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Magnífica Humanitas: as 10 inovações da Encíclica do papa Leão XIV para o mundo digital

Em encíclica, Papa clama por desarmamento e controle público sobre a inteligência artificial

Frei Betto
O papa Leão 14 durante missa na Praça São Pedro. (Foto: Catholic Church England and Wales / Flickr)
O papa Leão 14 durante missa na Praça São Pedro. (Foto: Catholic Church England and Wales / Flickr)
Há 135 anos, Leão XIII respondia aos desafios da Revolução Industrial com a Rerum Novarum. Agora, seu sucessor, Leão XIV, apresenta uma nova “carta social” para a era digital: a encíclica Magnífica Humanitas (Humanidade Magnífica). Mais do que um documento sobre inteligência artificial (IA), é um magistério inovador que recalibra a linguagem e o conteúdo da mensagem da Igreja para o século XXI. A seguir, os pontos que mostram como o Papa atualiza o olhar cristão sobre o mundo.

1. A Centralidade do Humano: o Papa fala de IA, mas seu foco é a pessoa. Enquanto a tecnologia é citada 14 vezes, a palavra “dignidade” aparece 98 vezes e “pessoa”, 158. O título Humanitas já é um manifesto: o debate não é técnico, mas antropológico.

2. Superação do Paradigma Tecnocrático: um dos maiores alertas é contra a lógica que faz da eficiência o “valor supremo”. Leão XIV denuncia a tentação de nos vermos como “projetos a serem otimizados” e as IAs que, ao imitar o humano, ameaçam reduzir o seu mistério a meros dados.

 Leia também – Em sua primeira exortação, Papa Leão XIV consagra a Teologia da Libertação 

3. O Fim da Teoria da Guerra Justa: ao declarar superada a teoria da “guerra justa”, a encíclica inova na Doutrina Social. Com armas autônomas e potencial destrutivo imenso, o Papa argumenta que o uso da força deve ceder lugar ao diálogo e à diplomacia, e reafirma a paz como único caminho válido.

4. O Poder Privado como Nova “Questão Social”: se antes o poder era dos Estados, hoje o motor da inovação está nas grandes empresas de tecnologia. A encíclica alerta que essas entidades privadas detêm soberania sobre dados e decisões, ditam novas formas de exclusão social e exigem um novo enquadramento ético.

5. Um Pedido de Perdão Histórico: em atitude sem precedentes, Leão XIV pede perdão pela demora da Igreja em condenar a escravidão no passado. Este gesto de humildade institucional busca purificar a memória e reforçar a urgência de combater as “novas escravidões” digitais.

6. O “Desarmamento” da Inteligência Artificial: o Papa introduz um conceito forte e original ao defender que a IA deve ser “desarmada”. Tal como fez com as armas nucleares, a Igreja clama por controle público e discernimento moral sobre uma tecnologia que, sem freios, pode amplificar a injustiça.
Leão XIV inova não apenas no conteúdo, mas também na linguagem de documentos pontifícios:

1. Torre de Babel vs. Jerusalém: em vez de jargões técnicos, Leão XIV usa a metáfora bíblica da Torre de Babel (que leva à confusão) versus a reconstrução de Jerusalém (que requer esforço paciente e comunitário). Isso traduz a escolha fundamental da humanidade: construir um mundo de dominação ou uma civilização do amor.

2. Glossário do Mundo Digital: a Igreja não se furta a usar a linguagem do nosso tempo. O documento explica conceitos como “algoritmo” (definido como uma série de instruções passo a passo), “alinhamento de IA” e “paradigma tecnocrático”, e mostra que o magistério compreende as ferramentas que analisa.

3. Diálogo Inclusivo e Pluriversal: a encíclica foge do monólogo ao citar pensadores tão diversos como Dorothy Day, J.R.R. Tolkien, Martin Luther King e Hannah Arendt. Leão XIV convida para o debate desde os engenheiros da empresa de IA Anthropic até vítimas da exclusão digital, e adota uma linguagem de escuta ativa e construção conjunta.

4. Narrativa da “Civilização do Amor”: o tom não é de condenação apocalíptica, mas de esperança ativa. O Papa desafia cada pessoa a não ser um “espectador passivo” ou um “arquiteto ganancioso”, mas um “construtor da civilização do amor”. A linguagem pastoral incentiva a ação positiva, não apenas a crítica, para que o digital seja habitat de fraternidade.

Com Magnifica Humanitas, Leão XIV demonstra que inovar não significa abandonar a tradição, mas aplicá-la com coragem aos sinais dos tempos. Ao humanizar o debate sobre a tecnologia, pedir perdão por erros passados e desarmar o discurso bélico, o Papa oferece um roteiro para que a inteligência artificial sirva para construir a Cidade de Deus – e não uma nova e desumana Torre de Babel.

(*) Frei Betto é escritor, autor do romance sobre ditadura militar “O Voo da Locomotiva” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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