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A OTAN e a nova guerra mundial

A cúpula de Ancara consolida uma OTAN cada vez mais voltada à guerra permanente e à projeção global do poder norte-americano

José Luis Gordillo
O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, e o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, durante cerimônia em homenagem aos soldados ucranianos mortos. 03/07/26. (Foto: NATO / Flickr)
O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, e o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, durante cerimônia em homenagem aos soldados ucranianos mortos. 03/07/26. (Foto: NATO / Flickr)

A forma como denominamos diferentes atos políticos tem consequências. Por exemplo, na cúpula da OTAN em Ancara, foi tomada a decisão de transferir 70 bilhões de euros para o governo ucraniano. Com esse montante, serão compradas armas dos Estados Unidos com o objetivo de que Zelensky e seus colegas possam continuar por mais alguns anos sua guerra agonizante contra a Rússia. Essa transferência de recursos bélicos, financiada com os impostos pagos pelos contribuintes europeus, é qualificada como “ajuda” pela mídia atlantista europeia. Na opinião deles, a OTAN fornece “ajuda” militar à “pobre e indefesa Ucrânia”. Isso tem efeitos muito corrosivos sobre a mente dos contribuintes. Recorrendo ao conceito de “ajuda”, eles fazem com que acreditem que sua contribuição financeira será utilizada para um fim bom e justo.

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A OTAN foi criada, como pudemos constatar novamente nestes dias, para defender os interesses dos Estados Unidos na Europa, não “para defender a Europa”. A OTAN também foi criada para promover os lucros das empresas norte-americanas e ocidentais. O que a OTAN nunca fez foi ajudar os pobres e desamparados. A “ajuda” à Ucrânia é uma assistência que a Aliança Atlântica concede a si mesma, pois o governo de Kiev não passa de um instrumento dela. Nesse sentido, é preciso ressaltar que a guerra no leste europeu é uma guerra indireta entre a OTAN e a Federação Russa. Caracterizá-la dessa forma é muito importante, pois isso aponta a responsabilidade dos Estados atlantistas em sua gênese e continuidade. Chamá-la de “guerra da Ucrânia” ou, pior ainda, de “guerra de Putin”, leva a pensar que os governos ocidentais não são responsáveis por nada e que suas ações em relação a essa guerra são algo semelhante ao que fazem as freiras caridosas.

Conforme ficou patente na declaração final da cúpula de Ancara, os 32 países da OTAN reiteraram seu apoio à guerra contra a Rússia com mais envios de dinheiro e material bélico. Isso inclui os Estados Unidos, que concederam ao governo de Zelensky permissão para fabricar mísseis Patriot em território ucraniano. O apoio da OTAN à Ucrânia, entre muitas outras ações, compreende também o ataque em águas internacionais aos navios do que a imprensa europeia aliancista denomina de “a frota fantasma russa”.

Mas a história não termina aí. No final de junho, a Comissão Europeia anunciou que, a partir de agora, a proteção especial concedida aos refugiados ucranianos no território da União Europeia ficará subordinada à “capacidade geral da Ucrânia de se defender”, o que significa que não será concedida proteção nem asilo aos ucranianos que “não estejam autorizados pelas autoridades ucranianas a deixar a Ucrânia devido às suas obrigações militares” (La Vanguardia, 27 de junho de 2026). Ou seja, a Comissão Europeia também se juntou à iniciativa de “ajudar” a recrutar a carne de canhão de que a OTAN precisa na frente oriental.

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O governo espanhol de Pedro Sánchez também deu sua contribuição: vai “ajudar” a dar continuidade ao massacre com 50 milhões de euros, quantia que deve ser somada aos cerca de 4 bilhões de euros que a Espanha já entregou com o mesmo objetivo. Outra contribuição espanhola notável para o mesmo fim foi o treinamento, em território ibérico, de 9 mil militares ucranianos.

Tudo isso está em total consonância com a advertência de Mark Rutte, secretário-geral da OTAN, segundo a qual a Aliança Atlântica deveria se preparar para um confronto militar frontal e direto com a Rússia. Esse confronto deveria ser imaginado com a mesma magnitude da guerra que “nossos avós e bisavós sofreram”. Segundo o lacaio de Trump, é preciso pensar em um conflito que poderia atingir “cada lar e cada local de trabalho” e que poderia acarretar “destruição, recrutamento em massa e milhões de deslocados”, bem como “sofrimento generalizado e perdas extremas” (El País, 11 de dezembro de 2025).

