A 36ª cúpula da OTAN, realizada em Ancara, Turquia, nos dias 7 e 8 de julho, foi marcada pelo rompimento do acordo entre os EUA e o Irã — assinado no último dia 17 de junho — e pelo aumento dos investimentos em armamento militar por parte dos parceiros europeus. Washington bombardeou mais de 80 alvos no Irã durante a noite da cúpula, depois que Teerã atacou, na segunda-feira, navios comerciais que se dirigiam ao Estreito de Ormuz. A Guarda Revolucionária iraniana respondeu com ataques no Bahrein e no Kuwait.
Em uma conversa com Mark Rutte, secretário-geral da OTAN, Donald Trump destacou que o cessar-fogo “acabou” e acrescentou que os líderes iranianos eram “lixo”. As declarações do presidente norte-americano provocaram uma queda de 3% no Ibex e um aumento de 5% no preço do petróleo. Rutte, por sua vez, reiterou a posição da OTAN, embora tenha comemorado os ataques dos Estados Unidos: “A posição política da OTAN é clara. O Irã não deveria ter armas nucleares. Na prática, a OTAN não está envolvida no Irã”. Na coletiva de imprensa final da cúpula, o presidente norte-americano reiterou que o objetivo dos ataques era “desnuclearizar” o Irã e que estão fazendo “o que deveria ter sido feito há 47 anos”.
Pouco antes da reunião entre os presidentes e primeiros-ministros dos países membros da Aliança Atlântica, Trump expressou seu descontentamento com os parceiros da Aliança e insistiu no investimento realizado pelos EUA. No entanto, durante a coletiva de imprensa após o término do encontro, o secretário defendeu que a OTAN está mais unida do que nunca: “Pelo que pude observar nesta sala, percebi um sentimento de unidade. O presidente Trump e os Estados Unidos estão comprometidos com a OTAN”. Ele acrescentou ainda que a presença do ocupante da Casa Branca era “positiva” porque impulsionava o compromisso e o investimento dos demais parceiros.
Trump ameaça a Espanha
O presidente dos Estados Unidos não quis perder a oportunidade de demonstrar, mais uma vez, seu descontentamento com a Espanha por causa de sua falta de investimento e ameaçou — novamente — suspender o comércio bilateral com o país: “A Espanha é uma causa perdida. Não quero nenhum acordo comercial com a Espanha. É um péssimo parceiro da OTAN. Eles não participam e não pagam”. Por sua vez, o governo espanhol respondeu que o país mantém boas relações com os Estados Unidos e que não tem intenção de que a situação mude.
De fato, a Espanha consolidou 2% do PIB em gastos militares, o que representa uma triplicação do orçamento de 2018; cumpriu, assim, as metas de capacidade com as quais se comprometera perante a Aliança. Pedro Sánchez declarou em uma coletiva de imprensa em Ancara nesta tarde que encara as ameaças de Trump com “calma e paciência” e lembrou ao presidente norte-americano que as relações comerciais estão nas mãos da Comissão Europeia e que é com esse órgão que os acordos devem ser negociados.
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Rutte, nessa ocasião, defendeu a Espanha diante de Trump e enfatizou o aumento nos gastos militares do país. Durante a coletiva de imprensa final, no entanto, Donald Trump declarou que tinha a “sensação” de que “os poucos países que ainda não aceitaram os 5% vão fazê-lo”. Em seguida, acrescentou: “A Espanha não agiu bem, mas vai agir. Passou por um momento difícil porque não quis nos ajudar”. Ele ressaltou, além disso, a união entre todos os membros durante o encontro.
Gastos europeus com armamento
O primeiro dia da cúpula foi dedicado à apresentação das novas aquisições de armamento da Aliança e ao estreitamento dos laços entre governos e empresas do setor. A principal novidade foi a compra de dez aeronaves GlobalEye para substituir os aviões norte-americanos E-3, na linha estratégica de dotar a Europa de mais “independência” e “capacidade técnica” diante das políticas de Trump, que ameaçam retirar tropas em alguns países membros. Essas aeronaves têm um custo de 550 milhões de euros por unidade.
Também foram anunciadas novas aquisições de aeronaves, como o Airbus A400M, com um investimento de 50 bilhões de dólares em novos contratos, um gasto de 4 trilhões de dólares em capacidades antidrones nos próximos cinco anos e o lançamento do “Portão de Acesso da OTAN”, uma plataforma destinada a agilizar a cooperação entre aliados.
Além disso, no âmbito espacial, foi impulsionado um novo projeto para explorar o desenvolvimento de uma megaconstelação, a HALO, e melhorar as comunicações de alta velocidade, a coleta de inteligência e o rastreamento de mísseis. A Espanha também assinou sua adesão à iniciativa da Aliança de Vigilância Persistente do Espaço (APSS), tornando-se o 19º país participante.
Durante a cúpula, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, demonstraram seu apoio às ações da OTAN e ressaltaram o compromisso da Europa: “Uma Europa forte é uma OTAN forte. Estamos decididos a preencher as lacunas que observamos na capacidade de defesa e, por isso, mobilizamos 800 bilhões de euros até 2030, que devem ser investidos para consolidar uma base industrial de defesa sólida”.
Apoio à Ucrânia
A Ucrânia foi outro dos temas centrais do primeiro dia da cúpula, após os ataques de Moscou contra Kiev na véspera do encontro em Ancara, que causaram 21 mortos e 46 feridos. Para a OTAN, a Rússia é a principal ameaça: “Não temos tempo a perder. A Rússia destina quase metade de seu orçamento à defesa. Precisamos de uma revolução na indústria de defesa transatlântica. Somos mais fortes quando nos unimos a outros países parceiros e, é claro, à Ucrânia”, afirmou Rutte. Donald Trump, por sua vez, anunciou que havia entrado em contato novamente com Zelenski e com Putin.
O presidente ucraniano também participou da cúpula como convidado e destacou o potencial dos drones ucranianos e a resiliência do país: “Vocês realmente acham que seria correto deixar de lado um Estado com essa capacidade? Faz sentido que ele faça parte da defesa desta aliança e, juntos, seríamos mais fortes”, defendeu. A prioridade da Ucrânia agora é se preparar para os ataques com mísseis balísticos russos, acrescentou Zelenski: “Devemos dar a atenção que merecem aos sistemas de defesa antimísseis. É uma questão de importância global. Não podemos esperar até 2030, precisamos deles agora”. Na coletiva de imprensa final da cúpula, o secretário-geral anunciou que havia sido aprovado mais apoio à Ucrânia, no valor de 70 bilhões de euros neste ano e no próximo, em equipamentos militares, assistência e treinamento.
Groenlândia, no centro das atenções
A Groenlândia também teve seu momento de destaque durante o primeiro dia do encontro. Na reunião bilateral realizada entre o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e Donald Trump, este último voltou a defender a invasão da Groenlândia: “A Groenlândia deveria estar sob o controle dos Estados Unidos, não da Dinamarca”. Pouco depois, a ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, respondeu a Trump afirmando que a Groenlândia “não está à venda” e que Copenhague defenderá “cada polegada de seu território”. Rutte preferiu se manter à margem da questão, argumentando que se trata de uma questão entre os Estados Unidos, a Dinamarca e a Groenlândia.
Na véspera da cúpula, também participaram líderes de outros países, como Lee Jae Myung, presidente da Coreia do Sul. Além disso, foram realizadas diversas reuniões bilaterais, como a de Donald Trump com o presidente ucraniano Volodymyr Zelenski ou a do presidente norte-americano com o atual líder da Síria, Ahmed al Shaara.



































