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O levante na Bolívia

Mais de 50 dias de bloqueios e greves na Bolívia colocam o governo de Rodrigo Paz à beira da queda e reabrem a disputa pelo futuro do Estado plurinacional

Forrest Hylton
Manifestação em La Paz, na Bolívia. 22/05/2026. (Foto: Daniel Alejandro Quiroga / CC Mídia NINJA)
Manifestação em La Paz, na Bolívia. 22/05/2026. (Foto: Daniel Alejandro Quiroga / CC Mídia NINJA)

No poder há apenas seis meses, o governo do presidente de centro-direita da Bolívia, Rodrigo Paz Pereira, está por um fio. Cinco semanas de cerco e greves paralisaram efetivamente o país. Bloqueios nas estradas, liderados por milhões de camponeses, em sua maioria indígenas, cercam La Paz e continuam em vigor em cinco dos nove departamentos da Bolívia – Santa Cruz, Oruro, Potosí, Chuquisaca e Cochabamba. Professores estão em greve ao lado de mineiros, operários, trabalhadores do transporte e dos comitês de bairro (FEJUVE) de El Alto, cidade irmã de La Paz. Com vista para a capital a partir da orla do planalto, El Alto conecta La Paz ao resto da Bolívia andina. Com mais de 900 mil moradores – em sua maioria migrantes, da classe trabalhadora e indígenas –, a cidade tem sido o centro dos protestos, unindo-se às terras altas do oeste e aos vales do planalto, onde vive a maior parte dos 11,4 milhões de habitantes da Bolívia.

A exigência imediata dos manifestantes é a renúncia do presidente. Desde que assumiu o cargo em janeiro, Paz tem respondido à grave crise do custo de vida e à inflação galopante na Bolívia cortando gastos, reduzindo subsídios aos combustíveis e vendendo empresas estatais, traindo sua agenda de “capitalismo para todos”. Ao restabelecer as relações com os EUA, ele se alinhou a Trump e priorizou os interesses dos setores de mineração, energia, finanças e agronegócio. Bloqueios de estradas e protestos começaram a se espalhar desde o início de maio, com manifestantes exigindo o fim do uso de decretos inconstitucionais e da proposta de criminalização do protesto social; nenhuma privatização de empresas estatais, como as de eletricidade e água, nem aumentos nas tarifas; nenhum empréstimo apoiado pelo FMI nem programas de ajuste estrutural – uma promessa de campanha da qual Paz se retratou; o fornecimento de combustível que não danifique os veículos (em oposição ao “combustível de baixa qualidade” que o governo tem fornecido para cobrir a escassez) e o reembolso por reparos nos veículos; subsídios para combustível e pão e controle dos preços dos alimentos básicos; e nenhuma nova lei que ceda direitos minerais e fundiários em acordos secretos com governos estrangeiros e multinacionais.

Os trabalhadores do setor de transportes permanecem em greve por tempo indeterminado em La Paz, motivados pela escassez crônica de combustível. Nem ônibus, nem micro-ônibus, nem táxis estão circulando na capital, que está dividida por bloqueios de estradas que separam o norte e o centro da cidade da abastada zona sul. Quem tem condições de comprar combustível não consegue dirigir para longe. Com exceção de uma via aberta intermitentemente para os vales subtropicais de Yungas, no nordeste, e de outra abertura realizada em 6 de junho pela polícia e pelas forças armadas em Río Abajo, na zona sul — por onde chegam frutas e verduras —, o bloqueio isolou La Paz completamente. Milhares de caminhões estão paralisados nas rodovias, com os caminhoneiros dormindo nos veículos e cozinhando em conjunto. Os produtos agrícolas são escassos, e os preços dispararam para os alimentos que ainda restam, incluindo itens básicos como batata, farinha, pão, leite e ovos. As pessoas ficam horas na fila para conseguir combustível ou frango antes que acabem. O preço da carne moída está astronômico. Os hospitais carecem de oxigênio e medicamentos; as farmácias têm dificuldade em atender às receitas médicas. O Fundo Nacional de Saúde anunciou que, a menos que o bloqueio seja suspenso, os suprimentos médicos podem se esgotar em breve. As ambulâncias — usadas por governos anteriores para transportar armas e a polícia militar — não têm permissão para passar pelos bloqueios nas estradas.

