A Copa do Mundo de 2026 chamou atenção pelos inflamados discursos políticos. Manuais foram criados sobre “Seleções para torcer”, baseados em princípios de esquerda e anti-imperialistas, textos e mais textos foram publicados nas redes sociais sinalizando os porquês de se torcer para uma seleção em específico – ou o porquê de desprezarmos uma outra seleção, dentre outras coisas. A Copa do Mundo, assim como as Olimpíadas e outras competições internacionais, principalmente as que envolvem seleções nacionais, inflamam os discursos nacionalistas abstratos – basta observar como nos apegamos à ideia de Brasil nesses momentos –, mas existe um outro elemento, um internacionalismo também abstrato, que se baseia em fatos históricos longínquos ou atuais, mas que ignoram a totalidade das formações dos países que estão disputando os torneios.
Claro, de forma alguma eu ignoro o que se entende como uma espécie de Davi vs Golias no futebol: o carinho que nós, brasileiros desse imenso Terceiro Mundo, temos por seleções de pouca ou nenhuma tradição quando elas enfrentam gigantes do futebol como Argentina, França, Espanha, Alemanha e Inglaterra. Também acredito que a Copa do Mundo é um palco onde a história da luta de classes e nacional se apresenta como lembrança, memória, e fato para quem as desconhece, e nesse sentido é natural que as pessoas apegadas a esses valores, assim como eu, passem a torcer para seleções como Irã, Marrocos, seleções da África Subsaariana, etc. Mas as questões que se colocam são outras. Tivemos a decisão da Copa do Mundo definida. No dia 14 de julho, a França foi eliminada pela sonolenta Espanha, que deu um nó tático na melhor geração francesa da história, e garantiu sua passagem para a final do torneio. Nesse entreposto, Lamine Yamal, jogador que muito admiro tanto por suas posições políticas quanto pela bola jogada, superou Mbappé, um outro gênio da nossa geração, com também ótimos posicionamentos políticos, mas que se tornou o queridinho dos progressistas por muito pouco. Além de Mbappé, a seleção francesa é formada por uma infinidade de outros craques de origem negro-africana e árabe. Num primeiro plano, isso pode soar como motivo de sobra para que essas seleções ganhem nosso carinho, ou os jogadores que dela fazem parte; mas por que deveríamos escolher, dentre as opções postas, uma seleção apenas por uma virtude política? Além disso, que virtude política essas seleções e seus jogadores podem imprimir na sociedade, quando representam seus países concretos? É esse ponto que se deve examinar.
A primeira fase da Copa do Mundo, a chamada fase de grupos, talvez seja a mais interessante do torneio. Muito provavelmente, essa minha afirmação carrega um pouco de decepção com a seleção brasileira, que não passou das oitavas de final. Mas ela carrega, também, um outro elemento. No formato atual, com 48 seleções, a quantidade de países africanos, por exemplo, foi muito maior do que nas edições anteriores, o que é ótimo, visto que a FIFA e as seleções integrantes da UEFA costumam reclamar para si cada vez mais vagas, em detrimento da diminuição de seleções de outros continentes. Esse argumento foi usado, por exemplo, para reclamar um lugar para a tradicional Itália, que foi eliminada pela nada tradicional Bósnia e Herzegovina na repescagem europeia. Coisas da meritocracia. Voltando à fase de grupos: é nela onde os embates entre pequenas e grandes seleções acontecem, pelo fato de serem poucas as chances de seleções como República Democrática do Congo e Cabo Verde se classificarem. Mas isso aconteceu nessa edição. Fato é que, pelo apelo que essas seleções carregam, quando representam suas nações concretas, torcemos por elas, pois o futebol é um campo de disputa simbólica da política. Quando celebramos a quase eliminação da Argentina por Cabo Verde, e da Inglaterra pelo Congo, celebramos uma vitória simbólica de ex-colônias europeias contra seleções representantes de países colonialistas – claro, com exceção da Argentina, que se encaixa muito mais no campo da rivalidade, ainda que outros elementos sobre a Albiceleste sejam determinantes, como a questão racial no país.
