“Há, assim, libertação nacional, quando e apenas quando as forças produtivas nacionais são totalmente libertadas de qualquer espécie de domínio estrangeiro. A libertação das forças produtivas e, consequentemente, a faculdade de determinar livremente o modo de produção mais adequado à evolução do povo libertado, abre necessariamente perspectivas novas ao processo cultural da sociedade em questão, conferindo-lhe toda a sua capacidade de criar o progresso.”
— Amílcar Cabral em A arma da teoria. Capítulo 5: A cultura nacional.
A República Socialista do Vietnã é uma das economias que mais crescem no mundo. Grande especialista sobre a República Popular da China, Elias Jabbour, em entrevista ao Brasil de Fato, deixa claro que esse crescimento é fruto do legado do processo revolucionário ocorrido no país.
Desde as décadas de 1970-1980, quando o liberalismo, reforçado pelas políticas de Ronald Reagan nos Estados Unidos, e Margareth Thatcher no Reino Unido, deu um salto qualitativo para o neoliberalismo, grande parte das nações recém-libertas do colonialismo se viram num retrocesso trazido pela nova forma do capitalismo mundial. Foram momentos difíceis para os povos do terceiro mundo, em especial aqueles que tentavam construir o socialismo sobre os escombros de formas feudais e de espoliação colonial. Muitos sucumbiram, sem outra opção senão aceitar os empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), em governos pós-coloniais que de anti-coloniais tinham apenas a aparência. O Vietnã, como a China, optou pelo caminho da chamada “reforma e abertura”. Não cabe discutir esse processo neste texto, dada a vastidão da discussão, e das linhas gerais que concordam e discordam sobre a efetividade desse processo – que, na União Soviética, por exemplo, culminou com o fim, formalmente, do primeiro estado socialista da história. [1]
O Vietnã, no entanto, se manteve firme, independente, ainda que as contradições sobre o projeto socialista do país sejam discutíveis. O que fica evidente, reafirmo, é que a existência livre e independente desse país se deu sobre as bases dos acontecimentos de 1945-1976. Esses 30 anos de luta forjaram o povo vietnamita num sentido nacional visto em poucos países. A memória das três guerras de libertação nacional travadas pelo povo se mantém viva nas mentes, nos monumentos, nos museus, e em qualquer outro espaço territorial. Esse processo é, em minha opinião, o mais fascinante de todos os processos revolucionários e de libertação nacional nos últimos dois séculos, porque envolve uma série de fatores.
Um país de pequenas dimensões – o 66º maior do mundo –, com uma geografia peculiar e uma formação social feudal foi capaz de vencer três das maiores potências coloniais do século 20: Japão, França e Estados Unidos. Em que pese toda a destruição causada no país pelos bombardeios, uso de armas químicas e agressões incessantes, essas três vitórias demonstram a força do povo vietnamita em seu projeto de libertação nacional, mas que não se limitava ao projeto de estado-nação. Outro ponto importante, de caráter militar, se refere às formas culturais do povo vietnamita, que não se limitou ao uso de armas convencionais. Os saberes populares sobre o território, sobre a estrutura das vegetações e florestas do país, além do conhecimento sobre a fauna, foram determinantes para que a criatividade do povo fosse usada como arma. Muitos são os vídeos e até mesmo passeios turísticos pelo Vietnã onde pessoas comuns podem visitar os famosos túneis usados pelos Vietcongs e conhecer as armadilhas e armas construídas pela população, a partir da base material da região, como bambus, cobras, vegetação, plantas venenosas, e outros elementos que a própria natureza do país propiciava.
É nesse aspecto que precisamos entender, também, o caráter da propaganda e da produção musical que emergiram no Vietnã, não apenas entre os autóctones, mas também o que se criou durante a luta contra a colonização da França, vencida na Batalha de Dien Bien Phu, até a vitória final contra os Estados Unidos, em 1975, com a queda de Saigon.
Da música popular à chamada Música Vermelha, passando pelo atual V-pop, o povo vietnamita construiu uma identidade nacional em meio às guerras e as vitórias épicas que fazem parte do legado mundial de memória anti-imperialista e anti-colonial; mais um belo capítulo da relação entre o marxismo e a luta contra a exploração colonial e racial.