As áreas mais fortemente bloqueadas estão nas regiões onde predominam os falantes de quíchua e aimará, que ajudaram Paz a garantir a presidência. Em grande parte devido à campanha populista do vice-presidente Edmand Lara – a quem Paz, desde então, marginalizou –, Paz venceu com folga em El Alto, bem como nas terras altas do oeste e nos vales das terras altas. Muitos eleitores agora se sentem traídos. Na visão daqueles que marcham e guarnecem as barricadas, foram eles que colocaram Paz no poder, e chegou a hora de destituí-lo. Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989–93), Paz estudou na American University, em Washington, DC, e seu governo é composto por figuras do establishment que ganharam experiência em instituições internacionais e no setor privado; em contraste com seus antecessores, seu governo não inclui figuras dos movimentos indígenas, das organizações camponesas ou dos sindicatos de mineração, e conta com muito poucas mulheres. O que está em jogo nesse impasse é o significado da “democracia”, o futuro do Estado pluriétnico da Bolívia, a soberania sobre a terra, os minerais e recursos naturais, e a implementação da Constituição. As implicações são tanto geopolíticas quanto internas: como afirmou um líder sindical de Oruro, acusando Paz de governar para as “classes abastadas” (las clases pudientes), “não seremos uma colônia dos Estados Unidos”.

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As manifestações são organizadas por federações de camponeses e trabalhadores de longa data. A CSUTCB (Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Rurais da Bolívia), fundada em 1979, organiza os camponeses por região — planalto ocidental, vales e planícies orientais —, departamento, província, cantão e municípios-ayllus (povoados cercados por comunidades camponesas e pastorais andinas) que também atuam como sindicatos rurais (sindicatos agrarios). Os líderes se reúnem com os membros em assembleias para discutir e definir estratégias e táticas; eles prestam contas à base, devem expressar suas demandas e estão sujeitos a destituição. As resoluções aprovadas pelo comitê executivo são publicadas, discutidas e implementadas em cada nível territorial. A COB (Central Operária Boliviana), a confederação sindical fundada em 1952, segue uma estrutura organizacional e um sistema de liderança semelhantes. Em seu apogeu, nas décadas de 1950 a 1980, ela representou efetivamente a sociedade civil. Embora suas fileiras tenham diminuído desde então — em grande parte devido à privatização e à desindustrialização, iniciadas sob o mandato do tio-avô de Paz Pereira, Víctor Paz Estenssoro, que foi presidente no final da década de 1980, e continuadas sob o mandato de Jaime Paz Zamora no início da década de 1990 —, ela continua sendo uma força poderosa.

A mobilização contra o atual governo começou em janeiro, em resposta à aprovação de uma legislação de “emergência” que buscava atrair investimento estrangeiro por meio da redução drástica das regulamentações em setores-chave da economia e da concessão de isenções fiscais em grande escala, entre outras medidas impopulares, incluindo a eliminação dos subsídios aos combustíveis. Após três semanas de protestos, Paz assinou um acordo com a COB e a CSUTCB para modificar a legislação. Então, no início de abril, Paz tentou aprovar uma controversa reforma agrária – a Lei 1720 –, que teria aberto as propriedades indígenas e camponesas às corporações. Ela foi revogada um mês depois, em 13 de maio, depois que trabalhadores dos departamentos de Beni e Pando, no norte da Amazônia, marcharam até La Paz, onde se juntaram ao sindicato dos mineiros, o FSTMB (Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia), e a representantes da CSUTCB.