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Nesse ponto, se torna difícil separar o que é torcer por uma seleção pequena e o que é torcer para uma seleção representante de um país de Terceiro Mundo, e talvez esse seja o ponto em que nosso campo se perde. E talvez o jogo entre Argentina e Inglaterra seja um ótimo ponto para que esse enclave se desenrole. A rivalidade entre as duas seleções remonta ao ano de 1982, quando eclodiu a Guerra das Malvinas, região disputada pelos dois países. Tomada pelos ingleses em 1833, como meio de garantir o poder naval da Marinha Inglesa no Atlântico Sul, as ilhas já haviam sido ocupadas pelos franceses e espanhóis entre 1764 e 1767. Após a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata, em 1816, que daria origem à Argentina, o novo país retomou a posse das ilhas em 1820, algo natural, já que o território fazia parte da então colônia argentina, e havia sido ocupado pelos espanhóis. Em 1833, navios britânicos chegaram à ilha, forçando a retirada dos argentinos, que não tinham como bancar uma guerra pelo território. O que parece uma ilha insignificante no que se refere aos recursos naturais, se torna, na verdade, ponto de grande importância para a forma militarizada do imperialismo, que precisa de ocupações, bases e pontos estratégicos pelo mundo, não somente para a extração de recursos naturais, mas também para garantir o poder de reafirmar seus interesses longe de casa.
Com a ditadura argentina em grande crise, em 1982, o país invadiu as Malvinas – os ingleses a chamam de Ilhas Falkland –, como uma forma simbólica de, por meio do nacionalismo burguês, resgatar o apoio popular ao regime. A resposta foi rápida. Navios britânicos cruzaram o Atlântico, e dois meses depois, as ilhas haviam sido retomadas pelos britânicos, ao custo de quase 700 vidas argentinas ceifadas, e outras quase 300 mortes pelo lado dos britânicos. Muitos jovens perderam a vida no conflito. A popularidade de Margareth Thatcher estava em baixa, e a guerra foi importante para que ela ganhasse as eleições de 1983 e pudesse avançar sua agenda neoliberal que destroçou sindicatos, aumentou a pobreza da classe trabalhadora inglesa, e criou um sentimento de ódio na cidade de Liverpool, grande polo da massa trabalhadora do país. Dois países, com seus regimes anti-democráticos, que usaram de seu povo (e da vida de muitos jovens) para recuperar credibilidade, como se as vidas não valessem nada. O futebol respondeu ao conflito.
Em 1986, Maradona fez o famoso gol de mão, no episódio da “Mão de Deus”, além de um segundo gol, um dos mais belos da história das copas. Nas arquibancadas, minutos e mais minutos de pancadaria foram registrados, com os ingleses saindo no prejuízo contra os argentinos, ressentidos com o que havia acontecido na guerra. Muitas bandeiras inglesas foram tomadas na briga, virando símbolo de guerra para os torcedores argentinos. De alguma forma, as Malvinas estavam vingadas naquele estádio. Mas o que se observa é, em certa medida, o que Lênin havia combatido durante a Primeira Guerra Mundial, no seio da Segunda Internacional: a defesa de nações burguesas, com seus conflitos burgueses, por parte das massas e de alguns partidos socialistas. De forma alguma se deve combater o ressentimento dos argentinos, mas é necessário avaliar como e onde esse ressentimento deságua.
Na penúltima partida da Copa, no dia 15 de julho, após o apito final, jogadores argentinos hastearam bandeiras no gramado onde se podia ler: “Las Malvinas Son Argentinas (As Malvinas são Argentinas)”. Essa forma de nacionalismo argentino, por muitos chamado de Malvinismo, faz parte da vida social do país e do esporte, a ponto de muitos argentinos admitirem torcer para o Brasil num eventual jogo da seleção canarinho contra a Inglaterra. É uma ferida aberta no país, que de certa forma foi capturada pela extrema-direita. Javier Milei, o delinquente anarco-capitalista que controla o país, usou do tema para avançar com sua agenda econômica. Em 2025, afirmou que “a Argentina deve se tornar uma potência atraente (economicamente) para que os habitantes das ilhas prefiram ser argentinos”. Milei busca uma resolução pacífica para as Malvinas, principalmente por conta da admiração que tem por Thatcher e seu programa econômico. Milei não quer uma soberania de fato, e isso é claro para quem conhece os devaneios do neoliberalismo no quintal do capitalismo. As celebrações dos jogadores, portanto, carregam uma dor recente, mas um nacionalismo que parece instrumentalizado.