A história da longa jornada de libertação do Vietnã é bem conhecida, embora talvez não tão celebrada na América Latina como é a libertação nacional de Cuba. Lembro que meu primeiro contato com o país foi por volta dos 12 anos de idade, ao assistir Fomos Heróis (2002), um filme americano sobre a Guerra do Vietnã, que, dentre outras coisas, escancara o racismo na forma pela qual os vietnamitas são retratados (basta lembrar da cena de um soldado francês levando um tiro na cabeça, a feição dos soldados do Vietcong, a coloração do filme, etc). O filme também cria uma narrativa heróica sobre a ocupação estadunidense no país, o que não tem lastro factual na história, se pensarmos na quantidade de civis mortos, na destruição do campo pelo uso de armas químicas e outros tantos crimes de guerra cometidos pelos norte-americanos. Passado mais de 20 anos, já consciente de que a Revolução Vietnamita foi o maior esforço anti-colonial do século XX, e talvez da história, me deparei com um vídeo do DJ Slowz, nascido em 1992, em Hanói, apresentando músicas nunca lançadas em vinil até o ano de 1975 – muito provavelmente por conta da guerra. Foi interessante ouvir Soul e Funky produzidos no Vietnã, como a faixa “Muốn Hỏi Tại Sao”, de 1974. Connie Kim, autora da faixa, é filha de Le Quang Anh, importante músico vietnamita. Connie tomou contato com a música estrangeira, especialmente estadunidense, por meio de discos recebidos do exterior, quando estudava na escola Dien Hong, o que parcialmente explica a produção de Soul e Funky no Vietnã.
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Mas há também a influência da ocupação francesa no Vietnã (1858-1954). Basta lembrar como os Harlem Hellfighters[2] levaram o jazz para a Europa durante a Primeira Guerra Mundial, se tornando um importante batalhão, formado somente de soldados negros, um dos mais combativos durante todo o conflito. É desse processo de transição cultural no período de guerras que muito da música ocidental chega às colônias, sendo apropriada tanto pelas elites nacionais quanto pelos povos massacrados: camponeses, operários, uma parcela da burguesia nacional e outros condenados. A música produzida nos Estados Unidos durante o conflito no Vietnã é extensamente estudada, e nomes como Gil Scott-Heron, Archie Shepp[3], Bob Dylan e Aretha Franklin são de extrema importância nessa produção musical anti-guerra. Esse movimento na metrópole foi muito importante para o fim da guerra, mas eu queria entender o que era produzido do outro lado; do lado dos que estavam vivenciando o colonialismo há 100 anos. Pois, se a história é contada pelos vencedores, neste são os vietnamitas que têm o direito de o fazer.
Do Nam Việt ao Vietnã. Do colonialismo ao socialismo.
Não oferecer aqui uma história robusta do Vietnã e do seu período colonial. Obras como “A Revolução Vietnamita: Da libertação nacional ao socialismo”, de Paulo Fagundes Visentini; “Vietnã do Norte – Advertência aos agressores”, de Antônio Callado; e “Do Colonialismo Ao Comunismo”, de Hoang Van Chi; além do ótimo vídeo do professor e militante maoista João Carvalho, dão conta de introduzir e aprofundar sobre esse momento histórico. Porém, é importante entender aqui um panorama geral do Vietnã, desde o início da ocupação francesa até o fim da guerra entre a República Socialista do Vietnã e a República Popular da China.
Entre 1858 e 1885, uma série de expedições coloniais foram conduzidas pelo Segundo Império Francês e a Terceira República Francesa, que em 1887 estabeleceu a Indochina Francesa num protetorado que abrigava Vietnã, Laos e Camboja. A ocupação deu fim à Dinastia Nguyễn, a última do VIetnã. A região foi usada como fornecedora de matérias-primas, produção agrícola (especialmente o arroz), extração de borracha e minérios, além de servir, do ponto de vista geopolítico, como forma de avançar o imperialismo no sudoeste asiático. Muitos levantes aconteceram nesse período, como os movimentos pró-monárquicos, como o Cần Vương, até manifestações de massa de caráter nacionalista.
