Há 75 anos, o exército israelense vem se apresentando como o “exército mais moral” do mundo, no que é conhecido na terminologia sionista como “pureza das armas”; um conceito que supostamente garante ao exército de Israel uma conduta ética mesmo na confusão da guerra. Por trás dessa mitologia cuidadosamente construída, no entanto, esconde-se uma realidade desagradável: o exército israelense depende cada vez mais de combatentes estrangeiros e contratos privados – o que especialistas jurídicos classificam como mercenários. Já circulam amplamente relatos de que uma nova unidade do tipo “Legião Estrangeira” esteja sendo cogitada, ou até mesmo que já tenha sido criada, dentro do exército israelense.
A terceirização das operações do exército conta com novas empresas americanas como a UG Solutions e a Safe Reach Solutions, que estão profundamente conectadas à linhagem da notória Blackwater, fundada em 1996 por Erik Prince durante a guerra do Iraque, antes de mudar de nome para Academi e, posteriormente, se fundir com a Constellis. Hoje, ex-executivos da Blackwater e da Constellis estão de volta ao Oriente Médio.
A ironia aqui é multifacetada e complexa, e remonta a muito antes da fundação do Estado judeu e de seu exército. Em 1915, o líder sionista revisionista Vladimir Jabotinsky (pai espiritual de Netanyahu), juntamente com Joseph Trumpeldor, apresentou uma petição conjunta às forças armadas britânicas no Egito para formar uma legião de combate judaica a fim de ajudar os britânicos a libertar a Palestina do Império Otomano. Os britânicos recusaram que os sionistas servissem como soldados, mas permitiram que atuassem apenas como tratadores de animais de carga na frente de Gallipoli, daí seu nome: O Corpo de Mulas de Sião. Para o movimento sionista, essa era uma humilhação que valia a pena suportar. O sonho era provar que os judeus podiam ser guerreiros, não só tropeiros, e que podiam se defender, não apenas servir aos outros. Em 1917, o Corpo de Mulas de Sião foi elevado à Legião Judaica, na qual Jabotinsky serviu. Armados e uniformizados, esse foi o primeiro passo em direção ao sonho sionista.
Um século depois, esse arco histórico não apenas se curvou, como desabou.
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Hoje, Israel paga a combatentes estrangeiros até 4 mil dólares por semana para que lutem em suas guerras, enquanto um segmento crescente de seus próprios cidadãos está isento do serviço militar.
A escala da participação estrangeira é impressionante. Mais de 50 mil soldados que atualmente servem no exército israelense possuem nacionalidade estrangeira, com o maior contingente vindo dos Estados Unidos, seguido por franceses, ucranianos e, de acordo com os últimos relatórios, espanhóis. Essa trajetória não está mais oculta. Ex-altos funcionários já elaboraram projetos para uma Legião Estrangeira israelense oficial – uma força corporativa de 12 mil mercenários organizada em quatro brigadas, com um custo anual superior a 3 bilhões de dólares. Enquanto o Estado debate a oficialização dessa privatização, contratados privados e dezenas de milhares de combatentes com dupla nacionalidade já são uma realidade em Gaza.
Orde Wingate e a criação de um mito
Para compreender a trajetória do ethos militar sionista, é preciso entender como o mito foi forjado. Em 1936, um oficial britânico chamado Orde Wingate (1903-1944) chegou à Palestina como parte do esforço militar britânico para reprimir a Revolta Árabe (1936-1939). Cristão sionista devoto, Wingate acreditava que os judeus tinham um direito divino à terra e começou a treiná-los para isso. O que Wingate ensinou às forças paramilitares judaicas tornou-se a base da cultura militar israelense. Ele rejeitou a defesa estática, ensinando, em vez disso, que, contra um inimigo numericamente superior, a única defesa era o ataque em profundidade no território inimigo.
Seus “Esquadrões Noturnos” especiais de 1938 — unidades conjuntas britânico-judaicas — foram pioneiros em táticas de surpresa, mobilidade e ataques noturnos que se tornaram o modelo para unidades judaicas de elite como o Palmach. Ele selecionou e treinou pessoalmente os futuros fundadores do exército israelense, incluindo Moshe Dayan e Yigal Allon. Assim, o exército judeu “nativo” — a força paramilitar clandestina da época em que a Palestina era um país ocupado pelos britânicos — foi criado e treinado por um oficial colonial britânico.
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Até mesmo os menores detalhes dessa era de fundação foram romantizados, um padrão que é consistente com a construção de mitos sionistas desde o início do movimento sionista. Reza a lenda que os homens de Wingate inventaram sapatos com sola de borracha a partir de pneus de carro reciclados para caminhar silenciosamente durante incursões noturnas contra a população árabe — um clássico da mitologia sionista dos “pioneiros”, que evoca engenhosidade, autossuficiência e o espírito resistente dos “sabras” (judeus nascidos em Israel). A verdade era mais prosaica: tênis com sola de borracha já eram produzidos em massa desde o final do século 19; Wingate simplesmente os encomendou das redes de abastecimento britânicas.