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A questão nacional e das Malvinas se torna mais complexa quando comparada com as questões internas do país. Delia Giovanola, uma das mais importantes figuras do Movimento Avós da Praça de Maio[1], pode ser a síntese dessa ideia. Uma foto clássica de Delia, segurando um papel escrito “As Malvinas são argentinas, os desaparecidos também”. É uma crítica justa à noção de malvinização[2], de um nacionalismo vago, que não leva em conta os crimes internos da ditadura. É nesse ponto que eu enxergo um cinismo absurdo entre os torcedores brasileiros. Nosso país, um dos mais racistas do mundo, no pódio de assassinatos de negros, pessoas trans e mulheres, não pode se dar ao luxo de apontar o dedo sem que ele entorte para si mesmo. Essa crítica vem de um homem negro, que sofre com o racismo brasileiro diariamente. Em que pesem os infindáveis episódios de racismo vindo de torcedores argentinos, em que pese a bandeira israelense na torcida argentina durante o jogo contra o Egito, em que pese a noção da direita argentina, e de uma enorme parcela da população, de que são uma espécie de “europeus nas Américas” – ou, também o fato de que, em 2023, torcedores argentinos levantaram uma bandeira da Palestina no estádio – nada disso apaga o Brasil como ele é, e seria ótimo que o racismo argentino fosse denunciado e combatido ao lado do racismo brasileiro, um dos mais bem desenvolvidos do mundo. Filipe Boni, um dos críticos culturais mais interessantes do momento, trouxe a definição perfeita para essa equação[3]:
“A Argentina é racista e finge que não tem negros, e o Brasil é racista e finge que ama os negros.”
Esse cinismo se torna candente quando vemos quem são as pessoas presentes nas arquibancadas de jogos do Brasil, e o perfil de quem faz apaixonadas declarações de amor aos negros na internet – claro, quando querem atacar o racismo argentino. Como nos lembra Fanon[4]: “De uns tempos pra cá tem se falado muito do preto. Fala-se até demais.(…)”.
Com a questão argentina posta, eu quero tocar um pouco numa ferida não tão aberta: o norte da África. Essa África tão falada, tão celebrada pelos seus feitos na antiguidade, essa África lembrada apenas como um folclore, é real. E essa realidade esconde relações muito pouco discutidas. Egito e Marrocos, por exemplo, foram duas seleções aclamadas na Copa. Eu mesmo torci para ambas – tanto por gostar muito de Mohamed Salah, craque egipcio, quanto pelo futebol apresentado pelos marroquinos nas duas últimas copas. O Marrocos, em especial, é digno de uma análise mais elaborada. Atingindo sua independência em 1956, a ex-colônia francesa tem estreitado laços com Israel, muito por conta da ajuda militar recebida contra a independência do Saara Ocidental, além de ter enviado tropas marroquinas para lutar ao lado dos sionistas contra a Palestina.[5] Ao mesmo tempo, a sociedade civil marroquina, e inclusive os torcedores de um dos principais clubes do país, o Raja Casablanca, dão apoio irrestrito à causa Palestina. A própria seleção do país já exibiu, diversas vezes, bandeiras da Palestina durante as partidas. Como lidar com essa contradição seleção-nação concreta? Como a seleção pode representar (ou não) os valores do país, e como ela pode (ou não) ser digna de nossa torcida? Marrocos, inclusive, que tem um grande problema com a África Negra, como é conhecida a região subsaariana do continente. Segundo Augusto Chidozie, pesquisador de políticas africanas e integrante do ótimo podcast Ponta de Lança, a visão dos marroquinos, cidadãos ou Estado, com relação à África Negra é bastante complexa. Muitos dos fatores que tornam essa relação difícil, e que, inclusive, torna a seleção de Marrocos uma rival dos demais torcedores do continente, se baseiam na maneira com que a identidade marroquina é formada. Ainda que um país africano, os marroquinos são de maioria muçulmana – com a maioria étnica do país sendo Berbere, o povo autóctone do país, além de forte presença de árabes, judeus, europeus e africanos negros. Inclusive, o uso de Berbere tem sido combatido por diversos povos do norte africano, como os próprios marroquinos – devido à origem etimológica da palavra, carregada de preconceito – sendo preferido o uso do termo Imazighen, que significa “homens livres”. Outros países do continente africano, como a Nigéria, o Egito, a Argélia e o Sudão são de maioria muçulmana, e essas tensões estão presentes em todos eles. O que difere, de certa maneira, os países do norte da África da parte subsaariana é a questão racial e sua relação com a religião. No Marrocos, ainda segundo Augusto Chidozie[6], “enquanto a África (negra) é vista como uma bagunça, o Marrocos posa como um país sério, bonito e mais próximo dos europeus. Isso acaba gerando uma sensação de superioridade na população marroquina, com a ideia de: ‘nós somos diferentes deles (africanos), eles são desorganizados, sujos, são inferiores a nós.’”
