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A visita de Trump a Pequim e a nova Guerra Fria na Ásia

Primeira visita de Trump à China desde 2017 ocorre em meio à escalada militar dos EUA no Pacífico e ao aprofundamento da disputa estratégica entre Washington e Pequim

Tings Chak
Visita do presidente dos EUA, Donald Trump, à China, em novembro de 2017. (Foto: Shealah Craighead / White House)
Visita do presidente dos EUA, Donald Trump, à China, em novembro de 2017. (Foto: Shealah Craighead / White House)

Esta semana, em Pequim, a primeira visita de Estado dos EUA à China em nove anos está sendo encenada para o mundo inteiro ver. O Grande Salão do Povo está aberto para Donald Trump, que viajou acompanhado de 18 executivos norte-americanos — entre eles, os da Apple, Tesla, BlackRock, Boeing e Nvidia. Haverá um banquete de Estado na quinta-feira (14), seguido de um chá e almoço na sexta-feira.

Nas ruas de Pequim, “a Besta”, o carro do serviço secreto, vem garantindo a segurança da rota da comitiva desde a semana passada, trazida de um avião C-17 antes da chegada de Trump para se encontrar com o presidente chinês Xi Jinping. A grande imprensa internacional está chamando isso de um “desembaraço” entre Washington e Pequim. As ações de Trump parecem dizer o contrário.

Encontrando uma China diferente

A última visita de Estado dos EUA ao solo chinês foi a do próprio Trump, em novembro de 2017 — no início da guerra comercial imposta pelos EUA que se aprofundaria sob Biden e se intensificaria em seu segundo mandato. A China que o recebeu na época ainda estava aprendendo a responder às agressões. A China que o recebe agora passou nove anos diversificando seus mercados de exportação, construindo autonomia na cadeia de suprimentos, desenvolvendo a vantagem tecnológica para reagir, enquanto se voltava para os países do Sul Global. A fracassada guerra tarifária de Trump contra a China acabou prejudicando mais sua própria economia e seu povo do que a da China, e os controles de exportação de Pequim sobre elementos de terras raras acabaram forçando Trump a recuar. Os 18 executivos americanos da delegação, incluindo Tim Cook, Elon Musk e Jensen Huang, da Nvidia, vieram porque suas empresas não podem prescindir do mercado chinês. Os instrumentos econômicos de contenção dos EUA não produziram o resultado que Washington desejava.

A Guerra contra o Irã

Desde 28 de fevereiro, a guerra ilegal dos EUA e de Israel contra o Irã — que adiou esta reunião em seis semanas — matou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e milhares de civis iranianos. Enquanto isso, mais de 2.700 civis foram mortos no Líbano, onde os ataques dos EUA e de Israel continuam.

Em retaliação à agressão dos EUA e de Israel, mísseis e drones iranianos atingiram 15 instalações militares dos EUA no Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos — só a Base Aérea de Al Udeid foi atingida por 44 mísseis e 8 drones, com 217 estruturas danificadas ou destruídas e um custo estimado de 5 bilhões de dólares em reparos. Em sua 11º semana, apesar do bloqueio naval e dos bombardeios dos EUA, o Irã montou uma resistência sustentada e a guerra não seguiu como Washington havia previsto. Isso deixou inequivocamente claro o que os movimentos antigerra em toda a nossa região há muito argumentavam: as bases negociadas com os países anfitriões na região não são escudos, mas alvos.

Nos dias imediatamente anteriores à sua chegada, Trump rejeitou a proposta de paz de Teerã como “lixo”. Em 11 de maio — véspera de sua partida — o Tesouro dos EUA sancionou mais 12 indivíduos e empresas por causa do comércio de petróleo entre Irã e China, e no mesmo dia, um grupo de senadores dos EUA instou Trump a aprovar um novo pacote de armas de 14 bilhões de dólares para Taiwan.

