Em 1781, Tupac Katari liderou a maior insurreição indígena contra o domínio colonial espanhol. No que ficou conhecido como “Cerco de La Paz”, os indígenas bloquearam os pontos de acesso a essa cidade em forma de cratera, e a cidade ficou isolada e sem provisões por seis meses. Katari foi capturado e esquartejado, com seus membros amarrados a quatro cavalos, para que depois seus restos mortais fossem exibidos como ameaça contra futuras rebeliões. Mas a lição já havia sido aprendida.
Desde então, os principais protestos dessa região do Altiplano utilizam esse mecanismo. Aconteceu em 1781 e acontece em 2026: as estradas foram bloqueadas e as imagens de prateleiras vazias nos supermercados e longas filas para conseguir combustível em La Paz se repetiram incessantemente.
Mas, ao contrário daquela outra época, desta vez o governo boliviano contou com o apoio inestimável de seus aliados na região. Tanto o presidente da Argentina, Javier Milei, quanto o do Chile, José Antonio Kast (Chile), enviaram aviões com suprimentos para ajudar a combater a escassez. No mesmo sentido, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que seu país “não permitirá que criminosos e narcotraficantes derrubem líderes eleitos democraticamente em nosso hemisfério”.
A irrupção de Paz
Embora a fragmentação do Movimento ao Socialismo (MAS), que governou o país por quase 20 anos, levasse a prever uma vitória da direita nas eleições de 2025, a irrupção da dupla Paz/Lara causou comoção e surpresa. O voto histórico do MAS — que representa sobretudo os setores indígenas e camponeses — não foi para a direita tradicional, mas para Paz, do Partido Democrata Cristão (PDC).
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“Ele venceu as eleições com o voto dos movimentos sociais disruptivos, que são os que agora estão mobilizados”, alerta a politóloga Susana Bejarano. “Havia também uma identificação com o vice-presidente, mas Paz rompe com (Edmand) Lara assim que assume, retira-lhe funções e o marginaliza. Ou seja, há um profundo mal-estar entre aqueles que o alçaram ao poder porque sentem que ele os deixou de fora, mas também com o tratamento dado a Lara, apesar de o vice-presidente também não ser o que esperavam”.
Em abril, a Central Obrera Boliviana (COB) apresentou ao governo uma lista de reivindicações, que foi respondida um mês depois e rejeitada quase na totalidade. As reivindicações eram, sobretudo, por aumentos salariais, embora o conflito de fundo seja pela propriedade da terra.
Apesar de a COB ter sabido canalizar o crescente mal-estar, um antecedente importante no desenrolar dos acontecimentos atuais é um Cabildo Abierto (Assembleia de cidadãos reconhecida na Constituição) convocado em 1º de maio pelo senador Milton Condori. Lá foi decidido que tanto os membros do Executivo quanto do Legislativo deveriam reduzir seus salários “para compartilhar entre todos” os efeitos da crise, mas a proposta foi rejeitada, o que aumentou a tensão.
“Tudo isso ocorreu, além disso, ao mesmo tempo em que o orçamento nacional estava sendo apresentado”, indica Bejarano. “Naquele momento, um renomado economista aimara, Gonzalo Colque, denunciou que, segundo constava nas planilhas, os legisladores haviam aumentado seus salários em 40%, o que aumentou ainda mais a indignação popular”.
Embora a COB agrupe demandas de diversos setores, fundamentalmente do magistério rural, a escalada do conflito possibilitou uma série de alianças que, devido a disputas internas, pareciam impensáveis até aquele momento, como a que estabeleceu com a Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Rurais da Bolívia.
Descontentamento popular
“O mundo indígena de La Paz está mobilizado em seu conjunto”, aponta Bejarano. “A Tupac Katari, que é um sindicato que agrupa as 20 províncias de La Paz, mas também os Ponchos Rojos, que, embora pertençam à Tupac Katari, são, por si só, uma organização social muito poderosa e com personalidade própria”. Outros setores mobilizados são as Federações Departamentais de Juntas de Vizinhança, os médicos, os mineiros e os motoristas, sobretudo de La Paz e El Alto.