No começo do século XX, após uma série rebeliões, entra em cena o Việt Nam Quốc Dân Đảng (Partido Nacionalista do Povo), que lidera o Motim de Yên Bái, em 1930. Ainda na década de 1930, com a Frente Popular comandando a França – o que, substancialmente, não modificou o caráter colonial do governo, ainda que a Frente fosse uma coligação de partidos de esquerda –, uma nova rebelião eclodiu na região da Cochinchina, dessa vez organizada pelo Partido Comunista do Vietnã, fundado em 1930 por Ho Chi Minh, o grande herói da libertação nacional vietnamita. Daí em diante, os comunistas, liderados por Ho e pelo invencivel Võ Nguyên Giáp, passaram a ser cada vez mais protagonistas da luta anti-colonial no país. A primeira grande vitória ocorreu em 1945, com a proclamação da República Democrática do Vietnã, vencendo o Império Japonês, que em 1940 havia tomado a Indochina dos franceses durante a Segunda Guerra Mundial. Essa vitória foi alcançada por uma coalizão mais ampla, envolvendo comunistas e nacionalistas, chamada Viet Minh, também criada e conduzida por Ho Chi Minh. Esse ponto é interessante, pois em muito se assemelha ao que aconteceu durante a Revolução Chinesa, e ilustra a inovação do marxismo aplicado às lutas de libertação nacional.
Assim que o Japão se rendeu, a França retomou o controle da Indochina, iniciando a Guerra do Vietnã (1945-1946), com vitória dos franceses e a coalizão envolvida no objetivo de derrubar o Viet Minh. Tomado o lado sul do Vietnã, os grupos de resistência se retiram para o campo. Em 1946, eclode a Primeira Guerra da Indochina (1946-1954), retratada no filme Fomos Heróis. A derrota francesa foi humilhante. Usando táticas de guerrilha, o Viet Minh – apoiado pela República Popular da China, já sob o governo socialista de Mao Tsé-Tung, e pela União Soviética – selou a expulsão dos colonialistas franceses na célebre Batalha de Dien Bien Phu. Muitos soldados franceses jamais voltaram para casa, sejam vivos ou num caixão. Era o segundo império derrotado pelo Viet Minh, algo extraordinário para as condições materiais do país, mas que exprime como a guerra depende de muito mais do que armas. Laos e Camboja se tornaram independentes ao final dessa guerra, mas, assim como a Coreia, o Vietnã foi dividido em dois, com os comunistas à frente do norte e o sul ficando sob o comando de uma série de partidos e políticos, como os remanescentes do Việt Nam Quốc Dân Đảng (Partido Nacionalista do Povo), com um caráter pró-ocidental e capitalista. Essas seriam as condições para que os Estados Unidos, uma das duas grandes potências saídas da Segunda Guerra Mundial, pudessem ocupar o vácuo deixado pela França, iniciando a mais famosa das guerras do Vietnã.
Os 20 anos de guerra foram nefastos para o Vietnã. Os Estados Unidos, num processo de ocupação dos antigos territórios coloniais europeus, e no desejo de frear a expansão do socialismo e das lutas de libertação nacional, que estouraram na Ásia, África e América Latina, atravessaram o mundo para tentar destruir uma nação há muito fragilizada pelas guerras de resistência. Os números de civis mortos variam entre 1 e 2 milhões. A destruição do solo pelo uso de Agente Laranja, Agente Azul e Napalm trouxe consequências ambientais devastadoras, além da ocorrência de uma série de doenças, como o câncer, entre a população. A icônica foto de uma criança fugindo dos gases usados pelos estadunidenses, a “Garota Napalm”, é um símbolo dessa irracionalização do colonialismo. Mas o Vietnã venceu. Quase 60 mil soldados estadunidenses voltaram para casa encaixotados, muitos deles jovens, negros, lutando contra um inimigo que mal sabiam localizar no mapa. Foi a terceira vitória do Vietnã contra uma potência imperialista em 30 anos. Norte e Sul foram unificados, Ho Chi Minh foi alçado ao posto de um dos maiores líderes comunistas de todos os tempos, e Vo Nguyen Giap se tornou o maior estrategista militar do século 20. O Vietnã estava, enfim, livre.
Houve muitas contradições nesse processo, além de outros acontecimentos que influenciaram esses três momentos da luta – como a participação da China na guerra, a posterior guerra desse mesmo país contra o Vietnã, os conflitos do Vietnã contra o Khmer Vermelho de Pol Pot, dentre inúmeros outros acontecimentos, que, como no início do texto, podem ser compreendidos de maneira mais profunda nas obras indicadas. Esse panorama serve muito mais como um orientador para os que desconhecem a história desse país, e para que possamos nos aprofundar na música produzida no Vietnã durante o longo século de lutas de libertação.

