A cidade de São Paulo é um dos berços da cultura de torcida organizada no Brasil. Discussões históricas tentam definir qual foi, verdadeiramente, a primeira torcida de caráter organizado/uniformizado no país, havendo um embate entre a TUSP (Torcida Uniformizada do São Paulo) e a chamada “Corinthians Torcida”, ou “Torcida Uniformizada do Corinthians”. Apesar de os termos “organizada” e “uniformizada” significarem, juridicamente, coisas distintas, elas são uma coisa só. Na década de 1930, com ambas as torcidas já em funcionamento, ocorreria uma das primeiras grandes invasões de torcidas, termo utilizado quando a torcida visitante chega em grande número ao estádio do mandante. A famosa Invasão da Vila Belmiro, de 1931, envolveu milhares de corinthianos, que se deslocaram para o estádio do rival, em Santos (SP), por meio dos trens que operavam esse trajeto. Entre os anos 1940 e 1950, já ocorriam brigas nos estádios de futebol, embora fossem episódios esporádicos e qualitativamente diferentes do que se vê hoje. Com isso, podemos afirmar que a formação de grupos de torcedores, a organização de festas e as brigas são elementos anteriores ao surgimento das primeiras torcidas organizadas, nos anos 1960, e estão longe de ser inerentes a elas.
Durante os anos 1980 e, principalmente, nos anos 1990, as festas e a violência evoluíram. Rojões, papéis picados, bandeiras de mastro de bambu e mosaicos eram feitos quase todos os domingos de clássico Brasil afora. A violência, infelizmente, ganhou um caráter militarizado, com brigas envolvendo tanto o caminho até os estádios quanto estratégias de guerra. Um fator interessante para refletirmos sobre essa militarização das torcidas pode ser observado na mudança do mascote delas ao longo dos anos. Os Gaviões da Fiel, primeira torcida organizada do Corinthians, fundada em 1969, têm como emblema o gavião, símbolo da fiscalização, visão e estratégia. De um gavião simples, fiel ao animal, o símbolo evoluiu para um gavião forte, musculoso, em poses de luta. Isso aconteceu com praticamente todas as torcidas organizadas do Brasil, nesse período em que as brigas constantes construíram um imaginário, dentro das agremiações, de superioridade na força e do desejo de impor medo nos inimigos.
Esse processo é analisado em muitos estudos, reflexões e na própria vivência nas torcidas organizadas, em depoimentos de velhos e novos integrantes. O Podcast do Ratão, talvez o mais famoso sobre o mundo das organizadas, traz, em cada episódio, relatos e depoimentos sobre tempos imemoriais, em que a chamada “ideologia” – outro termo filosófico adaptado pelas torcidas, algo como uma “moral humanista das brigas” – é constantemente usada como medida para se avaliar o velho e o novo. Os tempos mudaram, as mãos limpas deram lugar a mãos com barras de ferro, armas brancas e de fogo, elementos igualmente criticados e utilizados Brasil afora.
A história, por esse lado, aparenta ser um sistemático regresso na “ideologia” das torcidas. Desde a primeira morte, nos anos 1980, os números de mortes em brigas de torcidas no Brasil variam entre 384 e 407 (os últimos dados coletados são de 2025). Uma dessas mortes, ocorrida em 2016, desencadeou um processo muito mais violento do que em 1995, após a Batalha do Pacaembu. Em abril de 2016, Corinthians e Palmeiras se enfrentaram, e o que se viu foi uma guerra nos quatro cantos da Grande São Paulo. Foram registradas brigas na Estação do Brás, em Guarulhos, no bairro do Pacaembu e na Praça do Forró, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Nessa briga, uma pessoa foi morta com um tiro no coração. Ela passava pela praça no momento da briga e não tinha envolvimento com nenhuma das duas torcidas envolvidas. Pode-se notar que todas as brigas, com exceção da ocorrida no bairro do Pacaembu, ocorreram longe do estádio. Ainda assim, no mesmo mês, foi decretado que todos os clássicos na cidade de São Paulo e em Campinas contariam somente com a presença da torcida do clube mandante. No mês passado, esse decreto completou 10 anos, sem que ele tenha mudado, nem efetivamente eliminado a violência no futebol.