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A proximidade do Marrocos com a Espanha, separados por uma faixa 14 km, o chamado Estreito de Gibraltar, é elemento geopolítico de extrema importância tanto no comércio da Europa com o continente, quanto pela função de contenção de imigração africana para a Europa que Marrocos e o estreito ocupam.
“A Europa paga o Marrocos para ser uma espécie de polícia europeia na África, como uma barreira ao sul do Mediterrâneo contra a imigração negra à Europa. Então, vários africanos negros ficam presos na região de Tanger e outras cidades marroquinas. Isso acaba gerando tensões sociais na região, o que acaba resultando em ofensas, tratamentos discriminatórios, racismo.”[7]
Após uma partida entre Marrocos e Senegal pela Copa Africana de Nações Sub-17, torcedores marroquinos foram flagrados fazendo gestos racistas contra os senegaleses. A raça é um fator tão volátil e artificial – no sentido de sua base social e econômica – que cenas como essa, antes vistas apenas da parte de torcedores brancos, começam a ganhar forma até mesmo entre africanos de diferentes origens étnicas e tons de pele – em todo caso, não-brancos, ao menos pelos olhos europeus. O futebol é apenas um meio pelo qual as pessoas exprimem seu desprezo ou sua admiração sobre outros países, ainda que de maneira nebulosa.
Na Tunísia, o mesmo problema ocorre. Eliminada na primeira fase da Copa do Mundo de 2026, a seleção representa um país liderado por Kaïs Saïed, um conservador de direita, embora inflamado apoiador da Palestina. Mas seu apoio não passa de uma forma cínica para ganhos eleitorais, sem medidas concretas.[8] É importante lembrar, até mesmo para os progressistas brasileiros, que levantar a bandeira Palestina não significa, automaticamente, estar alinhado ao anticolonialismo e a um projeto de superação de todas as mazelas do capitalismo. O exemplo de Kaïs Saïed é ótimo.
“O negro. Os imigrantes subsaarianos, que são demais. Eles são uma ameaça, diferentes de nós. Primeiro nós, tunisianos, marroquinos, argelinos, egípcios (…)”[9], assim declarou Saïed em certa ocasião. Noutro momento, o presidente “levantou-se contra as ‘hordas’ de imigrantes da África subsaariana”, acusando-os de “serem instrumentos nas mãos de quem quer transformar a identidade árabe-muçulmana do país”.[10] O discurso é praticamente idêntico ao da extrema-direita europeia e católica. Fanon já havia nos alertado sobre a predominância de uma “forma cultural” de racismo, que mascararia as relações concretas desse elemento constituinte do mundo moderno. [11] Em momentos de crise econômica, o ‘Outro’ sempre será o bode expiatório, e outros tipos de ‘Outro’ surgiram. Conforme avançam as chamadas crises migratórias, e entendendo o norte da África como esse tampão que livra a Europa das “hordas africanas subsaarianas”, aumentam as tensões entre esses países, e o racismo, obscurecido por uma ideia de nacionalismo abstrato, passa a tomar conta dessas nações. Por conta dessa política dc Kaïs Saïed, vários imigrantes africanos estão retornando para seus países de origem, devido ao medo de represálias, racismo e assassinato pelo aparato de estado dos países norte-africanos.