Em abril, a liderança da CSUTCB realizou uma assembleia, aprovou resoluções, enviou a Paz uma petição com reclamações – incluindo promessas de campanha não cumpridas – e concedeu-lhe três semanas para responder. A COB seguiu o exemplo. Liderada pela FSTMB, a federação ajudou a iniciar mobilizações em 1º de maio, ao lado da Confederação Túpac Katari, a organização regional radical da CSUTCB que abrange as 20 províncias do departamento de La Paz. Em 18 de maio, quando dezenas de milhares de sindicalistas camponeses indígenas marcharam junto com mineiros de Oruro, Potosí e La Paz, e a Central Regional dos Trabalhadores (COR) de El Alto e La Paz, foram recebidos com gás lacrimogêneo e balas de borracha. Em resposta, tentaram romper as linhas policiais que guardavam o Palácio Quemado para forçar a renúncia de Paz, mas não eram em número suficiente. O mesmo aconteceu em 22 de maio.

Após duas semanas de bloqueios, Paz transportou dez toneladas de frango de Santa Cruz para La Paz em um avião emprestado pelo presidente argentino Javier Milei; na semana seguinte, 70 cisternas de gás foram trazidas com sucesso de El Alto. Os governos do Peru, do Chile e do Brasil também se ofereceram para enviar “ajuda humanitária” – alimentos, combustível, medicamentos – para La Paz, Santa Cruz e, especialmente, Beni, cujo governador declarou emergência humanitária. (Tal generosidade não foi demonstrada em relação a Cuba, que sofre com o bloqueio dos EUA.) Em 20 de maio, Paz anunciou que não renunciaria nem entraria em diálogo com os manifestantes até que estes se desmobilizassem, alegando que “bloqueios significam morte”. Em vez disso, prometeu uma reforma ministerial, ofereceu-se para reduzir seu salário e o de seus ministros e propôs um “Conselho Econômico e Social” para discutir – por meio de reuniões mensais – as reformas que planeja implementar, incorporando “todos os setores” ao seu governo.

Enquanto isso, em 25 de maio, o primo de Paz, o ministro de Obras Públicas Mauricio Zamora, chefiou uma “missão humanitária” liderada pelos militares e pela polícia – ostensivamente destinada a abrir a estrada entre La Paz e Oruro para permitir a passagem de oxigênio, medicamentos e alimentos. Durante a operação, Víctor Cruz Quispe, um jovem de 24 anos, pai de dois filhos e membro da comunidade aimará de uma pequena cidade ao sul de La Paz, foi baleado e morto. O governo inicialmente negou que a morte tivesse ocorrido; posteriormente, a polícia divulgou um relatório afirmando que provavelmente se tratou de fogo amigo. Manifestantes ocuparam o centro de La Paz, descendo em colunas sucessivas de El Alto e subindo pela zona sul a partir de Río Abajo e Chasquipampa, em dezenas de milhares, reiterando o apelo para que Paz renuncie e exigindo justiça para a viúva e os filhos de Cruz Quispe. Eles cercaram o Palácio Quemado, embora não tenham tentado invadi-lo.

Em resposta, a polícia realizou batidas nas residências e albergues de líderes de movimentos sociais, especialmente em El Alto, apesar do pedido do vice-presidente Lara para que fossem suspensas. A libertação dos presos e o cancelamento dos mandados de prisão tornaram-se outra das principais reivindicações dos manifestantes; cerca de 500 pessoas estão detidas atualmente, segundo a liderança da CSUTCB. A mídia informa que pelo menos quatro manifestantes morreram, um deles nos confrontos, além de outras oito pessoas que faleceram porque os bloqueios nas estradas os impediram de receber atendimento médico. Pelo menos quatorze policiais ficaram feridos nos confrontos; não temos um quadro claro de quantos manifestantes ficaram feridos.