A música vermelha como expressão cultural da libertação nacional vietnamita
Antes da ocupação francesa, predominavam o Quan họ e o Hát đối, músicas folclóricas vietnamitas, com características semelhantes à música tradicional africana, como o jogo de pergunta e resposta. Entre as décadas de 1940 e 1980, a música popular vietnamita se desenvolveu, relacionando-se de forma crítica com a música ocidental. Esse período vai dos confrontos da Guerra do Vietnã (1945-1946), a Primeira Guerra da Indochina (1946-1954), a Segunda Guerra do Vietnã (1955-1975), e as guerras contra o Camboja (1978-1979) e contra a China (1979), e precede o Doi Moi, processo de reforma e abertura do socialismo vietnamita. A música tradicional vietnamita também está inserida em cerimônias religiosas – como no caso do Chầu văn, utilizada para evocar espíritos durante os ritos –, no cotidiano e em festivais tradicionais. Diversos grupos étnicos que formam a nação têm influência nessa música, além da relação com a sonoridade de outras culturas asiáticas, em especial a chinesa, estabelecida especialmente durante a ocupação imperial sobre o país, entre os 110 Antes da Era Comum e o século 10. Essa influência se materializa também em instrumentos musicais utilizados na música tradicional vietnamita, como flautas, cítaras, harpas e erhu. A descoberta de um instrumento de cordas feito a partir de um chifre de veado, datado de 2.000 anos, indica as origens antigas dessa música.[5] É fato, no entanto, que a popularidade desses gêneros não era um fenômeno universal no Vietnã, visto que existem gêneros estritamente produzidos e consumidos pelas cortes imperiais, como o tambor Trống cơm e o estilo Nhã nhạc.
Já a influência europeia e estadunidense, como já tratei no início do texto, se deu por vários fatores[6], sendo um dos principais deles a postura amigável das elites vietnamitas com os impérios coloniais, a expansão de culturas ocidentais por meio das guerras do início do século 20, e a captura de formas musicais estadunidenses, especialmente dos afro-americanos, durante a longa guerra. Alguns dos mais famosos cantores e estilos músicais do que podemos chamar de Vietnã moderno são Lam Phương (que cantava baladas românticas), Cải lương (espécie de ópera folclórica muito popular entre as classes média e baixa do sul do Vietnã), Phạm Duy (que foi aluno de Vo Nguyen Giap, e após desentendimentos com o Viet Minh, se exilou nos Estados Unidos e teve a sua música taxada por Đỗ Nhuận como “música tipicamente reacionária do sul”), e por fim, Trịnh Công Sơn, considerado o maior compositor do Vietnã. Trịnh é um personagem ambivalente na história recente da cultura vietnamita. Ao mesmo tempo em que suas composições tratavam dos dilemas da guerra, como a perda de pessoas queridas, e a longa subjugação do país à povos estrangeiros (“Gia tài của mẹ”, de 1965) – o que lhe trouxe a alcunha de “Bob Dylan Vietnamita” –, o cantor também era crítico de ações cometidas pelo Viet Minh, como o chamado Massacre de Huế (“Hát Trên Những Xác Người”, de 1968). Em 1975, o cantor foi à rádio em Saigon cantar “Nối vòng tay lớn”, escrita em 1968, uma música que falava sobre o sonho de reconciliação entre o norte e sul do país, finalmente consumado. Ainda assim, Trihn foi enviado para um “requalificação profissional”, e somente anos depois a sua música foi homenageada pelo estado vietnamita. Quando faleceu, em 2001, milhares de pessoas foram às ruas lhe prestar homenagens.
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Outro importante nome da música vietnamita foi Đỗ Nhuận. Diferente da música romântica que ainda predominava nos meios culturais do país, Nhuận foi grande compositor de música patriótica. Entre 1939 e 1941, lançou algumas óperas, que despertaram o interesse do Viet Minh pela sua obra, fato que o levou a ser responsável pela impressão e distribuição de panfletos políticos e de propaganda revolucionária, além de auxiliar na mobilização de estudantes, se tornando um importante quadro do Viet Minh.[4] Durante o final da década de 1960, com a guerra contra os Estados Unidos quase chegando ao fim, Đỗ Nhuận se tornou um grande crítico da música pop produzida no sul do Vietnã, além de ocupar o cargo de Secretário Geral da Associação de Músicos do Vietnã por quase 30 anos.