Há décadas não se registram brigas de torcida nos estádios paulistas. As torcidas se adaptaram à nova realidade e passaram a se enfrentar – marcando ou não os “encontros” – longe dos estádios. Um dos palcos de briga mais famosos da cidade é a Avenida Inajar de Souza, na zona norte. É um ponto conhecido pelas autoridades, o que não previne as brigas. Basta uma pesquisa simples para ver quantas pessoas morreram em brigas, tanto na capital paulista quanto em outras cidades do país após 2016, para constatar que o decreto de torcida única não resolveu o problema.
Dados demonstram que a média de público aumentou nos estádios paulistas, com as famílias, as mulheres e os torcedores comuns frequentando os estádios com mais tranquilidade, ao mesmo tempo em que, em dias de clássico, os números de torcedores nos estádios são sempre maiores, fruto da rivalidade saudável entre os times paulistas, que se desenvolve há mais de 100 anos. Mas isso é só uma aparente melhora. O direito de torcer, festejar e celebrar o futebol deu lugar também a arquibancadas frias, onde um simples cartaz com o nome de um jogador não é autorizado a entrar nas modernas arenas. A violência mal combatida foi o pretexto perfeito para o aumento do valor dos ingressos, e a Copa do Mundo de 2014 contribuiu para a arenização e consequente elitização dos estádios paulistas (os ingressos mais baratos na Neo Química Arena custam R$ 40 e, no Allianz Parque, R$ 50). Esse processo demonstra, de um lado, o usufruto dos donos das arenas e dos dirigentes dos clubes, que lucram cada vez mais com o público nos estádios, ainda que a média de torcedores nos estádios paulistas seja muito inferior à registrada nos anos 1980 e 1990; por outro lado, o estado, por meio do aparato policial e com a aparente normalidade nos dias de jogos, deixa de investir em segurança pública nos dias de jogos, em efetivos de prevenção às brigas e até mesmo em políticas públicas de conscientização dos torcedores.
O problema, na mídia e nas grandes narrativas, se desloca do estado e da sociedade para as torcidas organizadas, como se elas tivessem autonomia perante a lei e a sociedade. O simples fato de que, já há alguns anos, a única forma de frear as mortes e brigas na cidade de São Paulo seja a intervenção do crime organizado nas brigas demonstra como a segurança pública em São Paulo é nula. Em outras cidades, como Fortaleza, o crime também interveio nas brigas, obrigando os presidentes das principais torcidas organizadas da cidade a entregarem seus cargos. Essa política “paralela” é ótima para o estado, para os jornais, para o público comum que, com o honesto medo das brigas, passa a ver as organizadas como inimigas do espetáculo do futebol; uma forma de alienação que tira o foco da raiz e das possíveis soluções para o problema. Basta ver o que ocorre no Rio de Janeiro: muitas das principais organizadas da cidade ficaram banidas dos estádios por anos, quase décadas, e ainda assim as brigas e as mortes continuam em ritmo intenso. As bandeiras de mastro, os bandeirões, os instrumentos musicais e outros elementos da festa não foram banidos, tampouco houve uma política de torcida única. Essa ambiguidade na forma de lidar com o problema, nos dois lados da Via Dutra, mostra que a proibição das torcidas e das festas é um subterfúgio vazio de solução e uma forma de punição que busca um controle social contra o direito individual de torcer – ironicamente, numa sociedade neoliberal, aquela que Margaret Thatcher, grande inimiga das torcidas inglesas, caracterizou por “não haver sociedade”. Não é que as organizadas sejam apenas vítimas desse processo – ou, como se costuma dizer, de forma verdadeira, mas incompleta, que a violência no futebol é um reflexo da sociedade –, mas o que vemos hoje é similar às primeiras brigas registradas nos anos 1940: torcedores comuns brigando contra torcedores comuns de outro time, carregando a rivalidade entre os clubes e torcidas, rivalidade essa, muitas vezes, transestadual.