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Embora na última quinta-feira (21) Paz tenha anunciado mudanças em seu Gabinete como resposta à escalada do conflito, até então o Governo havia optado por responder tentando estigmatizar os setores mobilizados. A estratégia buscava fazer de Evo Morales um bode expiatório e difundir a versão de que as mobilizações eram financiadas pelo narcotráfico. “Tudo isso revoltou ainda mais a população”, afirma Bejarano. “Por um lado, porque eles odeiam Evo, e por outro, porque não é verdade que ele esteja liderando-os, pelo menos não em sua totalidade”.
Morales é um dos líderes dos diversos movimentos, mas entre os rostos mais visíveis estão o de Mario Argollo — o secretário-geral da COB sobre o qual pesa um mandado de prisão — e o do senador Milton Condori. No entanto, segundo Bejarano, “na Bolívia, a única coisa que une, lidera e acalmou as divisões que havia dentro do movimento popular é um grande descontentamento com o governo”.
Paz assume em meio a uma grave crise econômica e a um profundo desgaste e descontentamento com o MAS e com a figura de Morales, que há algum tempo permanece recluso na região cocalera de Chapare. Lá ele vive protegido por seu núcleo duro, diante dos mandados de prisão emitidos contra ele por supostos crimes de abuso sexual de menores e tráfico de pessoas. Embora apoie os protestos, ele nega tê-los organizado e clama por eleições antecipadas.
A propriedade da terra
“É importante destacar que uma das maiores vitórias da mobilização foi a revogação [eliminação] da Lei 1720, que promovia a concentração de terras”, opina Bejarano. Embora a norma retome um antigo projeto que permite a conversão da terra e modifique o regime agrário boliviano, trata-se de uma questão extremamente delicada para a história desse país. “A ordem alcançada pela Reforma Agrária de 1953 permite manter certos equilíbrios em torno da posse da terra que impediram que conflitos semelhantes aos que ocorrem na Colômbia, por exemplo, se agravassem”.
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Nesse contexto, o acordo firmado entre a COB e os setores camponeses foi fundamental para a mobilização. São setores que sofreram um forte desgaste e disputas internas após quase 20 anos do MAS no poder, e que agora conseguiram alcançar certos consensos. Para muitos, o elemento essencial em todo esse tecido de protestos, e sua manutenção ao longo do tempo, é a presença dos camponeses, já que poucos setores contam com a força deles.
Pontos de inflexão
Uma das medidas mais impopulares tomadas por Paz logo após sua posse foi a eliminação do Imposto sobre Grandes Fortunas, com a desculpa de atrair investimentos e sanar as contas públicas. Em um contexto de crise econômica e austeridade, as classes populares interpretaram isso como uma traição e entenderam que o presidente em quem acabavam de votar governava para as elites.
Segundo escreve o jornalista Mijail Miranda para a Revista Anfibia, outro ponto de ruptura com o atual governo boliviano foi a nomeação como vice-ministro de Segurança Cidadã do ex-comandante policial Rodolfo Montero, “investigado e detido preventivamente por seu papel na cadeia de comando durante os massacres de Sacaba e Senkata em 2019 —que, após o golpe de Jeanine Áñez, deixaram pelo menos 20 mortos e centenas de feridos—, algo que o povo interpretou como um tapa na cara e uma traição aberta ao apoio popular transitório que Rodrigo Paz teve”.
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Por enquanto, o presidente boliviano não só parece perdido em seu próprio labirinto, como também é capaz, em um mesmo dia e em um mesmo discurso, de apelar ao diálogo e criminalizar os mesmos setores com os quais diz querer sentar-se para conversar. Pode ser que o discurso que tinha como eixo o desânimo com as forças do MAS — e suas diversas facetas — tenha servido de plataforma para vencer as eleições de outubro passado, mas já não é suficiente.
Além disso, a decisão de insultar e desacreditar os mesmos movimentos que o levaram ao poder não fez mais do que minar as bases de seu poder precário em tempo recorde.





































