosa. Terceirizar a segurança diminui a soberania e, quando a soberania se dilui com o tempo, ela é negada. A troca era simples e inequívoca, mas também desastrosamente mal compreendida. Os Estados Unidos projetariam poder, enquanto as monarquias do Golfo forneceriam território, capital e alinhamento político. Mas os benefícios desse acordo nunca foram simétricos. Não era uma parceria. Era clientelismo.
O recente confronto com o Irã despojou os últimos vestígios de autoengano. Quando chegou a hora do acerto de contas, a expectativa era clara: a proximidade com o poder americano se traduziria em proteção contra suas consequências. Em vez disso, o que emergiu foi um cálculo imperial familiar. A estratégia americana não é uma apólice de seguro para os suplicantes, mas um instrumento para os interesses americanos. Nesse cenário, esses interesses colocam Israel em primeiro plano, com a estabilidade regional sendo uma preocupação distante e condicional. No caso da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar, eles se rebaixaram a um nível sem precedentes, enriquecendo pessoalmente a família Trump por meio de acordos comerciais que obscureceram a linha entre a arte de governar e o ganho privado.
Alguns Estados do Golfo agravaram o erro de avaliação ao formalizar seu alinhamento com Israel. Os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein estabeleceram formalmente relações abertas e institucionalizadas por meio dos Acordos de Abraão em 2020, que vincularam sua postura de segurança a uma potência regional – Israel –, cujos conflitos são duradouros e inflamáveis.
Outros mantêm a ficção da distância enquanto praticam a proximidade. A Arábia Saudita, o Egito e a Jordânia são amplamente vistos como de facto súditos, ajustados às preferências estratégicas de Washington e Tel Aviv, ao mesmo tempo em que preservam uma aparência de postura independente e estabilidade para consumo interno, fazendo apenas o suficiente para garantir o status quo, evitando o debate de seu alinhamento geopolítico real com suas populações.
Mas há uma questão mais profunda, que não pode ser ocultada. Em um momento em que Gaza foi reduzida a escombros, quando o sofrimento civil tem sido transmitido com detalhes implacáveis, esses mesmos regimes demonstraram sua absência moral. Seu alinhamento não foi atenuado por princípios. Ele foi acompanhado por silêncio e, às vezes, cumplicidade. Eles não mobilizaram resistência diplomática significativa nem utilizaram seu considerável poder econômico para impor custos pelo genocídio na Faixa de Gaza. Em vez disso, normalizaram as relações e estabilizaram o mesmo status quo que muitos em todo o mundo consideram intolerável.
Aqui, a clareza presciente do ex-secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Henry Kissinger, se impõe com precisão inquietante. “Pode ser perigoso ser inimigo dos Estados Unidos”, observou ele, “mas ser amigo dos Estados Unidos é fatal.” Os governantes do Golfo estão enfrentando agora a segunda parte desse aforismo, não como teoria, mas como realidade vivida.
Durante décadas, eles confundiram acesso aos Estados Unidos com influência, proximidade com proteção e alinhamento com autonomia. No entanto, em momentos de crise, a assimetria torna-se inconfundível. Decisões e prioridades são definidas em outros lugares, com os riscos sendo suportados localmente. O centro imperial age; a periferia absorve.
A ausência de respeito torna esse arranjo ainda mais corrosivo. O Golfo foi colocado na linha de frente da estratégia americana e tratado como descartável. Quando autoridades americanas deram a entender que os custos do conflito recairiam sobre esses Estados, a mensagem foi inequívoca: esta não é uma parceria entre iguais, mas uma hierarquia de conveniência. Nessa formulação, o Golfo não é retratado como um ator soberano com autonomia, mas como um reservatório de capital, visto menos como um parceiro e mais como um saco de dinheiro a ser facilmente utilizado.
Os governantes do Golfo encontram-se agora em um ponto de inflexão. Eles podem persistir na ficção de que a proximidade com o poder americano garante segurança ou enfrentar a dura verdade de que a soberania não pode ser alugada, nem a legitimidade mantida, sem princípios. O primeiro caminho oferece segurança temporária e vulnerabilidade permanente. O segundo exige recalibração, independência e, acima de tudo, disposição para alinhar a política com valores e decência humana. Em ambos os casos, as monarquias do Golfo têm provado repetidamente serem extensões de antigos projetos coloniais que mantêm seus povos oprimidos. A guerra com o Irã é uma mensagem clara aos déspotas árabes. É hora de eles se descolonizarem. Mas pouco sugere que isso vá mudar.
Os impérios, por natureza, não priorizam a dignidade daqueles que orbitam em torno deles. Eles priorizam sua própria sobrevivência. A lição, claramente escrita ao longo da história e agora reiterada no presente, é que a dependência do poder imperial não é um escudo. É uma condição.
Condições, ao contrário de ilusões, eventualmente chegam ao fim.
(*) Tradução de Raul Chiliani





































