Os Estados Unidos afirmam ter realizado mais de 90 ataques contra a República Islâmica do Irã nas últimas horas. Esses quase cem bombardeios somam-se aos 80 realizados na madrugada de terça-feira, 7 de julho, para quarta-feira, 8, que seriam, segundo o presidente dos Estados Unidos, uma resposta ao ataque iraniano contra três navios no início da semana no Estreito de Ormuz.
Com isso, dá-se por encerrado o memorando de entendimento assinado entre os dois países no último dia 17 de junho, que tinha como objetivo — por meio de 14 pontos com um plano de ação abrangendo diferentes assuntos — chegar a um acordo de paz que estabilizasse a região. A escalada, que já provocou um aumento de 6% no preço do petróleo e uma queda de 2% no Ibex, foi um dos temas centrais da cúpula da OTAN que acaba de terminar em Ancara, Istambul.
“São lixo”, foi assim que Donald Trump se referiu aos líderes iranianos, a quem não poupou outros insultos e desprezos — chamou-os de “loucos”, “trapaceiros”, “mentirosos” e “doentes” —, seguindo assim sua retórica habitual. O presidente, que contou com o apoio constante de Mark Rutte, secretário-geral da Aliança Atlântica, afirmou que considerava encerrado o acordo que havia sido assinado provisoriamente com Teerã, mas que sua equipe continuaria negociando.
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Segundo relatos da mídia iraniana, foram três os alvos dos últimos ataques dos americanos: a cidade de Bandar Abbas, no Estreito de Ormuz; a cidade litorânea de Sirik; e Bushehr, onde há instalações nucleares. Não há relatos de danos à central nuclear, até o momento. Teerã confirmou na manhã desta quinta-feira, 9 de julho, a morte de 14 pessoas como consequência de dois dias de ofensiva norte-americana. O número de feridos chegaria a 78.
Os ataques foram acompanhados pela revogação da isenção temporária das sanções que havia sido aplicada com base na assinatura do memorando de entendimento e que permitia ao Irã exportar seu petróleo. Esse ponto, juntamente com a reabertura do Estreito de Ormuz — parcialmente fechado desde o início da guerra, em 28 de fevereiro —, a questão do Líbano e o programa nuclear iraniano, constituíam os principais pontos do acordo entre os dois países, do qual Israel, principal instigador da guerra, havia ficado de fora.
O Estreito de Ormuz, a chave do desentendimento
Segundo o analista Trita Parsi, de origem sueco-iraniana e vice-presidente executivo do Quincy Institute for Responsible Statecraft, a escalada tem origem na diferença de opiniões sobre como se deve proceder em relação ao Estreito de Ormuz. “No centro da disputa estão duas interpretações opostas do Memorando de Entendimento. Segundo Teerã, embora o Estreito de Ormuz deva permanecer aberto, todo o tráfego comercial durante o período transitório de 60 dias deve ser coordenado com o Irã enquanto as partes negociam um acordo marítimo permanente. Washington, por outro lado, interpreta que um estreito ‘aberto’ significa que os navios podem transitar pelas rotas marítimas iranianas ou omanitas sem a necessidade de coordenação com o Irã”, afirma sua última análise.
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O Irã não quer que os Estados Unidos aproveitem o acordo para minar seu poder no estreito; por isso, exige que o controle do tráfego de navios passe primeiro por Teerã. Por outro lado, Washington considera que, estando o estreito aberto, os navios não precisam de autorização dos iranianos.
Ghalibaf garante que o Irã “não vai se render”
Na época, o presidente dos Estados Unidos, acostumado a discursos vazios e exageros, havia garantido que o acordo traria “paz e segurança para toda a região”, em suas próprias palavras. Falou então de uma “paz verdadeira” que, até o momento, não se concretizou. Ainda menos se levarmos em conta que, apesar de fazer parte do acordo, o Líbano continua sendo bombardeado e ocupado por Israel, que faz ouvidos moucos a qualquer ordem internacional, venha de onde vier.
Por sua vez, Teerã tem insistido, assim como vem fazendo desde que os Estados Unidos e Israel lhe declararam guerra, que não cederá. Mohammad Bagher Ghalibaf, uma das figuras de destaque nas negociações do acordo e presidente do parlamento iraniano, já afirmou na rede social X que o regime iraniano não se deixaria nem “intimidar” nem “extorquir” e que a República Islâmica não iria “se render”. Em outro tuíte recente, publicado há apenas algumas horas, ele escreveu: “Os Estados Unidos ainda não aprenderam que agir como valentões e descumprir acordos não saem mais de graça. Digo claramente: se atacarem, receberão o troco […] O Estreito de Ormuz só se abre com ‘acordos iranianos’, não com ameaças americanas”.
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A escalada bélica entre os Estados Unidos e o Irã ocorre enquanto, neste último país, estão sendo realizados os funerais e cortejos fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, assassinado pelos Estados Unidos durante o primeiro dia de guerra. Aquele que foi líder supremo do país será enterrado em sua cidade natal, Mashhad, após ter sido homenageado por milhões de pessoas, tanto no Irã quanto no Iraque. De fato, e segundo reportagem da rede Al Jazeera, o tráfego ferroviário entre Teerã e Mashhad foi suspenso devido aos ataques norte-americanos.



