Paz insistiu que não planeja privatizar empresas estatais nem impor ajustes estruturais em troca de empréstimos do FMI. Mas isso não teve eco. Até o momento, os mineiros cooperativistas de Oruro, Potosí e La Paz são o único grupo a suspender a mobilização. Quando representantes da associação de migrantes quechua-aimarás do altiplano, na região de Yungas, se reuniram com Paz em 26 de maio, a base convocou uma assembleia, rejeitando a autoridade deles, e impôs um bloqueio.

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Para o governo de Paz, essa mobilização tem precedentes marcantes. Em 2003 e 2005, dois presidentes consecutivos foram derrubados quando, após décadas de reestruturação neoliberal, insurreições populares paralisaram o país. Naquela época, assim como agora, os principais protagonistas foram as associações de bairro da FEJUVE-El Alto, a COB e, especialmente, a CSUTCB. Em 2003, as principais reivindicações eram a renúncia do presidente Sánchez de Lozada; a revogação de uma lei que criminalizava o protesto social; a suspensão da proposta de exportação de gás boliviano pelo Chile; a revogação da Lei de Hidrocarbonetos de 1996 para facilitar a renacionalização; a não participação no Acordo de Livre Comércio das Américas; e uma assembleia constituinte. Respondendo com militarização e terror de Estado, que deixaram 67 mortos, Sánchez de Lozada fugiu então para os EUA, deixando o vice-presidente Carlos Mesa como presidente interino. “Se eu não cumprir o prometido, vocês podem me expulsar”, prometeu Mesa. Em 2005, os setores populares fizeram exatamente isso – por meio de uma insurreição.

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Evo Morales chegou ao poder na sequência dessas revoltas. Líder do Movimento ao Socialismo (MAS), uma aliança de sindicatos e movimentos sociais formada em 1997, Morales foi o primeiro presidente na história da Bolívia a se identificar como indígena. Ele obteve 54% dos votos em 2006 — a primeira vez que um candidato alcançava maioria absoluta — com a promessa de nacionalizar o gás boliviano e impedir a erradicação da coca apoiada por Washington. Seu mandato trouxe estabilidade política e prosperidade econômica sem precedentes até 2014–15, quando a queda nos preços de exportação do gás levou a uma recessão econômica. Depois de perder um referendo em 2016 sobre uma emenda constitucional que lhe permitiria concorrer a um quarto mandato, Morales concorreu mesmo assim, o que minou consideravelmente sua legitimidade. Ele venceu com 47% dos votos, mas isso não foi suficiente para a Organização dos Estados Americanos (OEA), os EUA ou o bloco anti-MAS, inicialmente liderado pela classe média em La Paz e outras cidades, e posteriormente pela extrema direita nas planícies do leste. Em 2019, um golpe baseado em alegações falsas de fraude eleitoral forçou Morales ao exílio e levou ao poder um governo de extrema direita liderado pela presidente Jeanine Áñez – uma senadora de Beni até então desconhecida, que até recentemente estava presa, aguardando julgamento por ter sancionado massacres de dezenas de manifestantes desarmados, em sua maioria indígenas, em Senkata, em El Alto, e em Sacaba, em Cochabamba, em 2019, realizados sob o Estado de Exceção.

