“Esta revista… não representa um grupo. Representa, antes, um movimento, um espírito” — ou talvez um “espectro”? Seja qual for a tradução preferida, a intenção era clara: com essas palavras, o editor José Carlos Mariátegui anunciava a chegada de uma publicação radicalmente nova no cenário de vanguarda de Lima. Amauta, como se chamava este seu empreendimento, tinha como objetivo “criar um novo Peru dentro do novo mundo”, analisar as mais recentes correntes políticas e culturais ao redor do mundo para compreender melhor como construir o socialismo no próprio país. Numa época em que veículos independentes surgiam e desapareciam de um mês para o outro, o projeto de Mariátegui conseguiu perdurar por 32 edições, de 1926 a 1930, oferecendo um espaço para traduções de Sigmund Freud, poesia de César Vallejo, reportagens de Rosa Luxemburgo, textos políticos de Gabriela Mistral, obras de arte de Diego Rivera e muito mais. Nesse processo, a revista Amauta ajudou a moldar o cenário intelectual e artístico de uma forma que perdurou muito além de sua última tiragem.
Mariátegui, que mais tarde fundaria o precursor do Partido Comunista Peruano, é considerado uma das figuras de destaque do pensamento marxista latino-americano pelas imensas contribuições filosóficas que fez durante curta mas agitada vida. Escritor precoce, Mariátegui conseguiu um emprego no jornal La Prensa com apenas quinze anos e publicaria seu primeiro artigo dois anos depois. Mas depois que Augusto Leguía tomou o poder no Peru em um golpe de Estado em 1919, o novo governo pressionou Mariátegui a se exilar no exterior como forma de se livrar do que era um crítico ferrenho. No entanto, em vez de se calar, ele prosperou; os dois anos de viagem de Mariátegui, ricamente narrados em uma coluna do El Tiempo intitulada “Cartas da Itália”, desempenharam um papel vital no aprimoramento de sua análise política e cultural e na formação de sua visão para o que mais tarde se tornaria a Amauta. Em Nova York, ele se encontrou com jornalistas soviéticos da agência de notícias TASS, que mais tarde publicaria seus textos sobre questões indígenas; em Paris, entrevistou Henri Barbusse; em Veneza, teve seu primeiro contato com as odaliscas desarticuladas de Alexander Archipenko; em Berlim, ficou impressionado com o comentário social mordaz de George Grosz. Quando retornou a Lima em 1923, escreve Natalia Majluf, Mariátegui era provavelmente o maior especialista da América Latina no panorama contemporâneo da arte europeia — e estava ansioso para criar um espaço próprio para explorá-lo.

Mas Mariátegui não fundou a Amauta apenas para interpretar os movimentos de vanguarda da Europa; o objetivo era transformá-los para adequá-los às circunstâncias específicas do Peru da década de 1920. No campo das artes visuais, Mariátegui considerava que a trajetória correta para a vanguarda andina residia no indigenismo, que buscava destacar esteticamente os povos nativos da região como um antídoto contra a adoração generalizada do Velho Continente. Nesse sentido, ele se alinhou a José Sabogal, a quem Mariátegui apelidou de “o primeiro pintor peruano” e que era o principal expoente do indigenismo. Como editor de artes da Amauta, Sabogal contribuiu com a maioria dos desenhos de capa da revista, começando pela cabeça com um capacete em forma de caveira que adornou sua primeira edição e que se tornaria, com o tempo, uma espécie de símbolo.
O indigenismo acabaria perdendo a simpatia de muitos na esquerda: para alguns, o domínio do movimento por artistas urbanos, burgueses e, em geral, brancos — Sabogal era de ascendência espanhola, embora tenha posado com trajes indígenas em pelo menos um retrato — conferia à obra deles uma certa falsidade fetichista. Para outros críticos, as pinturas indigenistas pareciam infinitamente fascinadas por figuras solitárias atravessando passagens nas montanhas, mas dedicavam consideravelmente menos espaço à representação das lutas sob e contra forças opressoras menos pictóricas. (É notável que uma das capas de Sabogal pareça uma referência com influência inca à obra O Semeador (1850), de Jean-François Millet — o próprio Millet tendo, ocasionalmente, enfrentado acusações de retratar os pobres sem retratar sua pobreza.) Mas não há como questionar a sinceridade do compromisso de Mariátegui com a construção de uma sociedade justa para e ao lado das comunidades indígenas do Peru — muito além de uma compreensão dessas figuras como meros emblemas.

Foi Sabogal, supostamente, quem deu a Mariátegui a ideia de chamar sua revista de Amauta, uma palavra em quíchua que significa professor ou sábio. Com o tempo, o título se transformaria em um apelido do próprio Mariátegui. O espelhamento entre a publicação e o editor não parou por aí: a edição final da Amauta, cuja capa apresenta uma cena em preto e branco que lembra um velório, foi publicada logo após a morte de Mariátegui, então com apenas 35 anos de idade. “E agora?”, diz a primeira linha do texto na capa.
O fechamento prematuro da revista, pouco tempo depois, parece sugerir uma resposta melancólica à pergunta. Mas essa não é a única resposta que poderíamos dar. O governo de Leguía interceptou a correspondência da Amauta, interferiu em sua circulação e, em determinado momento, forçou uma interrupção de vários meses; e, ainda assim, um século após a primeira edição da revista ter ido para a impressão, sua influência continua sendo discutida e debatida no Peru. A casa de seu fundador é um museu, e seu retrato pode ser visto em todos os lugares, desde murais à beira da estrada até as paredes da principal galeria de arte de Lima. A influência de Mariátegui escapou e sobreviveu a essas tentativas de repressão — mas a desigualdade e a exploração que ele denunciou também perduraram.





