Mark Rutte fez essa advertência para, em seguida, invocar o bimilenar si vis pacem, para bellum (“se queres a paz, prepara-te para a guerra”) e, por isso, instava os Estados-membros da OTAN a aumentarem seus gastos militares para até 5% do PIB. O problema é que o que ocorreu nos dois mil anos seguintes à formulação desse antíssimo ditado latino confirmou amplamente seu caráter catastrófico (em todos os lugares, mas especialmente na Europa). Na imensa maioria dos casos, “preparar a guerra para manter a paz” tornou-se “preparar a guerra para fazer a guerra”. De fato, é algo assim que pensam, por exemplo, Boris Pistorius, ministro da Defesa da Alemanha, ou Fabien Mandon, general-chefe do Estado-Maior do Exército francês, os quais afirmaram que era preciso deixar de lado a paz e começar a se preparar para travar uma guerra direta e em grande escala contra a Rússia dentro de dois ou três anos. Para isso, Pistorius aconselhou restabelecer o serviço militar obrigatório e Mandon, preparar a França para aceitar a possível morte de seus filhos (ABC, 5 de junho de 2024 e Le Grand Continent, 23 de novembro de 2025).

A guerra indireta no Leste Europeu entre a OTAN e a Rússia é uma das frentes abertas pelos Estados Unidos e seus aliados para tentar reverter o declínio do império ocidental. É, sem dúvida, a mais perigosa de todas as existentes, pois nela estão envolvidas quatro potências nucleares (Estados Unidos, Rússia, França e Grã-Bretanha). Outros cenários onde também se busca o mesmo objetivo são a América Latina (na Venezuela, em Cuba, etc.), a África (na Nigéria, por exemplo), o Oriente Médio (no Irã, no Líbano, no Iêmen, na Síria, etc.) e na região do Indo-Pacífico (contra a China, sobretudo). Todas essas intervenções, bombardeios e tentativas de mudança de regime devem ser vistas como diferentes episódios político-militares de uma mesma guerra de alcance planetário: a guerra global para tornar a América grande novamente, para usar a terminologia trumpista.

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Os líderes europeus da OTAN participam dela e, além de alguns gestos para a plateia, a apoiam materialmente, como pudemos constatar na cúpula de Ancara. Como prova, um exemplo que não é exatamente insignificante: depois que Trump chegou à cúpula reivindicando a Groenlândia e ordenando novos ataques ao Irã (dois assuntos que haviam provocado algumas críticas por parte de alguns líderes europeus), todos renovaram os compromissos de Haia no sentido de aumentar os gastos militares para 5% do PIB, a fim de poder comprar muitas armas da indústria militar norte-americana, e todos aceitaram substituir gradualmente algumas forças norte-americanas estacionadas na Europa para que possam ser transferidas para outras regiões onde agora são mais necessárias (como o Oriente Médio ou o Mar da China). Foi um “Sim, senhor!” em toda a sua plenitude. A submissão e a obediência dos líderes do velho continente foram totais e absolutas, e a tão alardeada “autonomia estratégica” não apareceu em lugar algum.

Para piorar ainda mais a situação, a declaração final da cúpula incluiu uma alusão ao Irã, mas não para criticar a agressão ilegal e injustificável contra esse Estado nem para denunciar o caráter intolerável da ameaça de Trump de “fazer desaparecer uma civilização em uma única noite”, e sim para afirmar que o Irã não deve possuir armas nucleares e deve respeitar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. As consequências de seu fechamento, realizado primeiro pela República Islâmica e depois pelos próprios Estados Unidos, serão sentidas com força nos próximos meses, à medida que as reservas de petróleo da maioria dos países do mundo forem se esgotando. Então, poderemos avaliar com exatidão os verdadeiros efeitos da contribuição da OTAN para a nova guerra mundial.

El Salto El Salto é um meio de comunicação social autogerido, horizontal e associativo espanhol.

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