Pequim não ficou em silêncio. Em 2 de maio, em resposta a uma rodada anterior de sanções dos EUA contra cinco refinarias chinesas, a China invocou suas Regras de Bloqueio contra sanções pela primeira vez desde sua introdução em 2021: as medidas dos EUA “não serão reconhecidas, aplicadas ou cumpridas” em território chinês. O Ministério das Relações Exteriores da China as chamou de ilegais e unilaterais, sem base no direito internacional. Embora a resistência não tenha sido incondicional — os bancos chineses foram discretamente aconselhados a limitar a exposição às refinarias sancionadas —, a posição pública é clara. Na mesma semana, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, recebeu o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, em Pequim. A China continua sendo o maior parceiro comercial do Irã e o principal comprador de seu petróleo.

Uma arquitetura de contenção

O Irã não é o único cenário de guerra. Em toda a região, a arquitetura da presença militar dos EUA está sendo expandida e acelerada. Na mesma semana da visita de Trump, foram concluídos os maiores exercícios militares conjuntos da história das Filipinas — o Balikatan 2026, com 17 mil soldados estrangeiros de 7 países, mísseis antinavio japoneses posicionados em solo filipino e um novo depósito de combustível dos EUA no sul do país. Na região central de Luzon, as Filipinas concederam 4 mil acres em New Clark City à Pax Silica Initiative — uma área de alta tecnologia controlada pelos EUA, operando sob o direito consuetudinário americano e com imunidade diplomática garantida, em um contrato de arrendamento renovável por 99 anos.

Em 28 de abril, o comandante das Forças dos EUA na Coreia, general Xavier Brunson, disse ao Japan Times que Washington está construindo uma “kill web” — um sistema em rede que funde Coreia, Japão e Filipinas em uma única arquitetura contra a China, a Rússia e a Coreia do Norte. Em agosto de 2025, Trump disse a repórteres sobre a base dos EUA em Pyeongtaek que gostaria de “adquirir a propriedade do terreno onde temos uma enorme base militar” na Coreia do Sul, país onde os EUA possuem 66 bases militares. No Japão, os gastos militares estão sendo duplicados — o maior rearmamento desde 1945 — com a compra de 400 mísseis Tomahawk dos EUA, um projeto que continuou e se acelerou sob o governo da primeira-ministra de direita Sanae Takaichi. Para Taiwan, Trump autorizou 11 bilhões de dólares em armas em dezembro, o maior pacote da história, e disse à imprensa que pretende discutir a venda de armas — com o próprio Xi.

Do hiperimperialismo ao “não se intrometa na Ásia”

O que está em exibição em Pequim esta semana não é um desembaraço, e os executivos que viajam com Trump não são um sinal de moderação. A agressão econômica e militar contra a China são duas faces do mesmo projeto de contenção. Isso é hiperimperialismo: um império recorrendo cada vez mais à força à medida que seu domínio econômico se desgasta, tendo a China e outros países do Sul Global como alvos principais na defesa de sua soberania. O estilo transacional de Trump não é um afastamento do imperialismo dos EUA, mas a forma que ele assume quando seus instrumentos econômicos deixam de surtir efeito.

A campanha Hands Off Asia, lançada em 30 de abril — aniversário da libertação do Vietnã — pela Assembleia Popular Internacional e organizações parceiras em toda a nossa região, clama pela remoção de bases militares estrangeiras da Ásia, pelo cancelamento de pactos agressivos, como o AUKUS e o Quad, e pelo redirecionamento dos gastos militares para as necessidades de nossos povos. A arquitetura que está sendo expandida por toda a nossa região não foi construída para proteger o povo, mas para cercar a China e disciplinar o resto da Ásia. Com a chegada de Trump a Pequim nesta semana, nenhum acordo assinado no Grande Salão esconderá o que seu governo está construindo em toda a nossa região — e os povos desses lugares, de Okinawa a Subic, de Pyeongtaek a Teerã, enxergam essa belicismo pelo que ele realmente é e se opõem a ele, exigindo: não se intrometam na Ásia!

 

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