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Dialog: a sociedade secreta de Peter Thiel que discute guerra e sexo

Do Vale do Silício à OTAN, vazamento da Dialog mostra como as elites tecnológicas cultivam seus próprios espaços de sociabilidade e influência

Elena de Sus
O CEO da Palantir e criador da sociedade secreta Dialog, Peter Thiel. (Imagem: Estúdio Gauche, sobre foto de Dan Tayler / Wikimedia Commons)O CEO da Palantir e criador da sociedade secreta Dialog, Peter Thiel. (Imagem: Estúdio Gauche, sobre foto de Dan Tayler / Wikimedia Commons)O CEO da Palantir e criador da sociedade secreta Dialog, Peter Thiel. (Imagem: Estúdio Gauche, sobre foto de Dan Tayler / Wikimedia Commons)
O CEO da Palantir e criador da sociedade secreta Dialog, Peter Thiel. (Imagem: Estúdio Gauche, sobre foto de Dan Tayler / Wikimedia Commons)

“Peter Thiel adora a ideia de uma sociedade secreta… Ele tem se dedicado bastante a esse conceito… Mas, até agora, tudo deu errado”, escreveu em 2016 o criminoso sexual norte-americano Jeffrey Epstein ao então diretor do MediaLab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Joi Ito.

Em 2006, Thiel criou, junto com Auren Hoffman, uma organização chamada Dialog, que realiza encontros privados e à qual só se tem acesso por convite. Thiel é fundador da Palantir, uma empresa de análise de dados que colabora com o Pentágono, a CIA e o ICE, entre outros. Auren Hoffman é fundador da SafeGraph, uma empresa que registra dados de localização de celulares em grande escala e os comercializa. Ambos estão alinhados com o Partido Republicano nos Estados Unidos, embora afirmem que a Dialog seja uma organização “bipartidária”.

Epstein sabia da existência dessa sociedade e vários convites passaram por sua caixa de e-mail. Neles, podemos ver que a Dialog se apresenta como um fórum para que pessoas interessadas em “mudar o mundo” possam conversar entre si sem perder tempo com “grandes audiências” e “discursos intermináveis”.

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Em 2014, o investidor em tecnologia britânico Ian Osborne recebeu o convite para o Dialog e não demonstrou nenhum entusiasmo: ele escreveu um e-mail para Epstein reclamando que era “a mesma porcaria” e que “Peter [Thiel] nem sequer vai”. Osborne, por outro lado, estava muito interessado nas festas organizadas pelo próprio Epstein.

A hacker suíça maia arson crimew (escrito assim, em letras minúsculas) encontrou, graças a uma dica anônima, uma lista de pessoas ligadas ao Dialog. Essa hacker anarquista é conhecida por ter feito parte do grupo que invadiu os arquivos internos da empresa de câmeras de segurança Verkada em 2021 e por ter divulgado a lista de pessoas proibidas de embarcar em aviões nos Estados Unidos em 2019. Acessar essa lista de pessoas ligadas à Dialog não foi uma grande proeza técnica, já que ela estava incluída no código HTML do site da organização.

Um dia após a revelação de maia arson crimew, a revista norte-americana Wired, especializada em tecnologia, apontou a existência de uma lista mais ampla, com 222 pessoas. A hacker suíça confirmou o vazamento dessa segunda lista. A Wired publicou outros dados, como os temas a serem discutidos no encontro previsto para este ano, entre 12 e 16 de agosto, em Dublin. Alguns deles são: “O dinheiro compra a felicidade?”, “Voltemos à energia nuclear”, “Como enfrentar a Terceira Guerra Mundial”, “Tecnologias de combate”, “Como está sua vida sexual?”, “Como criar uma seita” e “Como criar um partido político”.

Na lista divulgada, destacam-se empresários e investidores ligados ao setor de tecnologias da informação, juntamente com altos representantes de instituições dos Estados Unidos, mas também da União Europeia, da OTAN e da Arábia Saudita.

Muitos dos nomes que aparecem na lista têm ligações conhecidas com Peter Thiel e suas empresas. Elon Musk, o homem mais rico do mundo, e Reid Hoffman, fundador do LinkedIn, fazem parte, assim como ele, da chamada “Máfia do PayPal”. Joe Lonsdale participou, ao lado de Thiel, da fundação da Palantir.

Chama a atenção a presença de Kaja Kallas, alta representante para Assuntos Externos da União Europeia, e do general norte-americano Alexus Grynkewich, comandante supremo da OTAN na Europa. A Wired destaca que Grynkewich assumiu esse alto cargo na Aliança Atlântica em julho de 2025, mas vem participando de encontros da Dialog pelo menos desde 2021.

