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Gaza: o amor em tempos de genocídio

De Gaza, Aya Al-Hattab relata como, enquanto o genocídio adia indefinidamente seu reencontro, ela e seu noivo se agarram aos pequenos gestos que mantêm o amor vivo

Aya Al-Hattab
"Um mês após nosso noivado, foi anunciado o cessar-fogo de outubro de 2025. Mas, mais uma vez, nada mudou de verdade. Com as viagens de entrada e saída de Gaza praticamente impossíveis, ainda estamos esperando para nos reunirmos." (Imagem: Estúdio Gauche)
“Um mês após nosso noivado, foi anunciado o cessar-fogo de outubro de 2025. Mas, mais uma vez, nada mudou de verdade. Com as viagens de entrada e saída de Gaza praticamente impossíveis, ainda estamos esperando para nos reunirmos.” (Imagem: Estúdio Gauche)

Meu vestido rosa balançava enquanto eu arrumava meu cabelo, deixando-o solto sobre os ombros.

Minha irmã gêmea, Amal, que me deu o vestido de presente, convidou uma amiga maquiadora profissional para me deixar pronta para o meu grande dia.

Era 9 de setembro de 2025 — a data em que Mohammed, meu noivo, e eu tínhamos planejado assinar nosso contrato de casamento, conhecido como katib kitab.

A irmã e o pai de Mohammed, junto com meu pai, minha mãe, minha irmã, meu tio e minha tia, se reuniram para a cerimônia no apartamento alugado pela minha família no bairro de Tal al-Hawa, na cidade de Gaza.

Quando o sheikh chegou para oficializar o casamento, Mohammed se juntou a nós – mas por videochamada.

Mohammed está no Egito com sua mãe e seu irmão. Seu pai, ainda em Gaza, o representou durante a assinatura do contrato de casamento.

Embora Mohammed não pudesse estar presente pessoalmente, a cerimônia mesmo assim foi linda e tiramos fotos em família depois.

Mohammed e eu tiramos fotos com nossos celulares de onde estávamos durante a cerimônia. Mais tarde, fizemos uma colagem com elas, criando uma única lembrança a partir de dois lugares distantes.

Aya Al-Hattab e seu noivo, Mohammed, em sua foto de noivado. (Foto: cortesia da autora)
Aya Al-Hattab e seu noivo, Mohammed, em sua foto de noivado. (Foto: cortesia da autora)

Como nos conhecemos

Quase exatamente três anos antes da assinatura do nosso contrato de casamento, em 14 de setembro de 2022, Mohammed e eu conversamos pela primeira vez durante a reunião final de um programa de escrita para jovens na cidade de Gaza.

Mohammed começou falando sobre nossa universidade e nossos professores; eu estava no terceiro ano e ele, no último.

Mohammed era tímido ao falar. Ele raramente olhava nos meus olhos, apenas olhava para a mesa.

Algumas semanas depois, após o término do curso, passei a segui-lo no Instagram e começamos a conversar, principalmente compartilhando músicas.

Enviei a ele uma música da Fairuz – “Habbo Baadon” – sobre duas pessoas que se apaixonam durante um inverno e se separam, dolorosamente, no inverno seguinte.

 Leia também – Gaza: se não é genocídio, é guerra total 

Mohammed respondeu dizendo que a música era muito bonita, mas que gostaria que eles não tivessem se separado no final.

Quando voltamos ao campus e nossas provas finais começaram, ocasionalmente nos cruzávamos nos corredores. Nunca conversávamos, apenas trocávamos saudações breves como “bom dia” ao seguirmos caminhos diferentes.

Depois de terminarmos as provas finais, Mohammed e eu combinamos de nos encontrar em um café na cidade de Gaza.

Cheguei ao café em uma tarde fria e chuvosa de janeiro.

Mohammed já estava sentado lá, esperando por mim. Conversamos sobre pequenos detalhes da vida que nunca havíamos compartilhado um com o outro antes – como o fato de ambos gostarmos de dormir até tarde e ficar na cama durante o inverno, alguns dias sem sair de casa.

Também conversamos sobre linguagem corporal e o significado do contato visual. Não pude deixar de olhar nos olhos dele – dessa vez, ele não baixou o olhar para a mesa – e me perguntar no que nossa amizade poderia se transformar.