Os incidentes na Vila Moraes, em São Paulo, no ano de 2021, e, em 2024, em Mairiporã, também em São Paulo, dizem mais sobre a ineficiência do estado em colocar em prática políticas de prevenção às brigas – a polícia civil de São Paulo tem dados de inteligência abundantes para tal – do que sobre as torcidas. Assim como nos demais tipos de crimes cometidos no estado, parece ser mais prático lidar com as mortes e prisões do que com a prevenção da vida e, consequentemente, com o direito básico do torcedor de frequentar os estádios.
Algumas conversas têm sido conduzidas entre os líderes das torcidas, advogados e os órgãos responsáveis pela segurança dos jogos. Testes foram feitos em 2024, durante a final da Supercopa do Brasil, entre Palmeiras e São Paulo, disputada no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte. Quase 43 mil pessoas estiveram presentes na partida, que ocorreu a quilômetros de São Paulo, com grandes caravanas organizadas pelas duas torcidas e zero incidentes registrados dentro e fora do estádio. Nesse mesmo ano, as bandeiras de mastro voltaram a tremular no estado de São Paulo. Nenhum incidente de uso dos mastros de bambu como arma foi registrado. Em 2026, também na final da Supercopa do Brasil, mais de 70 mil torcedores acompanharam a partida entre Corinthians e Flamengo. Milhares deles saíram de São Paulo e Rio de Janeiro em direção a Brasília e, novamente, nenhum incidente foi registrado. Mesmo com esses três importantes episódios, as bandeiras foram novamente proibidas, e os clássicos com duas torcidas seguem proibidos em São Paulo.
A persistente proibição, criticada por grandes jornalistas e pela maioria dos torcedores, contrasta com a realidade: quando uma política de segurança efetiva é colocada em prática, as brigas são evitadas, tanto na contenção de confrontos quanto no diálogo com as agremiações. Não existe uma fórmula mágica para a solução da violência entre torcidas, principalmente num país tão violento quanto o Brasil, mas são necessárias outras alternativas, já que o modelo de torcida única não funcionou desde o seu primeiro dia de existência. Fica claro que o modelo, ao menos em São Paulo, serve para que os ingressos sejam cada vez mais caros, sob o pretexto do “luxo” dos novos estádios, em paralelo ao desejo do estado de conter gastos com segurança pública, que são usados, como podemos ver, para bancar obras inúteis, campanhas eleitorais, filmes de políticos presos, rachadinhas e outras coisas tão necessárias para que o modelo de sociedade vigente continue ceifando vidas, histórias e culturas. Enquanto isso, as torcidas tentam se renovar e se adequar. Grupos organizados no Rio de Janeiro têm colocado em prática a chamada “pista limpa”, sem envolver o uso de armas e com um código de conduta próximo aos eventos de artes marciais. O crime organizado, por meio dos seus próprios interesses, tem garantido relativa segurança em dias de clássico, e o uso do direito e dos advogados por meio das entidades tem criado alternativas para garantir o direito de frequentar os estádios em troca de políticas de prevenção às brigas partindo das próprias torcidas. Nenhuma dessas alternativas confere garantias duradouras, e o estado tem feito apenas o que faz sempre: deixar que os pobres se matem e, se possível, que não se divirtam.
(*) Marco Aurélio, mais conhecido como Marcola, é nascido e criado na zona sul de São Paulo. Estudante de história e fotógrafo documental nas horas vagas, há 7 anos escreve e pesquisa o rap, o samba e outros temas da cultura popular brasileira. Em 2022, participou, como pesquisador, do projeto “A Timelife of Brazilian Hip-Hop” junto ao Spotify Global, e em 2023 tem participado do projeto “Clube de leitura do Rap”, no Centro Cultural São Paulo.



