Da visão de Ben-Gurion aos combatentes a soldo
David Ben-Gurion, primeiro-ministro fundador de Israel, criou as Forças de Defesa de Israel (IDF) em 1948, com base em um princípio que considerava inviolável: “toda a nação é o exército”. Para ele, as forças armadas nunca foram apenas uma força de combate, mas sim o “caldeirão” destinado a transformar imigrantes judeus de todo o mundo em uma nação unificada, “unindo as tribos e as diásporas” por meio do alistamento obrigatório. Será que Ben-Gurion e os pais fundadores de Israel poderiam ter imaginado que seu “exército do povo” evoluiria para uma força reforçada por mercenários estrangeiros altamente remunerados? Provavelmente não. Mas, para além disso, a comercialização das forças armadas israelenses não pode ser compreendida sem mencionar a crise demográfica que a impulsiona.
Aproximadamente 66% dos homens haredim (ultraortodoxos) em idade de alistamento não servem no exército, apesar de uma população de cerca de 1,3 milhão, que cresce rapidamente devido à alta taxa de natalidade.
Os 400 estudantes de uma yeshiva (escola religiosa), que em 1948 foram isentos por Ben Gurion de servir na guerra, eram considerados um compromisso temporário em tempo de guerra, mas essa situação se transformou em uma isenção permanente para um segmento cada vez maior da sociedade. Como as coalizões políticas de Israel dependem dos partidos haredim, sucessivos governos se recusaram a aplicar o alistamento universal. O déficit de mão de obra resultante, agravado por guerras prolongadas e pelo esgotamento dos reservistas, criou as condições para tornar necessárias as forças estrangeiras. Esses mercenários substituem os cidadãos que se recusam a servir.
Esparta, os cruzados e o preço da defesa terceirizada
Os paralelos históricos são sinistros. A antiga Esparta, o estado por excelência dos cidadãos-soldados, enfrentou o colapso definitivo quando seu rígido sistema de cidadania e o declínio demográfico a forçaram a depender de mercenários contratados. Justamente o que tornava Esparta distinta, o ethos do cidadão-guerreiro, morreu enquanto o exército continuava a existir nominalmente. Nos séculos 4 e 3 a.C., o “exército espartano” era uma casca oca sustentada por mercenários e escravos. Da mesma forma, os reinos cruzados estabelecidos no Levante duraram apenas dois séculos, em grande parte porque sua classe dominante continuava sendo uma minoria estrangeira minúscula, isolada tanto da população local quanto dos patronos europeus distantes ecercada por uma população hostil.
Os cruzados não conseguiram se integrar e, por fim, tornaram-se um organismo estrangeiro implantado e foram expulsos. Ben-Gurion alertava constantemente contra a “armadilha espartana”, e os primeiros sionistas, como Vladimir Jabotinsky, rejeitaram explicitamente a comparação com os cruzados, argumentando que os judeus estavam “voltando para casa”, e não fundando uma colônia estrangeira temporária. Ao não se integrar e depender cada vez mais de combatentes estrangeiros contratados, o moderno Estado de Israel corre o risco de se tornar exatamente o que seus fundadores temiam: um corpo estranho isolado e desintegrado, destinado à expulsão.
Entre escritores e historiadores israelenses, a analogia com os cruzados tem sido um tema recorrente; um alerta de que um Estado que não consegue se integrar torna-se um posto avançado estranho. A.B. Yehoshua usou a metáfora para alertar sobre os perigos da ocupação, exortando Israel a não repetir os erros dos cruzados, e já em 1952, o intelectual Moshe Fogel publicou uma série de alertas no Haaretz usando o colapso dos cruzados como uma alegoria para o futuro frágil de Israel.
Crimes de guerra e o “exército mais moral”
A doutrina ética das Forças de Defesa de Israel (IDF) de “pureza das armas” exige que os soldados usem a força apenas para atingir os objetivos da missão, que mantenham a humanidade e evitem causar danos a não combatentes. Se o mundo já acreditou nesse mito, todos os palestinos sempre souberam a verdade — desde os massacres de Deir Yassin e Tantoura até as ruínas de Gaza em 2023. Agora, o resto do mundo também sabe disso, e a fachada cuidadosamente construída do excepcionalismo moral de Israel finalmente se desfez.
O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro Netayahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A Corte Internacional de Justiça está julgando um processo de genocídio movido pela África do Sul.
A Comissão Internacional Independente da ONU concluiu que as autoridades israelenses cometeram quatro dos cinco atos genocidas definidos pela Convenção sobre Genocídio de 1948.
A Human Rights Watch documentou que as forças israelenses atiravam rotineiramente contra palestinos famintos que buscavam ajuda. Crianças e mulheres constituem a esmagadora maioria das vítimas. Além de todos esses crimes de guerra, o uso de mercenários apenas aprofunda essas questões éticas para o Estado israelense. A presença generalizada de cidadãos com dupla nacionalidade nas linhas de frente, combinada com a presença ativa de empresas militares privadas como a UG Solutions, frequentemente confunde, nas reportagens da mídia, os limites entre o alistamento militar formal do Estado e o uso de mercenários estrangeiros, além de complicar a transparência jurídica e o rastreamento.
Orde Wingate formou uma força de combate enraizada em convicções bíblicas fervorosas. Décadas mais tarde, Ben-Gurion institucionalizou o “exército do povo”, consolidando a ideia de que a defesa de um Estado deve pertencer ao seu povo, e não a forasteiros.
A dependência moderna de mercenários estrangeiros é a antítese definitiva dessa visão fundadora. À medida que os mitos fundadores do “exército do povo” e de sua “pureza das armas” se dissolvem em lucrativos contratos privados, a armadura ideológica se desintegra, não deixando mais nenhum lugar para Israel se esconder de si mesmo.





