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A revista norte-americana destaca que, no retiro da Dialog, os dirigentes das empresas se reúnem com os de instituições públicas que deveriam regulamentar suas atividades. Por exemplo, Auren Hoffman, cuja empresa se dedica à coleta e venda de dados, divide o espaço com o senador republicano Ted Cruz, “que supervisiona a Comissão Federal de Comércio e sua autoridade em matéria de proteção de dados”. Thiel e Lonsdale, fundadores da Palantir, aparecem na lista ao lado de Jim Himes, um congressista democrata que supervisiona os contratos das agências de inteligência americanas com fornecedores como a Palantir.

Os nomes que mais causaram indignação nas redes sociais são os de figuras ligadas ao Partido Democrata dos Estados Unidos, especialmente o do senador Cory Booker. Em abril de 2025, Booker proferiu um discurso de 25 horas no Senado contra as políticas de Trump, mas mantém uma relação de amizade e possíveis vínculos econômicos com Jared Kushner, genro do presidente, em cujo casamento ele compareceu em 2009. Kushner, que desempenhou funções diplomáticas no Oriente Médio para o governo de Trump, também está na lista da Dialog.

Há vários colaboradores do The New York Times, entre eles o colunista Ezra Klein, um liberal progressista que recebeu muitas críticas quando, após o assassinato do agitador de extrema direita Charlie Kirk, escreveu que este “praticava a política da maneira certa”. Também está Nick Tompson, CEO da revista The Atlantic. E Jonathan Levin, reitor da Universidade de Stanford.

Olhando para a lista, é engraçado imaginar Jonathan Haidt, autor do best-seller A Geração Ansiosa (2024), que convenceu metade do mundo de que os smartphones são a origem de todos os males da juventude, conversando com Manuel Bronstein, chefe de produto da Roblox, uma plataforma de jogos que tem sido apontada por seu caráter viciante e pela presença de pedófilos entre seus usuários.

A presença do ator Joseph Gordon-Levitt, protagonista da comédia romântica 500 Dias com Ela, pode surpreender, mas não tanto se levarmos em conta que, em março deste ano, ele foi nomeado “defensor mundial de uma governança digital centrada nas pessoas” pela ONU.

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Há outros nomes ligados à indústria do entretenimento: o ator Josh Brolin; a roteirista Teresa Hsiao, que trabalhou em séries como Family Guy; Scott Belsky, da produtora cinematográfica A24; e Scooter Braun, o executivo da indústria musical que contribuiu para a ascensão à fama de Taylor Swift e depois se tornou seu arqui-inimigo.

Um dos detalhes do vazamento que mais causou surpresa é que a Dialog possui um sistema de busca de parceiros românticos, no qual estão cadastrados 10% de seus membros. A Wired constatou que o sistema está programado para evitar certos pares, alguns por motivos como o fato de as duas pessoas trabalharem na mesma empresa e outros sem motivo conhecido. A Dialog também conta com um sistema que classifica os participantes em várias categorias de acordo com parâmetros como sua fama ou seu nível de riqueza.

A escritora “racionalista” Aella, famosa em certos cantos da internet por organizar uma orgia para comemorar seu aniversário e compartilhar os resultados em uma análise exaustiva de dados no Substack, afirma que já participou do encontro várias vezes e que “é legal, mas não é nada de outro mundo”. Quando um usuário do X pergunta se há cobrança pela participação, Aella confirmou que, de fato, é preciso pagar e que “é muito caro”.

O filósofo libanês Nassim Nicholas Taleb quis manter sua imagem de outsider, mostrando que foi convidado para encontros da Dialog em várias ocasiões e afirmando que sempre recusou: “Se me convidam para uma reunião de figurões para conversar com outros figurões sob o pretexto de debater algum tema, eu recuso sistematicamente”, escreveu ele no X.

O economista norte-americano Nathan Taukus, que participou de um encontro da Dialog em 2024, afirmou no Bluesky que o que mais o surpreendeu foi que “esse tipo de gente fala a portas fechadas da mesma forma que fala em público”. “O mais impactante foi ver que uma pessoa rica e poderosa fala da mesma forma que tuíta. Qualquer coisa de extrema direita que uma pessoa rica esteja dizendo na internet, mas que não dá para acreditar que ela realmente acredite nisso – eles acreditam mesmo”. Nesse caso, o segredo seria que não há segredo algum.

CTXT CTXT (Contexto y Acción) é um semanário espanhol fundado em janeiro de 2015 por 14 jornalistas experientes, provenientes de grandes jornais europeus como El País, El Mundo e La Repubblica, que buscam exercer sua profissão com total liberdade, sem estarem vinculados a interesses políticos, editoriais ou empresariais.

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