Mas, antes do advento da música vermelha, existiu a chamada música amarela, conhecida como Nhạc vàng. Na China, esse tipo de música era conhecida como Huángsè Yīnyuè, ou seja, o jazz e a música pop que predominavam no país entre 1920 e 1940. O Partido Comunista Chinês rotulava o gênero como C-pop, a Música Popular Chinesa. No Vietnã, pela forte influência chinesa, o gênero chegou com outro nome, mas também com a mesma estética pop, num momento em que o país ainda vivia as contradições de classe em uma tentativa de unidade nacional contra o imperialismo. Até por conta disso, a música amarela fazia alusão à bandeira do Vietnã do Sul, desenhada pelo Imperador Thanh Thai em 1890, usada pelo Imperador Bao Dai em 1948, e utilizada até 1975, com a queda de Saigon. A música amarela era uma forma cultural de estancar a influência do comunismo no país, e consequentemente, da música vermelha. Após a vitória da revolução, esse tipo de música foi gradativamente banida do país. Nas últimas décadas, com os processos de reforma e abertura, a música amarela vem ganhando mais atenção no país, incluindo o bolero.[7]
Um nome importante do processo de florescimento da música vermelha é o de Trọng Tấn, cantor e professor de música. Após concluir o ensino médio, Trọng foi admitido na Academia Nacional de Música do Vietnã por intermédio de Trần Hiếu, dono do título Nghệ sĩ Nhân dân (Artista do Povo do Vietnã), semelhante ao Artista do Povo da URSS. Trọng Tấn ficou conhecido como Hoàng tử nhạc đỏ (Príncipe da Música Vermelha), tamanha foi sua influência no gênero, embora tenha nascido um ano após o final da Guerra do Vietnã. Filho do processo de formação da nova nação, o cantor dedicou a vida a gravar e interpretar canções revolucionárias de artistas como Huy Du, Hoang Viet e Phan Huynh Dieu. Essa construção se deu num período em que a nação tentava construir o socialismo, e em que apostava em formas socialistas de educação e cultura.
Esses artistas são fruto, também, de uma outra grande iniciativa dos revolucionários vietnamitas: a Rádio Voz do Vietnã, fundada em 1945. A rádio foi instrumento de forte apelo de massa, visto que, até a libertação dos franceses, a administração colonial proibia que os vietnamitas possuíssem receptores de rádio, e a radiodifusão estava sob controle dos franceses. Quando Ho Chi Minh proclamou a independência do país do jugo francês, o fez por um sistema improvisado de alto-falantes, que chegavam a milhares de pessoas. Esse foi o embrião da rádio. Antes uma simples estação de rádio nacional, o Voz do Vietnã foi responsável por transmitir, direto de Hanói, então capital da República Democrática do Vietnã, Diệt Phát Xít (“Destruam os Fascistas”), um hino patriótico da Revolução de Agosto, que serve até hoje como o hino oficial da rede de rádio.[8] Em 1978, após a reunificação do país, todas as rádios do Vietnã foram incorporadas à Voz do Vietnã, que depois se tornou ainda maior, passando a cumprir o papel de propaganda do partido. Outro episódio importante, ocorrido em 1967, foi a transmissão da mensagem “A Grande Vitória, a Grande Tarefa” por Võ Nguyên Giáp, considerado um prelúdio da Ofensiva de Tet. Fica claro, assim, a importância do rádio na divulgação dos ideais revolucionários no Vietnã, devido tanto ao seu alcance de massa, quanto à possibilidade de transmissões clandestinas, a partir de rádios descentralizadas e equipamentos roubados da ocupação colonial ou construídos de forma rudimentar.
Algumas músicas se tornaram símbolos dessa grande era. Cô gái mở đường (“As Garotas que Abriram a Estrada”), é uma das canções mais importantes dessa era, por homenagear as mulheres que mantiveram as rotas de abastecimento do Vietnã durante a guerra Vietnã, ao longo da Trilha Ho Chi Minh, uma rede secreta vital utilizada para transportar soldados e suprimentos para o sul do país.
“Caminhando sob o céu noturno, estrelas cintilando
Uma canção ecoa pelas árvores da floresta
Poderia ser você, a garota que abre o caminho?