A influência de Morales vem diminuindo desde 2019, estendendo-se agora pouco além do Chapare e da federação sindical dos produtores de coca nas planícies tropicais de Cochabamba. Mas a eleição de 2020 registrou mais uma vitória do MAS, levando ao poder o ex-ministro da Fazenda de Morales, Luis Arce, e permitindo que Morales retornasse à Bolívia. As relações, no entanto, deterioraram-se rapidamente, dividindo o partido entre “arcistas” e “evistas”, com resultados desastrosos. Morales expulsou Arce do partido em 2023, enquanto Arce tentou usar a Constituição para impedir que Morales voltasse ao poder. Um mandado de prisão contra Morales por supostas acusações de estupro e tráfico de pessoas o levou a se refugiar nas regiões tropicais de Cochabamba, onde é protegido por seus apoiadores. As dificuldades econômicas da Bolívia continuaram sob o governo de Arce, intensificadas por uma recessão provocada pela pandemia. Houve outra tentativa de golpe em 2024, supostamente orquestrada pelo próprio Arce em uma tentativa desesperada de reforçar o apoio popular – um boato promovido com entusiasmo por Morales e seus apoiadores. O alvoroço corroeu ainda mais a legitimidade do MAS, que, após duas décadas no poder, acabou perdendo todas as suas cadeiras no Senado nas eleições de 2025. A “pequena guerra” entre Morales e Arce abriu caminho para um segundo turno presidencial entre a centro-direita, representada pela chapa Paz-Lara, e a extrema direita, liderada pelo ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, pró-Trump e pró-FMI. Após a vitória de Paz, Arce foi preso sob acusação de corrupção.

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Amplos setores da população urbana se alinharam em apoio a Paz, assim como as regiões do leste, que testemunharam mobilizações contrárias em grande escala entre 2003 e 2005. Assim como em 2019, comitês cívicos em La Paz, Cochabamba, Oruro, Chuquisaca, Tarija e Potosí, liderados pelas Câmaras de Comércio locais, bem como por representantes do setor imobiliário e da construção civil, prefeitos, vereadores e empresários locais, estão mobilizados. Abismos de classe, étnicos e demográficos separam esses contra-manifestantes dos milhões de camponeses e trabalhadores que lideram o cerco. Muitas vezes, há um tom racista nessas mobilizações, em parte devido à liderança de Santa Cruz, onde o racismo anti-indígena é fundamental para a identidade regionalista (“camba”) da liderança econômica empresarial, do “desenvolvimento” e do “progresso”. O cerco de La Paz em 1781, liderado pelo líder aimará Túpac Katari, continua a assombrar a imaginação dos proprietários e até mesmo dos cidadãos da classe trabalhadora, que se consideram defensores da nação contra o que veem como hordas violentas e irracionais do campesinato indígena.

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O governo de Paz e a mídia corporativa tentaram estigmatizar a revolta associando-a a Morales e alegam que ela está sendo financiada pelo narcotráfico e por terroristas. Incidentes isolados de violência também foram amplificados para desacreditar o movimento. Em 18 de maio, manifestantes antigovernamentais retiraram portas de madeira e fileiras de cadeiras de um prédio comercial para construir barricadas nas ruas abaixo da Plaza Murillo. Imagens circularam nas redes sociais; comentaristas, seguindo o roteiro oficial, enfatizaram o vandalismo e a violência. Dois homens que agrediram um policial foram presos, condenados e encarcerados. Na noite seguinte, na próspera zona sul de La Paz, circularam boatos infundados de que “índios” de Río Abajo e Chaskipampa estavam vindo para saquear e roubar (estupro e assassinato estavam implícitos). Os mesmos boatos circularam em 2019 e 2003. Mas, tanto naquela época quanto agora, as exceções confirmam a regra: as mobilizações são altamente disciplinadas e rigidamente controladas. A ocupação da capital em 25 de maio ocorreu com poucos incidentes; o mesmo aconteceu com a marcha das “panelas vazias” liderada por mulheres – destinada a dramatizar as condições econômicas desastrosas – no dia seguinte.