Podemos citar ainda a seleção da República Democrática do Congo: uma seleção que não participava da Copa do Mundo desde 1974, quando ainda se chamava República do Zaire, e seu emblemático torcedor Lumumba Vea, que não apenas trouxe a memória de Patrice Lumumba para bilhões de pessoas no mundo, como expôs a crise que o país vive, com intermináveis guerras civis. Podemos falar também da seleção iraniana, extremamente boicotada no torneio, recebendo o carinho do nosso campo, e o apoio do México à delegação iraniana, uma das sedes do torneio, por meio da sua presidente Claudia Sheinbaum – um país cheio de contradições, principalmente após vitória da Revolução Islâmica de 1979, até a recente agressão sofrida pelos Estados Unidos e Israel. Também é importante lembrar da França, com sua seleção multiétnica, mas que de forma alguma representa as políticas de um país que, até hoje, possui uma colônia na fronteira com o estado do Amapá. Podemos falar da Argentina, e da sua dificuldade em lidar com a questão racial, assim como podemos falar do Brasil, pelos mesmos motivos – é inclusive bom lembrar que, entre 1921 e 1922, o Brasil impediu negros de jogarem pela seleção.
Esses não são problemas de 60, 100 ou 500 anos atrás, mesmo que muitos deles tenham se originado nessa época. São problemas atuais, de relações atuais, e enquanto apontamos a forma como brasileiros, cubanos, iranianos e africanos negros são tratados em diversos países, também temos o dever de pensar como essas pessoas são tratadas em nossas próprias nações. Como nos lembra, de forma majestosa, o autor Ta-Nehisi Coates[12]; “O escritor (…) deve ser cauteloso em relação a todo Sonho e toda nação, mesmo à sua própria nação. Talvez sua própria nação mais do que qualquer outra.”
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Sim, podemos torcer pelas seleções de acordo com nosso alinhamento ideológico, mas isso não deve acontecer por um olhar abstrato sobre a história desses países. Talvez o mais interessante do futebol seja seu poder de colocar em pé de igualdade, dentro do campo, duas seleções com níveis bastantes distintos de desenvolvimento. Só que esses níveis desenvolvimento nem sempre têm lastro no desenvolvimento material do país. Basta colocar, lado a lado, a seleção argentina e suíça, e ver qual o país mais desenvolvido, e qual a seleção mais desenvolvida, para entender esse aspecto. O mesmo se pode dizer dos Estados Unidos, a maior nação capitalista do mundo, mas que, por uma série de fatores culturais e materiais, não tem tradição alguma no futebol, ficando muito atrás da maioria das seleções africanas.
Acredito que o futebol seja um espaço onde grandes histórias reaparecem, nasçam, e que a rivalidade deve se aflorar, pois ela é intrínseca ao esporte. O que defendo, acima de tudo, é que novas figuras como Sócrates, Maradona, Raí, Éric Cantona, Reinaldo, e tantos outros exemplos de jogadores com grande projeção nacional e internacional, com pensamento progressista e comunista, possam ocupar esse espaço cada vez mais atolado em casas de aposta, sportwashing[13], jogadores-empresa, e outros elementos que vem acabando com o futebol. Nesse aspecto, as seleções desempenham um papel importante, mas que pode nos levar a formas de “desventuras da consciência nacional”[14] muito rasteiras. A esquerda precisa, mais do que escolher uma seleção “ex-colonizada” para torcer contra uma seleção “(ex)colonial”, compreender que o futebol é uma arena de disputa quase totalmente simbólica – com alguns devaneios de desenvolvimento político –, e que o que precisa se disputar são os corações dos jogadores e torcedores para causas maiores. Essas mudanças virão das populações concretas, com suas lutas e os possíveis internacionalismos, tão em falta nos dias de hoje. Talvez seja mesmo tosco ver um brasileito torcer pela Argentina, mas isso num plano da rivalidade esportiva. O argumento do racismo argentino pouco se sustenta quando lembramos que o Brasil é um dos campeões no assasinato de pessoas negras, indígenas e trans. Nossa grama é só um pouco mais verde que a dos “hermanos”. Inclusive, esse ponto é muito pautado por pessoas brancas no Brasil, com seus devaneios de “latinidade” quando saem do país. Esquecem-se do que representam no seu próprio quintal, e das tarefas que precisam cumprir para que, quem sabe, possam usar esse argumento com um pouco mais de dignidade.