Não consigo ver seu rosto, apenas ouvir sua canção.”
O compositor, Xuân Giao, costumava coletar material para suas composições diretamente do campo de batalha, num exercício parecido ao que clamava Sékou Touré: “Não basta escrever um canto revolucionário para participar na revolução africana; é necessário fazer essa revolução com o povo e os cantos virão sós e por si mesmos.”[9] Outra famosa canção de Xuân Giao é Đêm Qua Em Mơ Gặp Bác Hồ (“Na noite passada sonhei que encontrei o tio Ho”), onde ele declama a importância do pai do Vietnã moderno.
Segundo o autor Vu Hoang Long, “o poder duradouro da canção reside em como ela transforma esses sacrifícios individuais em uma narrativa coletiva de progresso revolucionário. A garota sem rosto torna-se um símbolo de todos aqueles que trabalharam incansavelmente não apenas pela libertação do Vietnã, mas também por sua progressão rumo ao que se acreditava ser o estágio final do desenvolvimento social, o comunismo. Suas histórias pessoais foram absorvidas por uma narrativa maior de inevitabilidade histórica.”[10]

A Ofensiva do Tet teve sua importância não apenas no âmbito militar, ainda que tenha sido uma derrota militar dos revolucionários vietnamitas. Na opinião pública dos EUA, ela escancarou a realidade da guerra, da situação dos soldados estadunidenses, muito diferente da propaganda de Estado norte-americano, e do que se conhecia sobre o pequeno país asiático. Como era possível que aquelas imagens da ofensiva fossem verdadeiras, se o que se conhecia sobre o Vietnã parecia tão real – um pequeno território com soldados mal equipados e atrasados? A ofensiva mudou o curso da guerra, e consequentemente, se tornou símbolo máximo da vitória, o que gerou uma infinidade de músicas, com destaque para “Marcha para Saigon”, e “Cantando Nossa Vitória”. Ambas as canções, como outras centenas, são de domínio público, por não ser possível identificar seus autores. Além disso, são demonstrativas da mistura entre instrumentos tradicionais vietnamitas e outros, importados do ocidente durante as dinastias vietnamitas e a ocupação colonial.[11] Nisso reside, também, a afirmação de Vu Hoang Long sobre o caráter coletivo da construção cultural do país durante o período de guerras.
Boa parte da forma com a qual a música vermelha se expressou no Vietnã tem influência direta do Realismo Socialista, termo cunhado por Ivan Gronsky e desenvolvido como filosofia artística e estética por Andrei Zhdanov. Trường Chinh, Secretário Geral do Partido Comunista do Vietnã entre 1941 a 1956, proclamou o discurso “Marxismo e Cultura Vietnamita”, em 1948, visto como o ponto de partida para a adequação da cultura vietnamita ao realismo socialista.[12] Muitas discussões se seguiram durante décadas sobre a adoção dessa filosofia de arte no país. Tensões entre seus defensores e aqueles que viam o realismo como uma forma de encaixotar a expressão cultural moldaram as décadas seguintes. Apesar de abandonado formalmente pelo estado vietnamita, o realismo segue influente no país. Tình ca ‘ (“Canção de Amor”), composta por Hoàng Việt em 1975, expressa essa tensão. Inicialmente um compositor de música romântica no sul do país, ele aderiu ao movimento revolucionário, e em 1954 se mudou para Hanói, deixando esposa e filhos. A música expressa um sentimento individual do autor – ainda que fosse um sentimento compartilhado por toda uma nação dividida e em guerra –, lamentando a saudade e a distância da família. A canção foi vista como um sinal de “fraqueza pessoal”, sendo proibida pelas autoridades revolucionárias, numa tentativa de manter uma propaganda de guerra que fosse firme na causa, mostrando a fortaleza e a firmeza dos combatentes. A canção só foi autorizada em 1967, mesmo ano em que Hoàng Việt foi morto durante um bombardeio americano.
