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Rodolfo Walsh, o peão que colocou em xeque o poder militar na Argentina

Autor de Operação Massacre, Rodolfo Walsh transformou o jornalismo em arma contra a ditadura argentina – e pagou com a própria vida

Damián Huergo
O jornalista e escritor Rodolfo Walsh. (Foto: Romina Santarelli / Ministerio de Cultura de la Nación)
O jornalista e escritor Rodolfo Walsh. (Foto: Romina Santarelli / Ministerio de Cultura de la Nación)

Rodolfo Walsh era um bom jogador de xadrez. Aprendeu lendo manuais e acompanhando as jogadas dos mestres russos em revistas especializadas. Aperfeiçoou seu nível em bares, cafés e nas mesas do Club Estudiantes de La Plata, na Argentina, durante a década de 1950, onde se instalou para estudar Letras. Sua companheira Lilia Ferreira, jornalista e ativista dos Direitos Humanos, contou em seu depoimento judicial no Megaprocesso da ESMA que, em seu último refúgio na clandestinidade, na casa de San Vicente, eles pararam de jogar xadrez porque as partidas entre os dois eram ruins: “Ele ficava entediado e eu ficava irritada porque perdia”.

A solução que Walsh encontrou foi mudar de jogo. Um dia ele apareceu com o Go, também conhecido como xadrez chinês. Eles leram as instruções e aprenderam juntos. Cada um foi aprimorando sua técnica: Lilia cercava rapidamente as peças do adversário e Walsh espalhava as peças por todo o tabuleiro antes de atacar. Em pouco tempo, a dinâmica de Walsh se mostrou mais eficaz: ele testava a paciência dela em cada partida, e Lilia perdia abundantemente. “Então (Walsh) começou a analisar por que [eu] perdia tantas partidas”, testemunhou Lilia. “E chegou à conclusão de que eu me concentrava apenas em capturar as peças e perdia de vista o tabuleiro, que era a dimensão estratégica do jogo”.

A tática de Walsh para jogar xadrez é uma boa metáfora de sua vida. Rodolfo Walsh nunca colocou suas peças em um único lado. A 49 anos de seu assassinato e desaparecimento pela última ditadura civico-militar da Argentina, continua sendo difícil encaixar Walsh em um único quadrado, seja ele branco ou preto. Era escritor? Jornalista? Criador do gênero não-ficção? Militante? Escritor militante? Homem de inteligência? Revolucionário? Pesquisador? O que foi Walsh? Ou, melhor, quem foi Rodolfo Walsh?

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Desde o seu nascimento, Rodolfo Walsh foi ocupando diferentes espaços no tabuleiro. Ele nasceu em Choele Choel, na província de Río Negro, na Patagônia argentina, em 9 de janeiro de 1927. Cresceu no campo, na fazenda onde seu pai — filho de irlandeses — trabalhava, ao lado de três irmãos e uma irmã que mais tarde se tornaria freira. Poucos anos depois, seu pai não conseguiu sustentar tantos filhos e Walsh teve que se mudar para um internato irlandês para órfãos e pobres da comunidade. Lá, ele aprendeu a se defender com os punhos, a se rebelar, a se distanciar da autoridade, a ansiar pela libertação, a pensar que a heroicidade não estaria em um homem, mas no interior de um povo, na força coletiva, como acontece no conto “Um sombrio dia de justiça”.

Walsh escreveu sobre a experiência desses anos na saga de contos irlandeses onde o autobiográfico, segundo ele disse em uma mítica entrevista feita por Ricardo Piglia, “não passa de um ponto de partida, uma anedota e, às vezes, nem mesmo uma anedota inteira, mas meia anedota”.

Esses contos foram reunidos no livro Um dia sombrio de justiça / Zugzwang, publicado pela Editorial de la Flor (No Brasil, no livro “Essa mulher e outros contos”, pela editora 34). O livro tem dois títulos introdutórios que, já pelo nome, prenunciam o dia 25 de março de 1977, data de seu assassinato e desaparecimento às mãos e pelas balas de um grupo de ação da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Mas vamos fazer uma pausa e deixar essa história para o final; um final que, para a vida e a obra de Walsh, foi uma abertura, uma jogada de mestre, rumo a vários princípios.

Assim como na literatura, a formação de Walsh na política também foi autodidata. Ele teve um contato muito precoce com a Aliança Libertadora Nacionalista (ALN) entre 1944 e 1945, atraído pela disputa que o nacionalismo apresentava à elite liberal tradicional agroexportadora, que se autopercebia como europeia em solo latino-americano. Posteriormente, sua interpretação do peronismo oscilou, passando de uma visão antiperonista na década de 1950 para uma militância física e intelectual no peronismo revolucionário na década de 1970 (participou das Forças Armadas Peronistas e dos Montoneros). Essa virada para a esquerda em Walsh foi possível graças à literatura, em particular ao vínculo entre literatura e jornalismo, nessa mistura que, com o tempo, recebeu vários nomes, como não ficção, jornalismo narrativo ou escrita documental.

