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Por que a Coreia do Norte rejeitou o gesto de paz de Trump

A recusa da Coreia do Norte em aceitar a redução de exercícios militares dos EUA expõe a perda de capacidade de pressão de Washington na região

Dae-Han Song
Os presidentes da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), Kim Jong-Un, e dos EUA, Donald Trump, durante encontro em junho de 2018. (Foto: Joyce N. Boghosian / White House)
Os presidentes da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), Kim Jong-Un, e dos EUA, Donald Trump, durante encontro em junho de 2018. (Foto: Joyce N. Boghosian / White House)

Trump se ofereceu para reduzir a escala do exercício Ulchi Freedom Shield (realizado anualmente pelas Forças dos EUA na Coreia (USFK) e pelas Forças Armadas da República da Coreia (ROK)). No estilo típico de Trump, a decisão foi apresentada como uma solução que abrangia várias questões de uma só vez: uma punição à Coreia do Sul por sua postura pouco enérgica em relação ao Irã e um gesto de conciliação para com a Coreia do Norte. E, também no melhor estilo de Trump, a decisão fracassou completamente. Em vez de sentir a pressão, o governo sul-coreano de Lee acolheu a decisão. Já a Coreia do Norte, em vez de interpretá-la como um gesto de conciliação, a rejeitou. Então, o que aconteceu?

Em primeiro lugar, é importante observar que o Partido Democrático de Lee sempre tentou melhorar as relações intercoreanas. Reduzir a escala dos exercícios militares entre as Forças dos EUA na Coreia do Sul (USFK) e a Coreia do Sul sempre foi uma forma de alcançar esse objetivo. Se os governos do Partido Democrático da Coreia do Sul não pedem explicitamente uma reduçao dos exercícios aos EUA, é por medo de criar desconfiança nos EUA e provocar reações negativas entre os conservadores sul-coreanos. Da perspectiva de Lee, a redução da escala dos exercícios militares por parte de Trump não é um castigo. É um presente.

Por que a Coreia do Norte rejeitou esse gesto como insuficiente? Bem, em primeiro lugar, o aspecto improvisado e de última hora (na véspera) da decisão faz com que ela pareça mais uma ideia que surgiu depois, sem planejamento, do que um gesto bem pensado. No entanto, no passado, a Coreia do Norte acolheu tais pequenos gestos.

Isso porque os exercícios militares têm um impacto social na Coreia do Norte. Uma simples hipótese esclarece esse ponto. Se a China, juntamente com o Canadá, realizasse exercícios militares com dezenas de milhares de soldados usando munição real e simulando táticas de “decapitação” contra a Casa Branca, seria difícil imaginar os EUA seguirem com seu dia a dia, encarando os exercícios militares como uma medida rotineira para atualizar a prontidão militar. Afinal, como o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais observa, um ataque real poderia ter início disfarçado como um exercício.

Se os EUA se sentiriam ameaçados nesse cenário, a Coreia do Norte sente essa ameaça de forma muito mais real e exponencial. Não só os Estados Unidos possuem as forças armadas mais poderosas do mundo, como o orçamento militar da Coreia do Sul é 27 vezes maior que o da Coreia do Norte. Além disso, a Coreia do Norte ainda se lembra da destruição total que os EUA infligiram a ela. Os aviões dos EUA lançaram mais bombas durante a Guerra da Coreia — na sua esmagadora maioria no Norte — do que em todo o Teatro de Operações do Pacífico somado. Em 1952, já não havia alvos para os aviões dos EUA bombardearem.

E embora os exercícios “Ulchi Freedom Shield” e “Freedom Shield” sejam os maiores, exercícios militares contra a Coreia do Norte são realizados ao longo de todo o ano. Os maiores desses exercícios colocam a Coreia do Norte em alerta máximo, levando sua sociedade a uma paralisação. Isso deve-se ao fato de que as forças armadas da Coreia do Norte não servem apenas para a defesa, mas também são empregadas na construção civil e na indústria. Além disso, é necessário mobilizar contramedidas, o que consome ainda mais energia e recursos do país.

Então, se aceitou esses gestos no passado, por que a Coreia do Norte os rejeitou desta vez? Isso pode ser explicado, em parte, pela melhoria dramática na posição geopolítica e econômica da Coreia do Norte na região. À medida que o Sistema de São Francisco — liderado pelos EUA e composto por alianças bilaterais regionais — e a OTAN estão fragmentando o mundo em blocos rivais, a Coreia do Norte consolidou uma “aliança de sangue” com a Rússia ao enviar tropas norte-coreanas para a Ucrânia. Como resultado, as sanções americanas, que antes eram devastadoras, não conseguem mais isolar e pressionar a Coreia do Norte. Em outras palavras, à medida que a Coreia do Norte se alinha com a China e a Rússia, a influência e a pressão dos EUA contra ela diminuem. Na verdade, a economia da Coreia do Norte está em franca expansão.

Diante de sua desastrosa guerra no Irã, Trump está tentando ganhar alguns pontos de imagem antes das eleições de novembro nos EUA. A longo prazo, ele quer afastar a Coreia do Norte do campo de influência da China. No entanto, há poucos motivos para a Coreia do Norte romper essas relações em troca de promessas que os EUA talvez nunca cumpram, como a história mostra de forma contundente, incluindo a retirada de Trump das negociações com Kim Jong-un no último minuto em 2019. Além disso, nada garante que um acordo seja aprovado pelo Congresso. E, mesmo que seja, que ele consiga sobreviver a um governo pós-Trump. Os democratas dos EUA já estão se mostrando falcões ainda mais radicais contra a Coreia do Norte do que o governo Trump.

Em última análise, nada disso descarta a possibilidade de Trump e Kim se encontrarem ou mesmo de chegarem a algum tipo de acordo. A Coreia do Norte é um país ferozmente independente que se recusa a ficar em dívida com qualquer nação. Assim, não quer que sua soberania nacional dependa de nenhum outro país, mesmo que seja a Rússia ou a China. Portanto, relações significativas com os EUA lhe permitiriam maior independência.

A redução da escala dos exercícios militares das Forças dos EUA na Coreia do Sul (USFK) e da Coreia do Sul deve ser bem-vinda. No entanto, por si só, isso simplesmente não é suficiente diante do histórico de promessas quebradas dos EUA e de seu clamor por guerra na região. Em última análise, a paz na Coreia terá que depender da paz na região. A paz na região só pode ser alcançada com o desmantelamento do Sistema de São Francisco dos EUA, composto por alianças militares bilaterais.

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