Quando me preparei para sair, Mohammed ainda estava sentado ali, olhando para mim enquanto eu me levantava e saía.

Felicidade, depois medo

Os meses se passaram e, em algum momento, Mohammed e eu começamos a usar casualmente expressões íntimas como “minha alma” e “meu amor” um com o outro ao trocarmos mensagens de texto.

Tive um momento de clareza e pedi que ele parasse – não queria que isso significasse uma coisa para mim e outra para ele. Precisava saber em que pé estávamos um com o outro.

Em 19 de março de 2023, confessei a Mohammed que o amava, sentindo arrepios e frio na barriga.

“Eu também te amo”, respondeu Mohammed.

Mohammed e eu começamos a passar cada vez mais tempo juntos, tendo longas conversas sobre nossas rotinas durante caminhadas noturnas tranquilas até o mar.

 Leia também – “Senti como se a guerra tivesse acabado”: assistindo à Copa do Mundo em Gaza  

Às vezes, eu lia para ele trechos dos romances de Ibrahim Nasrallah enquanto estávamos sentados. Também conversávamos sobre o que gostávamos e o que não gostávamos – Mohammed adora videogames e eu adoro ler.

Aos poucos, nos tornamos parte da vida cotidiana um do outro. Mohammed visitou minha casa muitas vezes e conheceu meus pais, que rapidamente passaram a amá-lo.

Um dia, em setembro, Mohammed e eu fomos a um café à beira-mar chamado Q. O clima já começava a ficar mais outonal e a brisa noturna mais fresca do mar brincava com meu cabelo.

Conversamos sobre nossos planos para o futuro, viagens e os caminhos que esperávamos seguir – ele planejava procurar trabalho no Catar e eu pretendia fazer um mestrado em interpretação.

Nossa conversa foi repleta de risadas e eu desejei que o relógio parasse para que pudéssemos continuar sentindo essa leveza por mais um pouco.

Mas nada dura para sempre em Gaza.

Em 7 de outubro, fui acordada pelo som de explosões violentas que abalavam a cidade.

Mohammed entrou em contato comigo imediatamente, e conversamos brevemente nos primeiros dias; depois disso, a eletricidade e a internet passaram a ser instáveis.

Junto com nossas famílias, acabamos sendo deslocados para Rafah.

Enquanto estávamos em Rafah, conseguimos nos ver apenas duas vezes. Nas duas ocasiões, nos encontramos na casa de Mohammed, um apartamento que sua família havia alugado.

Nossos encontros foram breves, com duração de menos de duas horas.

A segunda vez que nos sentamos juntos foi em 31 de dezembro de 2023. Recordamos nossas longas caminhadas até o mar e as muitas horas que passamos sentados conversando na minha casa.

Senti-me muito triste, mas Mohammed estava sempre me tranquilizando, dizendo que a situação atual acabaria e que ainda tínhamos um futuro pelo qual esperar.

Enquanto Mohammed nos acompanhava, a mim e à minha irmã Amal, até o local onde estávamos hospedadas, ele e eu seguramos as mãos com firmeza, tentando não soltá-las.

Aterrorizada

Durante esse período, minha família e eu tivemos que nos mudar para al-Zawayda, na parte central da Faixa de Gaza, o que tornou muito mais difícil para mim e para Mohammed nos encontrarmos.

Em 20 de fevereiro de 2024 – meu aniversário –, Mohammed veio de Rafah só para me ver. Foi um encontro muito breve. Quando o vi se afastando, comecei a chorar.

Essa foi a última vez que vi Mohammed. Logo depois, ele me disse que iria deixar Gaza e partir para o Egito.

Fiquei feliz por ele, porque isso significava que ele estaria fora de perigo. Mas, ao mesmo tempo, era muito difícil não saber quando eu o veria novamente.

No final de abril de 2024, Mohammed, sua mãe e seu irmão foram evacuados pouco antes de Israel tomar a passagem de Rafah, interrompendo o tráfego de entrada e saída de Gaza.

Eu ficava dizendo a mim mesma que o genocídio acabaria logo e que nos veríamos novamente para retomar de onde havíamos parado.

Mas, no fundo, eu estava apavorada. Não conseguia parar de pensar que nossa despedida no meu aniversário poderia ter sido a última.

Continuei optando pela esperança. Mas, semana após semana, mês após mês, nada mudou. O genocídio não acabou, e não houve reencontro.