A partir da escrita, Walsh absorve os conceitos de igualdade, justiça e verdade ligados ao cerne do pensamento de esquerda. Foi graças à sua investigação jornalística sobre os fuzilamentos em José León Suárez, cometidos pela ditadura de Pedro Aramburu contra um grupo de civis. Walsh toma conhecimento do fato seis meses depois. No bar Rivadavia, em Buenos Aires, enquanto jogava xadrez, um homem (anos depois, revelou-se que era Enrique Dillon) lhe diz baixinho: “Há um fuzilado que está vivo”. A cena, o aparecimento de um morto que fala, cativou Walsh, leitor de literatura fantástica (que acabara de compilar a extraordinária Antologia do conto estranho) e escritor de contos policiais, como o genial “Variações em vermelho”. Pouco tempo depois, em 1957, a investigação ganha forma no livro Operação Massacre, considerado o primeiro livro de não-ficção, mesmo antes do famoso A Sangue Frio, de Truman Capote, publicado nove anos depois.

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A importância desse livro é mencionada pelo próprio Walsh em 1965, em uma breve autobiografia: “Operação Massacre mudou minha vida. Ao escrevê-lo, compreendi que, além das minhas perplexidades íntimas, existia um mundo exterior ameaçador. Em 1964, decidi que, de todas as minhas ocupações terrenas, a violenta profissão de escritor era a que mais me convinha”.

Há outro fato político que marca e condiciona a vida de Walsh: a revolução cubana de 1959 e, em particular, as figuras de Fidel Castro e Che Guevara. Em 1967, ele viaja para a ilha a convite de seu amigo Paco Urondo para ser jurado do concurso Casa de las Américas e participar do Congresso dos Intelectuais. Rapidamente se instala em Havana com sua profissão de escritor a tiracolo e ingressa na agência de not Prensa Latina. Sua transformação revolucionária já estava em andamento, não suplantando o escritor, o intelectual, mas colocando-o a serviço do projeto coletivo.

Ao retornar à Argentina, foi uma das mentes mais brilhantes dentro dos Montoneros. Em seu papel de jornalista, fundou a Agência de Notícias Clandestinas (ANCLA) para dar espaço às vozes urgentes vindas do silêncio. Além disso, em outro gesto de coragem, em pleno avanço da ditadura militar, propôs claramente à cúpula dos Montoneros uma retirada para proteger os companheiros e reunir forças. Não foi ouvido. No entanto, até o fim continuou a fazer valer sua voz.

Dizíamos que o livro Un oscuro día de justicia / Zugzwang tem dois títulos que, desde o nome, prenunciam a morte de Rodolfo Walsh. “Zugzwang” (conto presente, no Brasil, no livro “A máquina do bem e do mal”, também da editora 34) é um termo alemão utilizado no xadrez. Descreve uma situação crítica em que um jogador perde ou piora drasticamente sua posição pelo simples fato de ser obrigado a jogar: qualquer jogada disponível resulta prejudicial. Na manhã de 25 de março de 1977, Walsh, num único movimento, fez justiça e piorou sua posição. Cercado pelas forças militares da ditadura, saiu de sua casa em San Vicente, onde morava sob o nome clandestino de Professor Beto, para entregar a primeira de suas “cartas polêmicas”, como ele as chamava, contra a ditadura. Antes que o grupo de ação o emboscasse, como narrou o jornalista e escritor Facundo Pastor em seu valioso livro La Emboscada — publicado este ano na Espanha pela Paripé Books —, ele conseguiu enviar cinco cópias à imprensa nacional da “Carta aberta de um escritor à junta militar”, sua última obra literária.

Na missiva, Walsh denuncia o terrorismo de Estado e os desaparecimentos da ditadura militar, a tortura e os sequestros, a censura à imprensa e a perseguição, além do que chamou de “miséria planejada”, para destacar que o empobrecimento e a desigualdade da maioria não são consequência de um erro ou de uma crise, mas o resultado do desenho de políticas para concentrar o capital. Um conceito que está sendo retomado atualmente na Argentina para refletir sobre a desindustrialização, a transferência de recursos de muitos para poucos, o aumento da dívida externa e a repressão exercida pelo governo libertário de Javier Milei.

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Como disse Lilia Ferreira em seu depoimento, Walsh contemplava a dimensão estratégica e total do tabuleiro; por isso seus livros continuam sendo lidos, seus métodos são reutilizados por jovens cronistas, seus conceitos continuam nos fazendo pensar, sua figura de intelectual ainda nos provoca e nos desperta. Em contrapartida, nas palavras de Lilia, “a ditadura militar perdeu de vista a dimensão estratégica do período histórico. E é essa dimensão estratégica das reservas morais de grande parte desta sociedade que não pôde, nem pode, nem poderá aceitar que se joguem pessoas vivas de aviões, a apropriação de bebês nascidos em cativeiro e o assassinato de suas mães, a tortura sem limite de tempo, fuzilamentos sem julgamento, o desaparecimento forçado de milhares de pessoas e instituições das Forças Armadas da Nação (como a ESMA) transformadas em centros clandestinos de detenção, tortura e extermínio”. É o que disse Lilia diante dos juízes.

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