Os apelos para que Paz impusesse o Estado de Exceção vieram de Quiroga, adversário de Paz nas eleições de 2025, e de Stello Cochamanidis, chefe do Comitê Cívico de Santa Cruz, que exigiu “mão firme” para pôr fim à rebelião — o que o novo comandante das Forças Armadas devidamente prometeu. Esses apelos são amplificados pela mídia corporativa. Em 26 de maio, a Câmara dos Deputados revogou a lei 1341, aprovada em 2020 para estabelecer limites aos decretos do Executivo relativos ao estado de exceção e ao uso de força letal pelo exército. Em uma reunião de seu Conselho Econômico e Social – na qual todos os líderes relevantes dos movimentos sociais estavam ausentes –, Paz advertiu que imporia a “ordem constitucional” pela força caso o bloqueio não terminasse. Em 3 de junho, o ministro da Defesa e o ministro da Educação renunciaram sem explicação, em meio a especulações de que os EUA estariam tentando forçar uma declaração da lei marcial. Em 8 de junho, após aprovação pela Assembleia Plurinacional, Paz assinou uma lei que prepara o terreno para um Estado de Exceção, o que suspenderia os direitos constitucionais e daria poderes às forças armadas para desobstruir os bloqueios; os manifestantes afirmam que responderão com desobediência civil e resistência para defender o futuro de seus filhos e netos. Eles estão preparados para morrer, se necessário.

Há sinais de escalada. No dia 7 de junho, uma operação conjunta entre militares e policiais, realizada no sábado para desbloquear as estradas em San Julián, Santa Cruz, empregou membros da fascista União da Juventude de Cochabamba em motocicletas; um policial sofreu um ferimento à bala na cabeça (provavelmente por fogo amigo), seis ficaram feridos, juntamente com 30 civis. A polícia acabou sendo forçada a recuar. Naquele mesmo dia, líderes sindicais nacionais dos setores de mineração, indústria, construção civil e educação foram sequestrados em El Alto por agentes mascarados à paisana e levados para a sede da polícia antinarcóticos. Em 10 de junho, Vicente Salazar, presidente da Confederação Túpac Katari da CSUTCB, foi detido no centro da cidade de La Paz; seu paradeiro não pôde ser verificado imediatamente.

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Enquanto as insurreições de duas décadas atrás ocorreram durante a primeira onda da “maré rosa”, hoje sopram fortes ventos contrários vindos da extrema direita. Um comunicado emitido pelo Ministério das Relações Exteriores da Argentina, assinado por Chile, Paraguai, Guatemala, Costa Rica, El Salvador, Equador e Peru, condenou as tentativas de desestabilizar “a ordem democrática” – ou seja, o neoliberalismo militarizado sob a liderança dos EUA. Em 21 de maio, o Escudo das Américas, a nova coalizão militar convocada por Trump, também emitiu uma repreensão aos manifestantes. Paz também conta com o apoio do Banco Mundial, do FMI e da OEA (repetindo o papel que desempenhou ao incentivar o golpe de 2019). O vice-secretário de Estado Christopher Landau condenou a mobilização como um “golpe de Estado em andamento”, enquanto Marco Rubio insistiu que “não permitiremos que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes democraticamente eleitos em nosso hemisfério”. Em 4 de junho, após uma ligação com Paz, Rubio anunciou que os EUA estavam intensificando a assistência de emergência para ajudar com a escassez de alimentos e medicamentos. A mensagem de Pete Hegseth aos manifestantes: “Estamos de olho em vocês”.

Os EUA voltaram à Bolívia com ímpeto. A DEA e a CIA estão de volta à região natal de Morales, o Chapare, de onde haviam sido expulsas em 2008–2009. Em março, com a aprovação de Paz, os EUA capturaram o narcotraficante uruguaio Sebastián Marset em Santa Cruz e o extraditaram para os EUA. No entanto, a relação do governo com as drogas é, no mínimo, obscura. No final de novembro, Laura Rojas, ex-deputada federal e colaboradora próxima de Paz, voou de Los Angeles para Santa Cruz em um jato particular com 32 malas contendo dinheiro. Confiscadas pela alfândega, as malas posteriormente “desapareceram” de um depósito contratado para armazená-las. O depósito está ligado a uma grande operação antidrogas (Rojas aguarda julgamento atualmente). Os manifestantes alegam que as tentativas dos governos dos EUA e da Bolívia de vinculá-los ao dinheiro do narcotráfico fazem parte do encobrimento da conexão entre o governo, a DEA e os narcotraficantes. Coisas mais estranhas já aconteceram.