Em junho de 2025, minha família e eu voltamos para a Cidade de Gaza, mesmo sabendo que não era seguro. Alugamos um apartamento em Tal al-Hawa, onde fica nossa casa, que foi destruída no início da guerra.

No começo, não consegui falar com Mohammed porque não tinha acesso à internet. Algumas semanas depois, quando Mohammed conseguiu um número de telefone egípcio, ele passou a me ligar todos os dias.

Conseguíamos conversar por horas e recuperar o tempo que havíamos perdido.

 Leia também – Como minha família sobrevive à fome em Gaza 

Nosso relacionamento se fortaleceu apesar da distância, e decidimos realizar nossa cerimônia de noivado em 9 de setembro de 2025.

Sempre que olho para nossa foto montada – Mohammed e eu lado a lado, cada um em um país diferente –, sinto-me ambivalente. Sou grata por ainda termos algo para comemorar e fico com o coração partido por termos vivido um dos dias mais importantes de nossas vidas separados.

Embora não fosse assim que tínhamos imaginado o início de nossa vida juntos, Mohammed e eu estávamos eufóricos com nosso noivado.

Começamos a fazer planos novamente: os lugares para onde iríamos quando nos reuníssemos, os lugares que esperávamos explorar juntos – Irlanda, Itália, Grécia. Conversamos sobre o tipo de lar que esperávamos construir algum dia – um espaço tranquilo, colorido e aconchegante, repleto de estantes de livros. Falamos sobre ter um cachorro.

A distância nos fez nos agarrar um no outro com mais força, como se ambos estivéssemos tentando proteger o que restava de um futuro no qual ainda acreditávamos.

Um mês após nosso noivado, foi anunciado o cessar-fogo de outubro de 2025. Mas, mais uma vez, nada mudou de verdade. Com as viagens de entrada e saída de Gaza praticamente impossíveis, ainda estamos esperando para nos reunirmos.

Distância

Apesar da distância, nossos dias começam e terminam um com o outro.

Na maioria das manhãs, Mohammed é uma das primeiras pessoas com quem converso. Antes de qualquer um de nós começar o dia, procuramos saber como o outro está, conversamos sobre nossos planos para o dia.

À noite, nossas conversas costumam se prolongar até que ambos estejamos cansados demais para manter os olhos abertos. Antes de dar boa noite, tentamos nos levar um ao outro em direção ao futuro e longe da incerteza do presente.

Conversamos sobre os momentos cotidianos dos quais fomos privados por tanto tempo, como preparar e compartilhar uma refeição juntos, caminhar pela praia, ler juntos ou simplesmente sair para um encontro. Às vezes, até nos encorajamos mutuamente a sonhar com esses dias futuros enquanto adormecemos.

No entanto, a distância está sempre presente. Quando acordo, bastam alguns segundos para lembrar que ele ainda está a centenas de quilômetros de distância. À noite, quando tudo fica silencioso, muitas vezes me pego revivendo lembranças do tempo que passamos juntos e imaginando como a vida seria diferente se a guerra nunca tivesse acontecido.

Sempre que me preparo para sair, penso no Mohammed. Lembro-me do cuidado que eu costumava ter ao escolher uma roupa, arrumar meu cabelo ou me maquiar antes de nossos encontros.

Naquela época, eu sabia que ele iria me ver. Agora, esses mesmos rituais fazem com que sinta ainda mais saudades dele. Às vezes, me pego imaginando o que ele diria se me visse.

Recentemente, assisti ao filme de animação Em Seus Sonhos no meu celular, no nosso apartamento alugado, que funciona com energia solar.

No filme, dois irmãos viajam por seus sonhos em uma jornada surreal em busca de um mítico João Pestana para impedir o divórcio dos pais.

As crianças sussurram: “João Pestana por favor, eu te invoco. Concede-me meus sonhos, faz com que eles se tornem realidade.”

Por um momento, me peguei fantasiando que poderia fazer um pedido para ter de volta a pessoa que amo, mesmo que fosse apenas por um dia normal juntos.

Aya Al-Hattab é escritora e tradutora em Gaza.

Electronic Intifada O The Electronic Intifada é uma publicação independente de notícias online e um recurso educacional com foco na Palestina, seu povo, sua política, sua cultura e seu lugar no mundo.

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