Portanto, que possamos celebrar o esporte na Copa do Mundo Feminina de 2027, nas Olimpíadas de 2028, na próxima Copa do Mundo de Clubes em 2029, e na Copa do Mundo Masculina de 2030 – que, inclusive, vai ser realizada nos dois países ibéricos, pioneiros no roubo de africanos, e no Marrocos, nação com grandes problemas internos e na sua relação com o restante da África. Escolher para quem torcer é opcional, mas talvez a política não seja o melhor dos meios num capitalismo globalizado. Ironicamente, talvez a Copa do Mundo seja um momento de pensar mais nas histórias individuais do que coletivas: celebrar o goleiro Vozinha, de Cabo Verde, um paredão contra várias das maiores seleções do mundo em sua primeira Copa; de Jeremy Doku, atacante da seleção belga, que deixou a concentração para ver seu filho, que havia acabado de nascer; de Lamine Yamal, uma jóia de 19 anos, que a cada gol celebra com o gesto do número 304 o seu bairro, Rocafonda, região pobre da Catalunha, de forte influência da imigração de pessoas de outros países; de Mbappé, homem negro que não regena suas origens africanas, mas ainda francês por direito, opositor das casas de apostas, e recorrentemente crítico da extrema-direita francesa; de Lionel Messi, aos 39 anos, encantando o mundo da mesma maneira que o fazia em 2004, quando subiu ao profissional – ainda que, frequentemente e com razão, seja criticado por sua falta de posição política e oposição aos casos de racismo na Argentina, inclusive cometidos por seus companheiros de seleção. As histórias são muitas, mas é difícil pensá-las coletivamente. Poucos são os times de esquerda no mundo (as torcidas são um pouco maiores), mas nem sempre clubes e torcidas estão na mesma batida, e por conta disso torna-se difícil ser coerente ao escolher, politicamente, uma seleção para torcer. Obviamente, é simbólico que a FIFA tenha punido a seleção haitiana por conta da sua camisa em alusão à Revolução Haitiana, enquanto fez vista grossa para as manifestações nacionalistas da seleção argentina após o apito final no jogo contra a Inglaterra, e provavelmente isso diz muito sobre que tipo de manifestação seja aceita – afinal, o medo do “haitianismo” segue vivo num mundo dividido em raças. Mas existem outras questões, como os interesses da FIFA, de Donald Trump, Infantino, e toda a corja que comanda o futebol. Para que o esporte possa ser, realmente, esse palco político, ele deve, em primeiro lugar, refletir as aspirações corretas e honestas dos povos. Caso contrário, tudo não passará de um enorme estado de nacionalismo abstrato, que, em muito, ajuda a criar esse circo caracterizado por justificativas vazias e infundadas sobre a escolha de uma seleção para torcer. Talvez possa soar falso da minha parte afirmar que não consigo torcer para a seleção dos Estados Unidos ou de Israel, mas acredito que elas tenham muito em comum com as seleções italiana (1934) e alemã (1938). Casos qualitativamente diferentes dos que vimos em 2026, o que não apaga as contradições vigentes de nossa época.
Termino esse texto parafraseando Mauro Iasi, que apesar da péssima escolha para o título de seu texto no Instagram da Editora Boitempo, “Você não quer que a Argentina ganhe por inveja” – como se a inveja, no âmbito do esporte, fosse algo necessariamente ruim ou banal –, fez uma boa análise dessa questão, ainda que muito criticado pelo título do texto, algo cômico de uma era em que poucas pessoas realmente lêem algo além do título:
“Talvez um menino pobre, filho de imigrantes em Lavapiés ou Rocafonda seja tomado por essa paixão por conta da vitória da Espanha, ou alguém no East End, depois da vitória da Inglaterra, saia para jogar bola na rua, e eles virem atletas e mantenham viva esta paixão humana até que a máquina os exproprie de suas pequenas almas, ou até que nós destruamos a maquina para libertar o futebol, os meninos e todos nós”.[15]



