A Colômbia é um caso à parte. O presidente Gustavo Petro manifestou seu apoio aos direitos dos manifestantes, referindo-se aos protestos como “uma insurreição popular” e insistindo que eles estavam defendendo “a dignidade latino-americana”. O governo de Paz alegou que os comentários de Petro equivaliam a um “ataque à democracia” e expulsou o embaixador colombiano. No entanto, Petro está prestes a deixar o cargo, e seu sucessor em potencial, Iván Cepeda, ficou recentemente em segundo lugar no primeiro turno das eleições gerais, atrás do advogado da máfia de extrema direita e populista Abelardo de la Espriella. Infelizmente, uma demonstração semelhante de solidariedade não veio do Brasil, onde Lula da Silva manteve a linha oficial ao pedir o fim dos bloqueios e a realização de negociações (ao mesmo tempo em que se ofereceu para entregar os minerais de terras raras do Brasil a Trump, em aliança com um dos governadores mais reacionários do país). O México há muito defende a soberania nacional, inclusive a de Cuba, mas enfrenta ameaças à sua própria soberania – mais recentemente, com a extradição, por Trump, de dois governadores do partido Morena, atualmente no poder.

No entanto, o tempo parece estar se esgotando para Paz. Parte de seu apoio na classe média urbana começou a se desgastar; o mesmo ocorre na extrema direita. Dois políticos do Partido Democrata Cristão de Paz entraram em greve de fome em 28 de maio, exigindo que Paz encontrasse uma solução; no mesmo dia, ele não compareceu a uma reunião com o Comitê Cívico de Santa Cruz, que exige um “Plano de Salvação Nacional”. Morales apelou à realização de eleições em 90 dias – uma proposta considerada “sediciosa” por José Luis Lupo, ministro da Presidência. Outros exigem uma sucessão constitucional, nos moldes de 2003 e 2005. O vice-presidente Lara se tornaria presidente interino e, presumivelmente, convocaria novas eleições. Quiroga e seu rival de centro-direita, Samuel Doria Medina, seriam os prováveis vencedores nesse cenário. Paz certamente se lembra da saída ignominiosa de Lozada para os EUA em 2003; líderes como Severo Marca, da confederação camponesa CSUTCB, alertaram Paz para que renuncie enquanto ainda há tempo de evitar um destino semelhante.

Nas revoltas anteriores, Morales e o MAS ajudaram a intermediar os acordos que levaram à sucessão constitucional, calculando – corretamente – que a vez de Morales viria em seguida. Mas, com o MAS amplamente impopular, mesmo entre muitos dos manifestantes, e com mandados de prisão contra Morales, é improvável que essa seja uma opção agora. Outras instituições mediadoras – a saber, a Igreja Católica, a Defensoria Pública e a Assembleia Permanente de Direitos Humanos – têm estado ausentes ou ineficazes. Desacreditadas pelos eventos de 2019, são apenas sombras do que eram entre 2003 e 2005. O vice-presidente Lara tentou desempenhar um papel de mediação, convidando Paz para uma reunião com representantes da Assembleia Plurinacional em 9 de junho, mas foi ignorado e denunciado por outros membros do governo como “sedicioso” por seu contato com líderes do movimento.

Ainda não está claro como sair desse impasse. No dia 8 de junho ocorreu a maior marcha desde o início da revolta, com camponeses do norte de Potosí, Oruro e Cochabamba descendo de El Alto para La Paz, juntamente com dezenas de milhares de outras pessoas, ao som dos pututus (chifres de touro). O que é certo, nas palavras dos manifestantes, é “fusil, metralla, el pueblo no se calla!”: “Fuzil, metralhadora, o povo não se cala!”

Sidecar O Sidecar é o blog da revista New Left Review, fundado em 2020.

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