Com o progresso da libertação nacional e o fim da guerra, o Vietnã pôde, entre muitas aspas, se preocupar somente com seu desenvolvimento, e isso diz respeito, também, ao cuidado com a cultura produzida nas longas décadas de guerra. Esse esforço foi, de certa forma, dividido com o mundo anti-imperialista. A coletânea “Vietnam Will Win!”, lançada em 1971 pela gravadora americana Paredón Records, fundada pelos ativistas políticos Barbara Dane e Irwin Silber, é um ótimo exemplo desse internacionalismo cultural. No mesmo ano, a gravadora lançou “Vietnam: Songs of Liberation”, coletânea de músicas vietnamitas cuja maioria dos autores, senão todos, são desconhecidos. Por fim, em 1976, a gravadora lançou “The Legacy of Ho Chi Minh”, coletânea que mistura discursos e canções revolucionárias. Essas três coletâneas são importantes por colocarem a produção cultural vietnamita no período de guerras em destaque. Em contrapartida, muito do que foi produzido nos Estados Unidos durante os anos 1960 e 1970, principalmente por artistas negros, ajudou no processo de conscientização doméstico sobre a guerra, ainda que não necessariamente essa consciencia das pessoas comuns passasse pela empatia com os vietnamitas, sendo, muitas vezes, somente uma negação do que seus compatriotas vivenciavam na guerra: mortes, amputações, o medo da selva e das armadilhas vietnamitas. Ainda assim, é importante destacar que alguns discos e singles só foram possíveis devido ao clima político nos Estados Unidos. “What’s Going On”, o clássico de Marvin Gaye, foi parte do caldo entre a luta pelos direitos civis, o nacionalismo negro, a ascenção do movimento Black Power e o que ocorria no Vietnã. “What’s Happening, Brother” relata a vivência de seu irmão, Frances Timothy Gaye, que serviu como locutor de rádio do exército estadunidense no Vietnã. No mesmo ano, o grupo Sly & The Family Stone lançou “There’s a Riot Goin’ On”, um dos discos mais importantes do Funky. Inicialmente batizado de “Africa Talks to You”, Sly resolveu mudar o nome do disco para soar como uma resposta ao álbum de Marvin Gaye, lançado cinco meses antes. Outra obra monumental, e talvez a mais importante desse glorioso ano de 1971, é “Pieces of a Man”, de Gil Scott-Heron. Fortemente influenciado pelo Partido dos Panteras Negras, Heron cantou sobre as crianças, questões de raça, classe, e seu repúdio à Guerra do Vietnã e ao que ela causava nos dois lados do conflito. Outras músicas como “Fortunate Son”, da banda Creedence Clearwater Revival, “All Along the Watchtower”, de Bob Dylan, e “The Backlash Blues”, de Nina Simone, são pequenos exemplo da grandiosidade do que artistas-revolucionários criaram em sintonia com a justa guerra de libertação vietnamita.
Diệt Phát Xít (“Destruam os Fascistas”), hino anti-fascista vietnamita.
Parte dessa história, é verdade, viveu às sombras das produções estadunidenses sobre o tema. Hoje, a história pode ser contada pelo lado vietnamita, como nem sempre foi possível. As coletâneas, a história da rádio Voz do Vietnã, os compositores anônimos ou famosos, e mais recentemente a internet, colaboram para que o lado dos vencedores seja contado. Já citado no início do texto, DJ Slowz tem feito um trabalho monumental de divulgação de músicas revolucionárias vietnamitas. Ao ouvir sua seleção de Funky e Soul, não deixo de pensar sobre como, em momentos de cisão revolucionária, Fanon ressurge como um terremoto, com seu argumento de que a cultura realmente importante nesses períodos é a revolucionária, não havendo espaço para que imposições sobre a pureza cultural superem o elemento principal, que é a luta de libertação por meio das ferramentas disponíveis e corretas para tal. No curso dos acontecimentos, o povo vai descobrindo que o nacionalismo cultural nada mais é do que uma peça de museu, e que o novo pode surgir de todos os lados. Foi assim que o Vietnã, utilizando técnicas autóctones de cultura, defesa e ataque, em paralelo ao que foi aprendendo – e apreendendo – ao longo dos combates e da formação política, conseguiu derrotar três dos maiores impérios coloniais do século 20 e a maior potência imperialista jamais vista na história humana.
Passados mais de 50 anos do fim da guerra, os feitos desse povo não devem ser esquecidos, e, mais do que nunca, é importante reafirmar a cultura produzida pelas massas revoltosas e vitoriosas: ela é um lembrete para os tempos modernos de que nenhum tigre de papel é tão medonho quanto parece.








































